O que significa “poder” no jogo dos tronos?

Inspirado na série de livros “A Song of Ice and Fire”, o seriado “Game of Thrones” chegou recentemente à sua sétima temporada. Não é surpreendente que a primeira publicação deste blog, em 2013, tenha sido justamente sobre esse popular programa de TV. Além de seu inegável sucesso [1], a utilização do seriado para explicar conceitos das Ciências Sociais justifica-se por sua dimensão política. Assim como os livros que o inspiraram, o seriado traz um conjunto diverso de temas frequentes no estudo da Ciência Política, tais como discussões relacionadas à estratégia, à disputa pelo poder, aos dilemas morais [2] e à relação entre religião e Estado. Os temas são infinitos e analisar todos eles resultaria em uma série de livros tão grande quanto a que originou o seriado. Como me falta disponibilidade, vou me deter em um aspecto específico: o conceito de poder [3].

Não é novidade que a Ciência Política, como disciplina, esteja associada ao estudo dos fenômenos relacionados ao exercício do poder. Trata-se de uma definição ampla em contraposição à “Ciência do Estado” [4]. O “poder” abrange um conjunto diverso de relações, mas o que a Ciência Política estuda é um poder específico, i.e. o poder político [5]. Mas o que seria esse tal “poder político”? Tradicionalmente, o poder político se diferencia dos demais tipos de poder devido a duas características: o espaço e a alocação autoritária. O espaço refere-se a uma determinada coletividade (a sociedade em um território delimitado, no caso do Estado), enquanto a alocação autoritária consiste na existência de um processo de tomada de decisões e realização de ações em nome da sociedade. A obrigatoriedade das decisões advém da obediência consentida – que remete ao conceito de “legitimidade”* – e da coerção [6]. Claramente, essa perspectiva baseia-se na concepção de Max Weber, o qual associa o Estado ao monopólio legítimo da força e o próprio conceito de política ao Estado [7].

Assim, a visão tradicional, na Ciência Política, sobre o poder relacionava o termo a outras expressões como “força” e “violência”. Hannah Arendt, por outro lado, ressalta a necessidade de diferenciar esses termos. Segundo a autora, embora se combinem na maioria dos casos, “poder” e “violência” são conceitos opostos. Quando há 100% de violência, não existe poder, uma vez que o poder é a “habilidade de agir em concerto”. O poder pertence, portanto, ao grupo, enquanto o vigor – geralmente confundido com a força – é um atributo individual [8]. O poder é um fim em si mesmo, ao passo que a violência é um instrumento. O poder está relacionado ao apoio da maioria. A violência, por outro lado, é uma ferramenta da minoria para tentar destruir o poder (ela pode destruí-lo, inclusive, mas não pode cria-lo). [9]

A sétima temporada de “Game of Thrones” traz novamente conhecidos personagens disputando pelo trono de Westeros, que controla os reinos. A disputa principal, porém concentra-se agora no conflito entre duas mulheres: Cersei e Daenerys. Cersei Lannister encontra-se no trono, mas será que ela tem poder segundo o conceito de Arendt? Cersei usa e abusa da violência, como os fãs da série estão cansados de saber. Mas, por outro lado, a população de Westeros não parece se opor veementemente aos desmandos da Lannister. Inclusive, nos últimos episódios, a população aplaude Euron das Ilhas de Ferro, quando ele chega com suas cativas. Hannah Arendt associa o silêncio da maioria como uma espécie de apoio, ainda que velado. Na vida real, mesmo os regimes autoritários e totalitários tiveram uma base de apoio da população (é só lembrar que importante camada da classe média brasileira apoio o golpe militar de 64). O argumento da autora é que nenhuma estrutura de poder se sustenta apenas com o uso da violência.

Daenerys Targaryen tem um grande poderio militar à sua disposição: como se três dragões não bastassem, ela dispõe de dois tipos de exércitos. Entretanto, seus conselheiros vêm sugerindo que ela economize a violência. O que Varys e Tyrion tentam ensinar à Daenerys nesta temporada se relaciona justamente ao entendimento de Hannah Arendt acerca do conceito de “poder”. Nesse sentido, eles acreditam que o poder requer o apoio do povo e não se constrói meramente com base em inocentes e casas queimadas. Varys, aliás, já havia deixado isso claro a Tyrion em temporadas passadas, ao contar uma breve anedota. Resumidamente, Varys questiona quem detém o poder em uma sala com um rei, um sacerdote e um rico. Tyrion responde que detém o poder aquele que possui a espada. Mas ele estava enganado. A resposta ao enigma é simples: o poder reside onde as pessoas acreditam que reside.

Nota-se que Tyrion atribui o poder a uma qualidade individual: a espada ou a coroa (que denota, em verdade, na capacidade de mobilizar a espada). Mas Varys esclarece que o poder não é individual, e sim, é um atributo do grupo, uma demonstração do apoio do povo. Resta saber quem o povo irá apoiar para o trono de ferro, se é que vai apoiar alguém (ou se ainda vai existir alguém vivo para fazê-lo). Mas essa é uma resposta que só a próxima temporada vai nos dar.

 

Fontes:

[1] O sucesso é tamanho que “Game of Thrones” foi uma das séries mais pirateadas em 2016: http://time.com/4618954/game-of-thrones-pirated-2016/

[2] Recentemente, The Economist publicou um artigo sobre isso: https://www.economist.com/blogs/prospero/2017/07/how-westeros-won

[3] Em posts anteriores, abordei questões relacionadas à estratégia e ao pensamento de Maquiavel: https://politiculturarte.wordpress.com/2013/01/ e https://politiculturarte.wordpress.com/2013/04/

[4] SCHMITTER, Philippe C. Reflexões sobre o Conceito de Política. In: Cadernos da UnB. pp. 43-51

[5] DIEU, François. Introduction à la Méthode de la Science Politique. Paris: L’Harmattan, 2008

* O conceito de legitimidade está relacionado à aceitação.

