O que significa “poder” no jogo dos tronos?

Inspirado na série de livros “A Song of Ice and Fire”, o seriado “Game of Thrones” chegou recentemente à sua sétima temporada. Não é surpreendente que a primeira publicação deste blog, em 2013, tenha sido justamente sobre esse popular programa de TV. Além de seu inegável sucesso [1], a utilização do seriado para explicar conceitos das Ciências Sociais justifica-se por sua dimensão política. Assim como os livros que o inspiraram, o seriado traz um conjunto diverso de temas frequentes no estudo da Ciência Política, tais como discussões relacionadas à estratégia, à disputa pelo poder, aos dilemas morais [2] e à relação entre religião e Estado. Os temas são infinitos e analisar todos eles resultaria em uma série de livros tão grande quanto a que originou o seriado. Como me falta disponibilidade, vou me deter em um aspecto específico: o conceito de poder [3].

Não é novidade que a Ciência Política, como disciplina, esteja associada ao estudo dos fenômenos relacionados ao exercício do poder. Trata-se de uma definição ampla em contraposição à “Ciência do Estado” [4]. O “poder” abrange um conjunto diverso de relações, mas o que a Ciência Política estuda é um poder específico, i.e. o poder político [5]. Mas o que seria esse tal “poder político”? Tradicionalmente, o poder político se diferencia dos demais tipos de poder devido a duas características: o espaço e a alocação autoritária. O espaço refere-se a uma determinada coletividade (a sociedade em um território delimitado, no caso do Estado), enquanto a alocação autoritária consiste na existência de um processo de tomada de decisões e realização de ações em nome da sociedade. A obrigatoriedade das decisões advém da obediência consentida – que remete ao conceito de “legitimidade”* – e da coerção [6]. Claramente, essa perspectiva baseia-se na concepção de Max Weber, o qual associa o Estado ao monopólio legítimo da força e o próprio conceito de política ao Estado [7].

Assim, a visão tradicional, na Ciência Política, sobre o poder relacionava o termo a outras expressões como “força” e “violência”. Hannah Arendt, por outro lado, ressalta a necessidade de diferenciar esses termos. Segundo a autora, embora se combinem na maioria dos casos, “poder” e “violência” são conceitos opostos. Quando há 100% de violência, não existe poder, uma vez que o poder é a “habilidade de agir em concerto”. O poder pertence, portanto, ao grupo, enquanto o vigor – geralmente confundido com a força – é um atributo individual [8]. O poder é um fim em si mesmo, ao passo que a violência é um instrumento. O poder está relacionado ao apoio da maioria. A violência, por outro lado, é uma ferramenta da minoria para tentar destruir o poder (ela pode destruí-lo, inclusive, mas não pode cria-lo). [9]

A sétima temporada de “Game of Thrones” traz novamente conhecidos personagens disputando pelo trono de Westeros, que controla os reinos. A disputa principal, porém concentra-se agora no conflito entre duas mulheres: Cersei e Daenerys. Cersei Lannister encontra-se no trono, mas será que ela tem poder segundo o conceito de Arendt? Cersei usa e abusa da violência, como os fãs da série estão cansados de saber. Mas, por outro lado, a população de Westeros não parece se opor veementemente aos desmandos da Lannister. Inclusive, nos últimos episódios, a população aplaude Euron das Ilhas de Ferro, quando ele chega com suas cativas. Hannah Arendt associa o silêncio da maioria como uma espécie de apoio, ainda que velado. Na vida real, mesmo os regimes autoritários e totalitários tiveram uma base de apoio da população (é só lembrar que importante camada da classe média brasileira apoio o golpe militar de 64). O argumento da autora é que nenhuma estrutura de poder se sustenta apenas com o uso da violência.

Daenerys Targaryen tem um grande poderio militar à sua disposição: como se três dragões não bastassem, ela dispõe de dois tipos de exércitos. Entretanto, seus conselheiros vêm sugerindo que ela economize a violência. O que Varys e Tyrion tentam ensinar à Daenerys nesta temporada se relaciona justamente ao entendimento de Hannah Arendt acerca do conceito de “poder”. Nesse sentido, eles acreditam que o poder requer o apoio do povo e não se constrói meramente com base em inocentes e casas queimadas. Varys, aliás, já havia deixado isso claro a Tyrion em temporadas passadas, ao contar uma breve anedota. Resumidamente, Varys questiona quem detém o poder em uma sala com um rei, um sacerdote e um rico. Tyrion responde que detém o poder aquele que possui a espada. Mas ele estava enganado. A resposta ao enigma é simples: o poder reside onde as pessoas acreditam que reside.

Nota-se que Tyrion atribui o poder a uma qualidade individual: a espada ou a coroa (que denota, em verdade, na capacidade de mobilizar a espada). Mas Varys esclarece que o poder não é individual, e sim, é um atributo do grupo, uma demonstração do apoio do povo. Resta saber quem o povo irá apoiar para o trono de ferro, se é que vai apoiar alguém (ou se ainda vai existir alguém vivo para fazê-lo). Mas essa é uma resposta que só a próxima temporada vai nos dar.

 

Fontes:

[1] O sucesso é tamanho que “Game of Thrones” foi uma das séries mais pirateadas em 2016: http://time.com/4618954/game-of-thrones-pirated-2016/

[2] Recentemente, The Economist publicou um artigo sobre isso: https://www.economist.com/blogs/prospero/2017/07/how-westeros-won

[3] Em posts anteriores, abordei questões relacionadas à estratégia e ao pensamento de Maquiavel: https://politiculturarte.wordpress.com/2013/01/ e https://politiculturarte.wordpress.com/2013/04/

[4] SCHMITTER, Philippe C. Reflexões sobre o Conceito de Política. In: Cadernos da UnB. pp. 43-51

[5] DIEU, François. Introduction à la Méthode de la Science Politique. Paris: L’Harmattan, 2008

* O conceito de legitimidade está relacionado à aceitação.

[6] DIEU, François. Introduction à la Méthode de la Science Politique. Paris: L’Harmattan, 2008.

[7] WEBER, Max. “Política como vocação”, em: Ciência e política: duas vocações, várias edições. Disponível em: http://docs.wixstatic.com/ugd/956028_d9bb61406fec4b53b3a3a86547d0533a.pdf

[8] ARENDT, Hannah. Da violência, Brasília: Editora da UnB, 1985, Capítulo 2, pp. 19 a 31

[9] Ibidem

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Uma reflexão sobre a música na contemporaneidade

   Depois de um “longo e tenebroso inverno” volto a escrever para este blog. E o assunto deste texto é a música mais precisamente a “não-erudita” no mundo atual. A ideia de desenvolver algumas ideias sobre o assunto me veio depois de algumas conversas com  familiares, amigos e amigas sobre a questão da massificação de certos gêneros e artistas na indústria musical atual em detrimento de outros.

