Estratégia política e o jogo dos tronos

Espíritos da floresta, disputa entre reis de reinos distantes, lobos gigantes e mortos que se locomovem. Destacando esses elementos, até parece que Game of Thrones – a aclamada série da HBO que tem origem na série de livros A Song of Ice and Fire – não tem nada do mundo real. Porém, assistindo e analisando de forma mais profunda, podemos perceber que a série, na realidade, traz muitos elementos de fora da ficção: intrigas, conflitos e, principalmente, disputas políticas.

A 1ª Temporada traz a história de Eddard Stark, uma espécie de senhor feudal que vive na região gelada de Winterfell. Eddard era amigo do rei, mas ao contrário de ir à Parságada, acaba se envolvendo em um jogo muito perigoso. A pedido de seu amigo, ele aceita o cargo de Mão do Rei, uma espécie de conselheiro com poder de polícia (o rei dita as regras, a Mão as executa), função que outrora fora ocupada por outro Senhor misteriosamente falecido. Porém, ao investigar a morte do antigo senhor que antes ocupara o mesmo posto, Eddard descobre uma série de intrigas e jogos políticos.

Nessa disputa, encontram-se diversos personagens: Cersei, a Rainha e esposa do Rei Robert, amigo de Eddard; Jaime, o regicida e irmão de Cersei; Mindinho, um dos membros do conselho; Varys, chamado de “aranha” e outro membro do conselho; e é claro, o grande vilão: o príncipe Jeoffrey. Eddard tem um senso de ética que o compele a executar todos os seus planos às claras. Assim, quando ele descobre o maior segredo da vida de Cersei – a paternidade do príncipe Jeoffrey – ele conta à moça que pretende dizer ao rei e aconselha a fuga da Rainha e sua prole.

A intenção era das melhores: Eddard pensara nas crianças de Cersei e na ira de Robert, que poderia prejudicar os filhos inocentes (além da abominação do Jeoffrey, é necessário lembrar que Cersei tem outros dois filhos, Tommen e Myrcella).  Entretanto, o resultado foi o pior possível: Robert é morto em caçada sem saber da verdade, Jeoffrey assume o reino e Eddard é condenado à morte. As consequência também não são nada boas: o reino passa fome, Jeoffrey é péssimo como rei e ser humano e a família Stark passa por situações terríveis.

E qual a causa dessa série de desfortunas? A inocência política de Eddard Stark. A política, fora da ficção, também funciona, em muitas situações, como um jogo. Primeiro, porque os políticos no geram intendem à sobrevivência política. Tal sobrevivência depende de uma série de fatores, entre eles a conquista do eleitorado. Para atingir tais fins, existem diversos meios.

Uma das mais famosas discussões sobre “meios” e “fins” está na obra de Maquiavel [1], embora seja preferível utilizar a palavra “resultados” ao invés de fins. Para Maquiavel, se os resultados da são positivos, os meios são válidos. A maior proeza no pensamento de Maquiavel é a ética distinta da Política, separada de uma ética cristã, em que “virtude” tem outro significado.

Entretanto, a coerência entre meios e fins também pode ser vista como um meio, ou uma questão estratégica. Quando Munck [2] analisa os movimentos sociais, considera como uma premissa básica a consistência entre estratégia e identidade, em que uma preponderância forte de uma sobre a outra pode trazer efeitos extremamente negativos.

Dessa maneira, Eddard queria salvar o reino. Simultaneamente, ele também queria proteger as crianças de Cersei. Não conseguiu plenamente nem uma nem outra e ainda expôs toda a sua família a terríveis perigos. Nem sempre conciliar ética e estratégia é fácil. Na realidade, na maioria das vezes, é bastante difícil – além do próprio debate sobre o que é “ético” ou “não”. Na política, porém, ambos são indispensáveis, embora eu arrisque dizer que a estratégia anda prevalecendo…

Por fim, fica comprovada a frase de Cersei: No jogo dos tronos, você vence ou morre. Assim como na política, mesmo que “morrer” nesse caso signifique não sobreviver politicamente.

 

Power resides only where men believe it resides. […] A shadow on the wall, yet shadows can kill.And ofttimes a very small man can cast a very large shadow.” (Frase bem lembrada por Iago Affonso)

 

Fontes:

[1] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Disponível em: http://www.fae.edu/pdf/biblioteca/O%20Principe.pdf

[2] MUNCK, Gerardo. Formação de Atores, Coordenação Social e Estratégia Política: Problemas Conceituais do Estudo dos Movimentos Sociais. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52581997000100005

MARTIN, George R.R. O Jogo dos Tronos (Crônicas de Gelo e Fogo, vol. 1)

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