[6] DIEU, François. Introduction à la Méthode de la Science Politique. Paris: L’Harmattan, 2008.

[7] WEBER, Max. “Política como vocação”, em: Ciência e política: duas vocações, várias edições. Disponível em: http://docs.wixstatic.com/ugd/956028_d9bb61406fec4b53b3a3a86547d0533a.pdf

[8] ARENDT, Hannah. Da violência, Brasília: Editora da UnB, 1985, Capítulo 2, pp. 19 a 31

[9] Ibidem

Estratégia política e o jogo dos tronos

Espíritos da floresta, disputa entre reis de reinos distantes, lobos gigantes e mortos que se locomovem. Destacando esses elementos, até parece que Game of Thrones – a aclamada série da HBO que tem origem na série de livros A Song of Ice and Fire – não tem nada do mundo real. Porém, assistindo e analisando de forma mais profunda, podemos perceber que a série, na realidade, traz muitos elementos de fora da ficção: intrigas, conflitos e, principalmente, disputas políticas.

A 1ª Temporada traz a história de Eddard Stark, uma espécie de senhor feudal que vive na região gelada de Winterfell. Eddard era amigo do rei, mas ao contrário de ir à Parságada, acaba se envolvendo em um jogo muito perigoso. A pedido de seu amigo, ele aceita o cargo de Mão do Rei, uma espécie de conselheiro com poder de polícia (o rei dita as regras, a Mão as executa), função que outrora fora ocupada por outro Senhor misteriosamente falecido. Porém, ao investigar a morte do antigo senhor que antes ocupara o mesmo posto, Eddard descobre uma série de intrigas e jogos políticos.

Nessa disputa, encontram-se diversos personagens: Cersei, a Rainha e esposa do Rei Robert, amigo de Eddard; Jaime, o regicida e irmão de Cersei; Mindinho, um dos membros do conselho; Varys, chamado de “aranha” e outro membro do conselho; e é claro, o grande vilão: o príncipe Jeoffrey. Eddard tem um senso de ética que o compele a executar todos os seus planos às claras. Assim, quando ele descobre o maior segredo da vida de Cersei – a paternidade do príncipe Jeoffrey – ele conta à moça que pretende dizer ao rei e aconselha a fuga da Rainha e sua prole.

A intenção era das melhores: Eddard pensara nas crianças de Cersei e na ira de Robert, que poderia prejudicar os filhos inocentes (além da abominação do Jeoffrey, é necessário lembrar que Cersei tem outros dois filhos, Tommen e Myrcella).  Entretanto, o resultado foi o pior possível: Robert é morto em caçada sem saber da verdade, Jeoffrey assume o reino e Eddard é condenado à morte. As consequência também não são nada boas: o reino passa fome, Jeoffrey é péssimo como rei e ser humano e a família Stark passa por situações terríveis.

E qual a causa dessa série de desfortunas? A inocência política de Eddard Stark. A política, fora da ficção, também funciona, em muitas situações, como um jogo. Primeiro, porque os políticos no geram intendem à sobrevivência política. Tal sobrevivência depende de uma série de fatores, entre eles a conquista do eleitorado. Para atingir tais fins, existem diversos meios.

Uma das mais famosas discussões sobre “meios” e “fins” está na obra de Maquiavel [1], embora seja preferível utilizar a palavra “resultados” ao invés de fins. Para Maquiavel, se os resultados da são positivos, os meios são válidos. A maior proeza no pensamento de Maquiavel é a ética distinta da Política, separada de uma ética cristã, em que “virtude” tem outro significado.

Entretanto, a coerência entre meios e fins também pode ser vista como um meio, ou uma questão estratégica. Quando Munck [2] analisa os movimentos sociais, considera como uma premissa básica a consistência entre estratégia e identidade, em que uma preponderância forte de uma sobre a outra pode trazer efeitos extremamente negativos.

Dessa maneira, Eddard queria salvar o reino. Simultaneamente, ele também queria proteger as crianças de Cersei. Não conseguiu plenamente nem uma nem outra e ainda expôs toda a sua família a terríveis perigos. Nem sempre conciliar ética e estratégia é fácil. Na realidade, na maioria das vezes, é bastante difícil – além do próprio debate sobre o que é “ético” ou “não”. Na política, porém, ambos são indispensáveis, embora eu arrisque dizer que a estratégia anda prevalecendo…

Por fim, fica comprovada a frase de Cersei: No jogo dos tronos, você vence ou morre. Assim como na política, mesmo que “morrer” nesse caso signifique não sobreviver politicamente.

 

Power resides only where men believe it resides. […] A shadow on the wall, yet shadows can kill.And ofttimes a very small man can cast a very large shadow.” (Frase bem lembrada por Iago Affonso)

 

Fontes:

[1] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Disponível em: http://www.fae.edu/pdf/biblioteca/O%20Principe.pdf

[2] MUNCK, Gerardo. Formação de Atores, Coordenação Social e Estratégia Política: Problemas Conceituais do Estudo dos Movimentos Sociais. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52581997000100005

MARTIN, George R.R. O Jogo dos Tronos (Crônicas de Gelo e Fogo, vol. 1)