   A música de massa existe de longa data. Mas, se pararmos pra observar mais cautelosamente, a diversidade entre gêneros que alcançam um grande público foi reduzindo com o passar dos anos, principalmente a partir dos anos 90. No Brasil, por exemplo, foi transmitido por grandes emissoras do país, como a TV Globo e Record, o Festival da Música Popular Brasileira entre os anos 1965 e 1985 que dava espaço para uma ampla gama de gêneros e artistas nacionais distintos[1]. Em 1970, no Reino Unido, bandas como o Black Sabbath e Deep Purple ficaram entre as mais escutadas do país. Em 1981, o Motörhead alcançou o topo das paradas britânicas com o álbum No Sleep ‘til Hammersmith e o Metallica em 1988 alcançou o 6º lugar entre as mais escutadas da Billboard com o álbum …And Justice for all. O que estes exemplos demonstram? Eles demonstram que um ritmo mais agressivo como o Heavy Metal já teve mais espaço na indústria da música e na mídia, algo inimaginável hoje em dia. Hoje em dia, o gênero de uma maneira geral, apesar de resistir, fica restrito aos circuitos mais undergrounds e tem pouco espaço nos meios de divulgação de massa.

   Mas, isto não acontece só com o Heavy Metal. O Rock Progressivo, um gênero conhecido por canções longas e muitas delas instrumentais, já alcançou o 13º lugar na Billboard com Roundabout do Yes em 1972, 11º lugar com Carry On Wayward Son do Kansas em 1977, 21º lugar com The Myths & Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table de Rick Wakeman em 1975 e 1º lugar com Another Brick on the Wall (Part II) do Pink Floyd em 1980, por exemplo. Este gênero nos dias atuais é ainda mais deslocado do mainstream do que o anterior.

   No entanto, há também os ritmos que já eram populares anteriormente e sofreram adaptações. O Samba e o Funk carioca por exemplo mudaram esteticamente e no formato das canções para se tornar mais vendável e atrair um público maior e diversificado. Aí está a palavra-chave: vendável. Coincidentemente (ou não), essas mudanças nas dinâmicas do mercado musical tem início a partir do processo de globalização econômica e financeira, caracterizada por mercados mais desregulados e menor intervenção política na esfera econômica. Uma das características deste cenário que se desenvolveu após as crises do petróleo nos anos 70 e foi se aprofundando a partir de então é a crescente formação de conglomerados econômicos internacionais. Não aprofundarei este tema aqui, pois o que me importa neste texto é tentar esboçar razões na indústria e consumo da música a partir deste cenário. Assim, o que isso quer dizer com relação ao tema em questão? Que para esses grupos criarem e manterem um mercado amplamente massificado, focar em certos gêneros que já tem um consumo considerável e torná-los mais palatáveis a outros consumidores é uma estratégia racional. No Brasil, por exemplo, o Sertanejo, o Pagode e o Funk são gêneros que estão presentes em grande parte das casas noturnas que atendem clientelas de diferentes classes sociais. Além disso, o IBGE divulgou em 2013 que os 3 ritmos ocupam espaço significativo na preferência musical do brasileiro ao lado de Forró, Rock, Música Eletrônica, Religiosa e Axé[2]. Fora desses gêneros, a porcentagem de outros é bem baixa. Além disso, sob um olhar mais qualitativo, provavelmente dentro de cada gênero mencionado na pesquisa, há variações entre sub-gêneros. Por exemplo, dentro do Sertanejo, provavelmente duplas de Sertanejo Universitário terão ampla preferência em relação à música sertaneja mais tradicional. Este exemplo se generaliza para os demais gêneros.

   Creio também que uma característica fundamental é a curta duração das músicas independentemente do gênero. Dificilmente, as músicas atuais ultrapassam os 2 mins de duração. Isso provavelmente ocorre para que haja a venda de maior quantidade de músicas possível. Por exemplo, o que a EMI ganharia vendendo uma música que dura 20 mins como Thick as a Brick do Jethro Tull, enquanto que dentro desse tempo pode vender em torno de 9 a 10 músicas contendo em torno de 2 mins cada? Assim, como em outras áreas como a alimentação (fast-food), a música também entra no sentido de padronizar cada vez mais os gostos. Tal hipótese pode ser observada nos dados mostrados pelo Jornal Nexo a partir de amostras da plataforma online Spotify[3]. Nota-se nesta pesquisa que os artistas de Hip-Hop e Música Pop Drake e Justin Bieber aparecem entre os mais escutados em quase todos os países observados. Dentre os gêneros, destaca-se o Eletrônico e Hip-Hop. No Brasil, além deles entra também o Sertanejo no qual entre as duplas mais ouvidas, destacam-se as de Sertanejo Universitário.

   Por fim, concluo que há uma aparente tendência a tornar mais “palatável” ritmos já populares e além disso a redução no tempo das músicas para que a venda e consumo destas sejam cada vez mais massificadas. Assim, reduz-se o espaço dado pelo mercado a gêneros mais “extremas” como o Heavy Metal e com músicas de longas durações como o Rock Progressivo, pois não dão o retorno econômico esperado aos conglomerados de música e mídia dentro do mundo globalizado. No entanto, estes e outros gêneros que se enquadram nesta característica, por mais que estejam mais deslocados, resistem. Além disso, grupos de gêneros “já populares” que não se tornam “palatáveis” para um público amplo e diverso também encontram dificuldade de espaço no mercado musical e ficam restrito a nichos. Assim, a diversidade musical tende a ficar comprometida sob a lógica dos mercados globalizados e pouco controle político sobre as forças econômicas.

   Cabe aqui ressaltar que trata-se de um ensaio. Acho que pesquisas mais criteriosas que tratassem do impacto da globalização econômica na música dariam trabalhos interessantes.

 

[1] Vale lembrar que o Brasil estava em plena Ditadura Militar e assim, havia o risco de perseguições dependendo do teor da letra da música e a entrada de músicas estrangeiras era escassa.

[2] Fonte: http://g1.globo.com/musica/noticia/2013/10/sertanejo-e-o-estilo-mais-ouvido-por-brasileiros-no-radio-diz-ibope.html

[3] Fonte: https://www.nexojornal.com.br/grafico/2016/11/07/O-gosto-musical-dos-pa%C3%ADses-de-acordo-com-o-Spotify

Occupy Wall Street: the girl against the excesses of copyright protection

Fearless_Girl

(Photo Credit: Rachel Knipel / Work licensed under the Creative Commons Attribution-ShareAlike 4.0 License. )

That famous sculpture in New York, “Charging Bull”, was installed in 1989 by its sculptor without a permit [1]. Recently, other sculpture was installed there, at the same place. It was a sculpture of a little girl apparently confronting the bull. This new sculpture is called “Fearless Girl” and it was installed with a temporary permit as part of a campaign due to the International Women’s Day. Ironically, Arturo Di Modica, the creator that installed “Charging Bull” without a permit, accused New York City of infringing the copyright related to his sculpture because of the extension of the temporary installation of “Fearless Girl”. The creator claims that “Fearless Girl” changes the meaning of his sculpture, what would warm his moral rights, as Business Insider explains [2].

Indeed, in the field of copyright and related rights, there is something called “moral rights”, which refer to the relationship between the author and his/her intellectual work. The scope of moral rights vary according to the countries. On the one hand, countries following the civil law tradition (and the logics of the “droit d’auteur”) usually have stronger systems in terms of moral rights. On the other hand, moral rights were historically limited in the United States, the main reason why this country took so many years to ratify the Berne Convention [3]. In the U.S., moral rights comprise the right of attribution and the right of integrity [4]. Bearing it in mind, does “Fearless Girl” infringe the moral rights of the owner of “Charging Bull”? I would argue that no and I will try to explain why.

Technically, the installation of “Fearless Girl” infringes the right of integrity because it gives a new meaning to the previous sculpture (not intended by his creator, Modica). It is not only the bull anymore. There is a girl confronting it. His lawyers claimed the intention of “Charging Bull” was not to cause the death of a little girl [5]. However, the new statue is not about it either, is it? The charging bull was supposedly a gift to NYC and it is a symbol of the “’strength and power of the American people” [6]. Taking into consideration where the artist chose to place his sculpture, one could say that the bull represents the power and resilience of the U.S. economy. Therefore, the girl affronting the bull could represent a defying attitude to the U.S. economy. Indeed, it may be an expression of protests against sexist institutions (very common in the field of economics, by the way!).

In any case, I do not believe there is a copyright infringement here. There are many reasons to confront this weak argument related to moral rights. First, it is important to highlight that copyright is not an absolute right. There are some limits to it, called “limitations and exceptions”, whose goal is to provide a balanced system between authors’ rights and the public interest. The United States adopt a “fair use” system, which means that limitations and exceptions are applied in a case-by-case analysis. A fair use is a permitted use of copyrighted material without permission of the right holder. Although the court has certain level of freedom to decide on fair use, the law provides some parameters to this analysis. When deciding if a use may qualify as a fair use, judges consider the following factors: the purpose and character of the use, the nature of the copyrighted work, the amount and substantiality of the portion taken, and the effect of the use upon the potential market [7].

Some authors may claim fair use applies exclusively to economic rights, whose nature is different from moral rights. Nevertheless, the U.S law states that the rights of attribution and integrity are subject to fair use (U.S.C. Title 17, §107) [8]. The statue “Fearless Girl” is clearly transformative, does not take any portion of the previous work, and does not have any real impact upon the potential market of “Charging Bull”. Furthermore, fair use is related to some specific purposes. One of them is “criticism”. Installed to celebrate the anniversary of the “Gender Diversity Index”, “Fearless Girl” may be useful to criticize the lack of gender diversity at workplace. Considering this purpose and the factors above, it may qualify as a fair use. Most importantly, fair use points out the relevance of some principles beyond copyright protection rules. Copyright was not created as an “end in itself”. Most justifications for intellectual property rights consider the rights of the public. Utilitarian theories justify property rights as economic incentives for the authors to produce more intellectual goods to society (the ultimate goal is to maximize the welfare of society). Even John Locke, an individualist author, establishes some limits to property rights due to the necessity of protecting the “commons” [9].

“Charging Bull” was placed in a public space (without a permit, I must say!) Most national legislations allow some uses if the work is located in a public place. In Brazil, for instance, works displayed permanently in public places “may be freely represented by painting, drawing, photography and audiovisual processes” (Law n. 9610, from 1998, art. 48). Sometimes, enforcement of copyright protection is not even possible, since the work is available in a public support (think about the graffiti). Despite the differences between Brazil and the United States, the “public” dimension of both statues is a relevant aspect in this case. It seems non-sense to prevent people from installing their creations in a public place (not to say authoritarian). “Fearless Girl” do not even touch “Charging Bull”. And, as The Guardian correctly points out, the meaning of “Charging Bull” has already changed since its original installation [10]. It became the symbol of Wall Street, and the strength of an economy (and an economic system) that faces much criticism.

Finally, I must remind that ideas do not come from “nowhere”. As one of the most famous quote from Lavoisier – “in nature nothing is created, nothing is lost, everything changes” – ideas change constantly. In general, ideas come from the so-called “commons”: it is not rare to see a movie or a book based in a real story or in something related to national folklore or popular imaginary. The labor of the authors in transforming ideas is relevant but it is not the sole aspect in the creative process. As part of the public space, ideas are not protected by copyright, just their expressions. But the only way to get access to ideas is their forms of expressions.  Copyright protection may work as a private appropriation of the commons, as it can hinder access to ideas, information and culture. Therefore, we need to preserve this public space outside private property rights. As James Boyle explains (Preface, xv), “our art, our culture, our science depend on this public domain every bit as much as they depend on intellectual property” [11]. Intellectual property is necessary, but it cannot be unrestricted. Not surprisingly, most recognized legit uses of copyrighted content refer to fundamental rights. This is not different with “Fearless Girl”, once the statue is related to freedom of expression and defense of women rights.

Although some people may claim that “Fearless Girl” is just a successful advertising campaign, the statue has inspired many girls in NYC. I do not usually agree with Maquiavel, but he would claim that what is relevant is the outcome, not the intention. And despite its real objective – which we are not able to assess, after all – the fact is that “Fearless Girl” may have a significant role in bringing attention to gender inequality. It also gives us hope, as it portrays a little girl with a brave attitude. As a woman, I would say we are so used to see male statues that I would like to take a picture with this little girl. In political terms, representativeness is important. There are relevant criticism against corporate capitalism, true, and it was even accused of “false feminism” [12]. Nevertheless, people have their own interpretations about the statue. Regardless of its original goal, people started to give their own meanings to the fearless girl standing in front of the charging bull. I bet some of them are related to women’s empowerment. Art is also about the relationship between the work and the public, after all.

Thus, this is not just a simple question of copyright law, but it also involves wisdom. The relationship between “Fearless Girl” and feminism is totally debatable. In the copyright domain, the accusation of the author of “Charging Bull” is doubtful, though. But, feminist or not, it has the right to be there (unless it was something like a hate speech or a violation to human rights). “Fearless Girl” does not offend anyone. On the contrary, the public seems to enjoy it. And people have the right to enjoy the public space.

So, leave them free to occupy Wall Street.

Text by Nayara Albrecht

[1] http://www.businessinsider.com/creator-of-wall-street-bull-said-fearless-girl-infringes-copyright-2017-4

[2] Ibidem

[3] http://heinonline.org/HOL/LandingPage?handle=hein.journals/cjla13&div=5&id=&page=

[4] https://cyber.harvard.edu/property/library/moralprimer.html

[5] https://www.theguardian.com/us-news/2017/apr/14/fearless-girl-statue-women-new-york-bull

[6] http://www.nytimes.com/1989/12/16/nyregion/soho-gift-to-wall-st-a-3-1-2-ton-bronze-bull.html

[7] http://fairuse.stanford.edu/overview/fair-use/four-factors/

[8] “Notwithstanding the provisions of sections 106 and 106A, the fair use of a copyrighted work, including such use by reproduction in copies or phonorecords or by any other means specified by that section, for purposes such as criticism, comment, news reporting, teaching (including multiple copies for classroom use), scholarship, or research, is not an infringement of copyright.” (Section 106A deals with moral rights).

[9] A complete assessment on these theories may be found in: FISHER, William T. Theories of Intellectual Property. Available on: https://cyber.harvard.edu/people/tfisher/iptheory.pdf

[10] https://www.theguardian.com/us-news/2017/apr/14/fearless-girl-statue-women-new-york-bull

[11] BOYLE, James. 2008. The Public Domain: Enclosing the Commons of the Mind. New Haven & London: Yale University Press.

[12] https://www.nytimes.com/2017/03/16/nyregion/fearless-girl-statue-manhattan.html

Contraponto: motivos para assistir a “13 Reasons Why”

ATENÇÃO! DOIS ALERTAS ANTES DA LEITURA DO TEXTO:

– Antes de mais nada, gostaria de esclarecer que não sou psicóloga ou especialista em problemas de depressão. Então, não sou a pessoa mais indicada para recomendar ou não a série para quem sofre desse tipo de problema. Na dúvida, busque a opinião de um especialista.

Contém spoilers.

 

Recentemente, um seriado produzido e lançado pela plataforma digital Netflix tem sido alvo de inúmeros comentários nas redes sociais. Nada de extraordinário até aqui, visto que várias séries disponibilizadas na plataforma adquiriram sucesso a ponto de se tornar um “trending topic” (tópico em alta), como, por exemplo, Narcos e House of Cards. Exceto pelo motivo que levou à série em questão a ser debatida tão ferozmente em blogs e na timeline do facebook: a série trata sobre bullying e suicídio.

Inspirada no livro homônimo, “13 Reasons Why” conta a história de Hannah Baker, estudante do Ensino Médio que resolve se suicidar após uma série de eventos relacionados à sua vida social na escola. Hannah deixa 7 fitas gravadas contando os motivos que a levaram a se matar. Macabro o suficiente? Cada lado das fitas (são 13 lados gravados, 1 deixado em branco) fala sobre um colega de escola, um dos 13 motivos do suicídio. Assim, cada colega é um “porquê” de Hannah ter resolvido tirar a própria vida (por isso o nome da série, em português, “Os 13 porquês”). Os colegas são instruídos a ouvir todas as fitas, pois, caso não o façam, um colega (Tony) divulgará o material ao público em geral.

Logo após o lançamento, surgiram vários posts e resenhas sobre a série alertando de possíveis perigos ao assista-la, em especial para pessoas com tendências suicidas ou problemas relacionados à depressão. Alguns especialistas se manifestaram em relação à série, afirmando que ela seria prejudicial. Alguns críticos amadores de arte chegaram que as pessoas não assistam de jeito nenhum.

Entretanto, tendo terminado a 1a temporada ontem, discordei veemente de tudo que li até o momento. Na ausência de um contrapondo, resolvi elencar os motivos que me fizeram gostar da série e discordar das críticas negativas. Estes são os meus 13 motivos:

 

1 – A série não romantiza o suicídio

Uma das maiores críticas feitas à série refere-se a uma suposta romantização do suicídio. O último episódio mostra claramente Hannah Baker se matando por meio de uma lâmina que ela pegou da loja dos pais. Ela usa as lâminas para cortar os pulsos enquanto se encontra vestida dentro de uma banheira. Embora gráfica, a cena é crua. Não há uma grande trilha sonora e a cena mostra claramente Hannah sentido dor (não apenas psicológica, mas também física). Logo em seguida seus pais entram no banheiro, pois percebem a água escorrendo, e encontram a filha morta. O sofrimento deles é tocante. Definitivamente é uma cena forte, porque é muito real, mas está longe de ser romântica. Para mim, romantização do suicídio é quando Romeu e Julieta se matam e “ficam juntos para sempre”. Hannah morreu sozinha, encharcada em uma banheira. E fez com que seus pais sofressem muito. Se isso é romantizar o suicídio, eu fico realmente assustada com a definição de “romance” das pessoas. No decorrer dos episódios, a série enfatiza bastante como aquilo trouxe sofrimento aos pais e como deveria ter sido evitado, o que nos leva ao segundo ponto. A série, aliás, teve auxílio de especialistas da área de saúde, como contam os produtores no episódio bônus. Um das produtoras é a Selena Gomez, que passou pessoalmente por problemas relacionados à depressão.

 

2 – O suicídio não é visto como solução

Algumas pessoas afirmaram que a série retrata o suicídio como solução. Sinceramente, não sei de onde as pessoas tiraram isso. A série mostra o quanto o suicídio de Hannah foi negativo para os pais, em termos psicológicos e financeiros (já que eles resolvem processar a escola por não ter feito nada em relação ao bullying). O ato também afeta negativamente a vida de colegas próximos, em especial Clay, que é mencionado nas fitas apenas porque Hannah queria contar sua história (já que ele não fez nada que a agredisse). O suicídio sequer foi uma solução para a própria Hannah, uma vez que ela não ganhou nada com ele. Ela não ganha reconhecimento nem comiseração das pessoas; alguns colegas chegam a afirmar que ela se matou “para chamar a atenção” ou “porque foi fraca”. O suicídio foi uma atitude desesperada (embora planejada), como realmente é em muitos casos. Há quem afirme que o último episódio consiste praticamente em um “wikihow” de como se matar. Sério mesmo, em um mundo de Google e Deep Web, vocês acham realmente que as pessoas precisam de uma série da Netflix para aprender a se matar?

 

3 – A série retrata diversas situações cotidianas em escolas

Muitos dos problemas enfrentados por Hannah fazem parte da vida cotidiana das escolas. Quem nunca ganhou um apelido indesejado ou teve seu nome incluído em uma lista de pior/melhor? Justamente aí reside o perigo do bullying: tais ações são tão banalizadas – vistas como “normais”- que as pessoas desconsideram os efeitos negativos que elas têm nos “alvos”. Já vi pessoas falando em “bullying corretivo” como se tal tipo de perseguição fosse positivo para “construir o caráter”. Destaco aqui que a série aborda problemas específicos do contexto dos Estados Unidos: a supervalorização dos atletas e as consequências disso na cadeia alimentar da popularidade na escola. De qualquer forma, grande parte dos assuntos podem ser transpostos ao contexto do Brasil ou qualquer outro país. É o eterno concurso de popularidade e a submissão dos jovens a padrões de beleza e comportamento. E os efeitos na vida de quem não se encaixa nesses padrões, pois quaisquer razões. A série aborda, inclusive, as dificuldades que a escola enfrenta em relação a esse tipo de questão, no que tange ao tratamento inadequado fornecido pela instituição. Nota-se que a escola não sabe lidar com a maioria das situações.

 

4 – Os episódios discutem muitos problemas que garotas enfrentam

No que tange ao bullying, a série foca particularmente em problemas enfrentados por garotas: assédio sexual, “slut-shaming”, desvalorização, padrões de beleza, entre outros. Quando duas garotas da escola sofrem de abuso sexual, a série toca em pontos fundamentais no debate presente no feminismo: as dificuldades das vítimas em denunciar o que ocorreu e a culpa que a sociedade impõe na vítima. Em um dos casos de estupro retratado na série, a personagem estava bêbada e, portanto, vulnerável. No outro caso, a personagem estava tão paralisada que não conseguiu gritar, o que muitas vezes acontece em situações reais nas quais as autoridades judiciais ainda descreditam as vítimas por “não terem reagido”. A série ainda aborda os efeitos psicológicos do estupro, descrito, na série e na vida real, como o “rompimento da alma”. No último episódio, a personagem Jéssica Davis fala, em seu depoimento, como a própria escola reforça a desigualdade entre homens e mulheres: os homens são atletas, competidores que trazem orgulho à escola e à comunidade em geral, enquanto o papel das mulheres se resume a torcer por eles. Por que o esporte feminino não é tão incentivado quanto o masculino? Por que tantos padrões de beleza? No episódio bônus, os produtores da série destacam o dilema que garotas enfrentam ao tentar se enquadrar nesses padrões e evitar uma atitude que as classifiquem como “piranhas”.

 

5 – O roteiro adaptado aborda diferentes tipos de desigualdade

Além de assuntos relacionados à desigualdade de gênero, a série expõe outras situações de vulnerabilidade. As diferenças de tratamento entre pobres e ricos são retratadas nos contextos dos personagens Tony, Justin e Bryce. Tony é latino e vive em um subúrbio, Justin tem poucos recursos e depende de seu amigo Bryce, que é um ricaço mimado (e responsável pelos dois estupros que ocorrem). Além disso, há vários personagens tentando lidar com a própria sexualidade. Adotada por um casal homoafetivo, Courtney esconde que é lésbica por medo de como a sociedade julgaria seus pais (diriam que ela é lésbica por causa de seus pais). Ryan e Tony, que já foram namorados, muitas vezes adotam posturas isolacionistas em comparação com o restante dos colegas. E o próprio Clay foi um pouco afastado dos demais por certo tempo devido a rumores que diziam que ele era gay. O elenco conta com maior diversidade étnica – embora os protagonistas ainda sejam brancos e em conformidade com o mainstream – em comparação com outras séries adolescentes.

 

6 – A série mostra que isso pode acontecer com qualquer pessoa

Na minha opinião, um dos pontos altos da série é mostrar que ninguém está imune à depressão. Hannah era uma pessoa considerada como normal: ela tinha alguns amigos (embora poucos), ela se divertia e gostava de sair. Ela não demostrava ser uma pessoa depressiva, o que nos leva diretamente ao próximo ponto.

 

7 – A série alerta sobre os sinais da depressão

A série mostra as dificuldades em notar os sinais da depressão e, consequentemente fazer algo a respeito. No último episódio, outro personagem – Alex – é levado a tomar o mesmo tipo de atitude. Durante os episódios anteriores, todos estão tão concentrados na história da Hannah – inclusive os expectadores, diga-se de passagem – que ninguém percebe que Alex demonstra que tomará o mesmo caminho. Ele acelera o carro em excesso, joga-se em uma piscina e deixa de se importar com o que acontece ao redor. Nos últimos momentos antes de se dar um tiro na cabeça, nós vemos Alex arrumando seu armário, “colocando as coisas em ordem” exatamente como Hannah fez minutos antes de se matar. Trata-se de um alerta para prestarmos mais atenção aos sinais. A série mostra, a todo momento, que o suicídio de Hannah poderia ter sido evitado. Mas ele não foi.

 

8 – O “bullying” não é visto mediante um prisma maniqueísta

Ao passo que a série denuncia as práticas de bullying, mesmo aquelas que não são vistas como tal, ela também mostra que o mundo não é dividido entre “bem” e “mal”. Muitos dos personagens que magoam Hannah às vezes enfrentam situações piores em suas próprias casas. Em nenhum momento, isso é usado como justificativa, mas a série mostra que a realidade é muito mais complexa que a mera divisão da sociedade entre bullies e vítimas. Embora o foco esteja na perspectiva da Hannah, alguns episódios mostram que sua história não é uma verdade universal, que certos eventos não aconteceram exatamente como a narradora descreve (caso do Zach, por exemplo, que não jogou fora o bilhete da Hannah como ela disse na fita). A série mostra que há diferentes perspectivas e que muitas vezes falhas na comunicação contribuem para que não consigamos entender o lado do outro.

 

9 – O enredo é envolvente

É uma série de suspense e a curiosidade sobre as razões que levaram a protagonista a tomar uma atitude tão drástica contribui para a fome de episódios (recorde pessoal meu: assisti à primeira temporada em 4 dias). O 11o episódio explica como a sucessão de fatos se enquadra no desfecho.

 

10 – A série trata da relação entre adolescentes e adultos

Outro tema que fica evidente é a dificuldade de relacionamento entre adolescentes e adultos. A maioria dos adolescentes da série, inclusive a Hannah, possui dificuldades em se abrir para os pais ou responsáveis. Parte disso é resultado da falta de empatia (justificada) dos adultos, os quais são, muitas vezes, incapazes de se colocar no lugar dos adolescentes. Exemplo disso pode ser visto no diálogo entre Hannah e seus pais sobre um baile que ocorrerá na escola. Por mais que sejam pais carinhosos e esforçados, eles não conseguem entender a importância de ir ao baile em um carro legal. Aquilo era importante para a Hannah por ser um meio de conquistar amizades, algo crucial na vida do colégio. Realmente, pode ser difícil compreender porque coisas que parecem tão diminutas são tão relevantes na vida dos jovens. Mas, pensando por outro lado, é razoável que, na ausência de contas para pagar, a vida social na escola ocupe um espaço muito relevante nas preocupações deles.

 

11 – As fitas são uma forma de expressão, não de vingança

Vi muitas pessoas criticando a vingança da Hannah por meio das fitas. Creio que isso se trata de uma questão pura de interpretação. Não vi as fitas como uma forma de vingança. Que tipo de vingança uma pessoa morta pode ter? Se fosse um ato vingativo, ela teria divulgado publicamente as fitas e denunciado cada uma. Mas essa não era a intenção, tanto que as cópias foram disponibilizadas apenas para os 13 motivos, além do Tony, que agiu como guardião. Desde o começo da série, notamos que Hannah tem dificuldades de expressão: ela não consegue se abrir para os pais ou falar dos problemas que tem sofrido com seu amigo Clay (lembrem-se que ela até chega a expulsá-lo do quarto logo após do beijo que deram, ela não consegue sequer explicar suas razões a ele, nem em momentos posteriores). Ela se engaja temporariamente em um clube de poesia, justamente porque tem dificuldades em se expressar, em demonstrar sentimentos. As fitas não são uma vingança, mas uma forma de expressão. Foi o meio que ela encontrou de contar sua história, do seu ponto de vista, como nunca foi capaz quando estava viva. A série frisa essa questão ao tratar as fitas como substitutas à nota que suicidas geralmente deixam aos familiares próximos.

 

12 – A grande lição da história é sobre empatia

No fim, a grande lição é sobre empatia: colocar-se no lugar do outro, entender que às vezes atitudes que parecem banais para você podem ser relevantes para o colega por inúmeras razões que desconhecemos. E, no fundo, é sobre respeito às particularidades. Trata também de responsabilidade em relação aos próprios atos, tópico recorrente nas atitudes dos personagens que estão sempre tentando se livrar das consequências de suas ações.

 

13 – Eu, pessoalmente, identifiquei-me com a protagonista

Apesar de não ser uma obra-prima, a série me tocou especialmente devido a experiências pessoas. Tirando os excessos (felizmente não passei por abusos no nível da série), eu já presenciei muitas situações semelhantes à da Hannah:

  • Já fui a garota nova sem amigos. Quando mudei para Brasília, tive dificuldades em fazer amigos. Todos na escola se conheciam desde o maternal e eram muito fechados. Faziam zombarias em relação ao meu sotaque nordestino a um ponto que eu ensaiei exaustivamente o sotaque brasiliense em casa. Tinha um menino que sempre me batia. Uma vez ele bateu o carrinho da mochila tantas vezes no meu pé que sangrou. E quando eu reclamava com a escola, a instituição não fazia nada. Passei um período com uns quilos a mais e isso foi razão suficiente para o menino que eu gostava dizer que viraria uma panquequinha se eu caísse em cima dele. Também já tive apelidos, tipo “pulga gorda”. Felizmente ou não, eu me “ajustei” aos padrões no ensino fundamental e deixei de ser um alvo tão evidente (mas ainda me sentia sozinha às vezes).
  • No colégio, os meninos faziam listas de meninas mais bonitas. Já vi uma colega dizer que organizaria uma torcida (tínhamos olimpíadas e cheerleaders) exclusivamente com as meninas “mais magras e bonitas” da nossa série.
  • Ainda no colégio, os meninos apelidavam algumas meninas de “putas”, porque teoricamente elas eram “fáceis demais”(?!).
  • Na faculdade, os meninos ainda chamavam as meninas de “putas”, quando, na realidade, elas tinham o mesmo comportamento dos meninos.

Entre muitas outras situações…

Assim como a Hannah, eu também tinha dificuldades em me expressar. Não por acaso, eu tive milhões de blogs, escrevi trilhões de poemas e prosas e gostava de desenhar.

 

Mas eu tive sorte. Por ter uma família acolhedora e alguns amigos verdadeiros que eu conseguiria contar nos dedos. E por ter a Arte ao meu lado: literatura, desenho, música. Sempre soube que podia contar com essas três coisas.

 

Infelizmente, tem gente que não tem a mesma sorte.

Enfim, o que tudo isso tem com a política? Tudo.

 

Para além das questões sobre feminismo, desigualdade e autoridade, grande parte dos eventos políticos derivam de relações sociais. E essas relações começam em casa e na escola, microcosmos da política.

 

Então, pare e pense um pouco.

Pense um pouco antes de maltratar o coleguinha. Pense na política que queremos e na mudança que precisamos. E comece.

La bourgeoisie guidant le peuple

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La Liberté Guidant le Peuple (1830) – Eugène Delacroix

Eugéne Delacroix a été un peintre français qui est consideré comme le chef de file du romantisme. Le romantisme est un mouvement culturel qui a apparu au XVIIIe siècle et s’est diffusé dans toute l’Europe au XIXe siècle. Les idées principales du romantisme sont la victoire de l’émotion contre la raison et l’expression des sentiments. Étant un mouvement qui s’oppose au classicisme, le romantisme s’oppose à la rationalité et exalte le Moyen Âge. Ce mouvement s’est exprimé dans la literature, la peinture et la musique, dans lesquelles il explore le morbide, la melancolie et la passion.

« La Liberté Guidant le Peuple » est un tableu très connu de Delacroix. Il fait le portrait d’une femme avec la poitrine un peu nue et d’autres personages sur le plan principal, comme des enfants de rue et des hommes avec des armes. La femme, qui répresente la liberté, tient le drapeau français. La scène se passe à Paris, parce qu’on peut percevoir les tours de la fameuse Cathédrale de Notre Dame. Le tableau montre une barricade en symbolisant les démarches révolutionnaires de 1830, où le peuple français s’est revolté contre le roi Charles X. On appelle ces frondes sociales « les trois glorieuses » ou « les journées de 1830 ».

À l’époque, Charles X avait publié cinq ordonnances qui constituaient des mesures impopulaires comme la censure, la réduction du corps électoral et la nomination des fidèles aux hautes fonctions. Les insurgés ont tué 200 soldats et Charlex X est parti en exil[1]. Il n’est pas suprenant que la peinture soit devenue un emblème de la République Française. On dit même que le tableau pourrait avoir inspiré Victor Hugo à écrire Les Misérables, qui traite aussi des barricades et du mouvement révolutionnaire. Néanmoins, le titre du tableau et son imaginaire n’est pas tout à fait juste. Malgré son importance, la révolution de 1830 n’a pas été guidée par le peuple dans sa volonté de liberté.

Ce qui a déclanché les premières révoltes a été l’action des journalistes et commerçants. Alors, on peut dire que la bourgeoisie a commencé les journées de 1830. Après, la révolution est devenue populaire, mais puis rapidement les journalistes et les députés ont récupéré la révolution au profit de la bourgeoisie. Une monarchie constitucionnelle a été instituée au lieu d’une république, option qui a été éliminée. Charles X finit par renoncer au trône et le duc Philippe d’Orléans devient le roi sous le nom de Louis-Philippe 1er.

On peut s’apercevoir que « La Liberté Guidant le Peuple » a les traits typiques du romantisme : l’idéalisation de la révolution, y compris la violence, et l’exaltation des idées révolutionnaires. Mais il ne faut pas se tromper sur l’idéal, puisque la réalité est toujours différente. Dans ce cas, par exemple, ça n’a pas été la liberté qui a guidé le peuple, mais la bourgeoisie. La liberté lutterait toujours pour la république, la bourgeousie lutte seulement pour maintenir ses privilèges.

 

[1] Pour voir un relate três court sur ce sujet, visitez: https://www.herodote.net/26_juillet_1830-evenement-18300726.php

Frank Underwood, Maquiavel e Brasil: encontre o erro

O Brasil vive um momento de conturbação política sobre o qual é impossível se abster. Os problemas incluem uma crise econômica que se alarga, a expansão de epidemias, e até uma ameaça terrorista. Mas um fator permeia todos os outros: a crise política. Ontem, o país parou para assistir à votação referente ao processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Trata-se de uma primeira fase que consiste mais precisamente em autorizar a instauração do processo de impeachment. Com 367 votos a favor e 137 contra, o parecer favorável ao impeachment foi aprovado e o processo deve seguir ao Senado Federal. No Senado, basta maioria simples para que Dilma seja afastada do cargo, enquanto maioria qualificada é requerida para que ela seja condenada e perca o mandato [1].

Enquanto grande parte da população apoia a saída da presidenta, é preciso lembrar que todo impeachment tem suas externalidades negativas. A começar pela indefinição quanto aos rumos da política econômica e da estrutura administrativa, passando pela preocupação com a continuidade dos programas sociais e desembocando na incerteza sobre a melhoria da situação do país. Entretanto, em que pesem todos esses riscos, há ainda um problema maior: quem assume o governo, com a saída de Dilma, é o vice-presidente decorativo Michel Temer e seu sucessor é Eduardo Cunha, que atualmente ocupa a presidência da Câmara. Ambos são políticos profissionais extremamente inteligentes e os dois foram citados na Lava-Jato, operação da polícia federal que alegadamente (e ironicamente) é uma das causas da insatisfação com o governo.

Não por acaso, no auge desse contexto turbulento, não faltam comparações entre Brasil e o seriado House of Cards. O seriado, produção original do Netflix, conta a história de um congressista estadunidense – Frank Underwood – que faz de tudo para alcançar o poder [2]. Com um arsenal ativo de manobras políticas, Frank consegue chegar à presidência da república. Muitos diriam que as atitudes de Frank, em sua maioria imorais ou antiéticas, fariam do personagem um herói maquiavélico – ou maquiaveliano.  Ele engana, trai, manipula as pessoas de modo a atingir seus interesses pessoais mais diretos. De fato, a personalidade de Frank é compatível com o que as pessoas geralmente associam ao pensamento de Maquiavel.

Mas será que foi isso mesmo que disse o pensador florentino? A resposta é não. Uma das frases mais conhecidas da Ciência Política atribuída a Maquiavel é “ os fins justificam os meios”. Ironicamente, trata-se de um erro de tradução ou de interpretação. A questão central para Maquiavel [3] nunca foi a intenção, mas o resultado. Para ter um resultado positivo, vale até agir contra a ética e a moral. Isso porque a política é um campo distinto da moral e da religião que se rege por leis próprias, e essas leis determinam que algumas ações consideradas “erradas” são necessárias para se alcançar resultados positivos. Até aí, as atitudes de Underwood, Temer e Cunha estão plenamente compatíveis com o pensamento de Maquiavel. Os três usaram artimanhas e estratégias políticas e obtiveram os resultados que queriam.

Entretanto, muitos esquecem que os resultados dos quais trata Maquiavel possuem uma particularidade: eles estão vinculados a uma ideia de bem comum. E que bem seria esse? O da Igreja? Não, senhoras e senhores. O bem para Maquiavel é a estabilidade do Estado. Vivendo em uma Itália fragmentada, o objetivo final defendido por Maquiavel era a coesão. Ora, resta evidente que nem Cunha nem Temer têm contribuído muito para a estabilidade do Estado brasileiro. Pelo contrário, suas ações têm levado a uma constante crise política de indefinição. Tampouco o processo de impeachment se justifica por motivos transcendentais que vão além de meros interesses pessoais. Enquanto os mais ingênuos creem no combate à corrupção e na melhoria do país, ficou claro, na votação de ontem, que nossos parlamentares estão pensando em tudo – na família, em Deus e até mesmo em torturadores da ditadura militar – exceto no bem-estar da população.

É claro que há razões válidas para a instauração do processo de impeachment. O enquadramento das pedaladas fiscais como crime de responsabilidade fiscal é uma delas. Porém, também está claro que essa não é a principal razão do movimento pró-impeachment. Uma insatisfação geral contra o Partido dos Trabalhadores justificada pelo desempenho fraco da economia e pelos escândalos de corrupção parece ser um dos principais motivos. A incompetência e a má gestão são suficientes para impedir um governo democraticamente eleito?

Chegamos ao ponto principal: a democracia. As instituições democráticas brasileiras são ainda incipientes. São raros os presidentes na história do país que conseguiram terminar um mandato. Sobretudo, a interrupção mal justificada do mandato poderia abrir um precedente nocivo ao regime democrático: imaginem se toda vez que houver comoção nacional ou insatisfação do Legislativo com o Executivo, fosse possível aplicar algo como um voto de desconfiança, mecanismo típico dos regimes parlamentaristas [4]. Parece insustentável, e instável. Ainda mais tendo em conta que quem vai assumir não teve os votos da população, pelo menos não para o cargo de presidente. O que faz lembrar o que disse Underwood: “One heartbeat away from the presidency and not a single vote cast in my name. Democracy is so overrated.” Ademais, devemos lembrar que o governo não é formado apenas pela Presidência da República. O Congresso desempenha um papel importante em nosso presidencialismo de coalizão, responsabilidade que muitas vezes é esquecida devido ao excesso de foco no Chefe do Executivo. Além disso, não há garantias de que a economia vá se recuperar e quem estará assumindo a presidência também está envolvido nos escândalos citados.

Por fim, muitos defensores do impeachment ressaltam que o processo se refere a um mecanismo constitucional e que, portanto, não é um golpe. Tudo bem, realmente, está previsto e está dentro da legalidade. Mas vamos lembrar que muitas situações políticas deploráveis surgiram por meio de manobras institucionais. Aconteceu na Alemanha, em 1934, na Itália de Berlusconi e até mesmo em Star Wars, quando o senador Palpatine aumentou seus poderes executivos no Senado Galáctico [5].

Em todo caso, creio que a história nos julgará.

[1] “Câmara autoriza instauração de processo de impeachment de Dilma com 367 votos a favor e 137 contra”, em: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/POLITICA/507325-CAMARA-AUTORIZA-INSTAURACAO-DE-PROCESSO-DE-IMPEACHMENT-DE-DILMA-COM-367-VOTOS-A-FAVOR-E-137-CONTRA.html

[2] http://www.adorocinema.com/series/serie-7663/

[3] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martin Claret, 2012 [1513].

[4] “Impeachment mal fundamentado abre precedente preocupante”, em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/01/1726540-impeachment-mal-fundamentado-e-precedente-preocupante.shtml

[5] http://pt.starwars.wikia.com/wiki/Palpatine

“Tirania da maioria” versus opiniões minoritárias na literatura de J.R.R Tolkien

   É sabido que as obras do escritor e filólogo britânico John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) – J.R.R Tolkien – possuem notórias influências de Medievalismo, Cristianismo e mitologias de tribos que habitavam o norte da Europa tais como os celtas, anglo-saxões e vikings.

   Também vemos nas obras de Tolkien diversas críticas aos problemas ambientais causados pela industrialização excessiva, como por exemplo o desmatamento causado na floresta de Fangorn pela produção em massa de orcs e uruk-hai sob a ordem de Saruman  em O Senhor dos Anéis – As Duas Torres (2007) e às guerras mecanizadas da modernidade causando destruições em larga escala e genocídios.

   Logo, podemos afirmar, a partir do parágrafo anterior, que a obra de Tolkien é permeada de alegorias que representam suas ideias acerca do mundo. Do ponto de vista político, há  elemento(s) que podemos interpretar a partir de suas obras? Se sim, como podemos explicá-lo(s) à luz da Ciência Política? São essas perguntas que este breve texto busca responder.

   A Terra Média é composta por quatro raças distintas: homens, elfos, anões e hobbits. Esses são os chamados “povos livres” da Terra Média, criados pelo ser divino máximo do universo tolkieano, Eru Ilúvatar, com exceção dos anões que foram criados por outro ser divino, Aulë, um dos chamados Valar, seres divinos oriundos do pensamento de Ilúvatar[1] (Tolkien, 2011).

Todavia, antes da existência de Arda – como a Terra Média também é conhecida -, Melkor, um Vala, e Sauron, um Maia[2] se rebelam contra Ilúvatar e os outros Ainur[3] durante a criação de Arda e decidem desenhá-la de acordo com suas intenções. Ambos “descem” para a Terra Média, e nela, tentam  inúmeras vezes vencer os “povos livres” formando grandes exércitos de seres feitos unicamente para seguir suas vontades, conhecidos como orcs, trolls e balrogs e posteriormente, já na Guerra do Anel na Terceira Era, contam também com o auxílio dos uruk-hai e nazguls, os espectros do Anel. Em suma, trata-se uma trama com elementos clássicos de história de “bem versus mal”.

   Pois bem, note o que foi dito no parágrafo anterior sobre as criaturas de Melkor (também conhecido como Morgoth) e Sauron. São seres que existem unicamente para fazer a vontade de seus senhores. Logo, orcs, uruk-hai formam uma massa de seres homogêneos em termos de opiniões, visão de mundo, gostos e etc.

   Por sua vez, os “povos livres” possuem costumes, tradições, gostos e opiniões distintos entre eles. Esse fato, acaba gerando alguns conflitos e desentendimentos entre esses povos. As divergências entre anões e elfos são as mais evidentes ao longo da obra de Tolkien.

   Considerando que orcs, uruk-hai e etc. são “iguais” e muito numerosos, logo, eles são maioria tanto em opiniões e interesses quanto em quantidade frente a qualquer raça da Terra Média tomada em separado. Logo, as chances de controle sobre Arda são maiores por parte desses seres, pois possuem maior capacidade de organização política enquanto que os “povos livres” devido à heterogeneidade de opiniões entre eles, possuem menos chances de vitória.

   Na história do pensamento político, mais precisamente, no pensamento liberal, a busca pela garantia da liberdade individual e de grupos sociais é uma constante. A partir, principalmente de James Madison nos Artigos Federalistas (2011), no qual, o autor buscou criar um aparato institucional que fosse capaz de frear as “paixões” de facções políticas majoritárias, buscando regular interesses diversos de cada grupo social, seja ele religioso, econômico e etc. Madison buscou controlar o que ele denominou de “tirania da maioria”, um fenômeno sociopolítico identificado por ele no “Federalista nº 10”.

   John Stuart Mill (1806-1873) e Alexis de Tocqueville (1805-1859) podem ser considerados os autores mais importantes da escola liberal a tratar do assunto. A partir do que esses autores (Stuart Mill, 2011; Tocqueville, 2005) descrevem sobre este fenômeno sociopolítico característico das sociedades de massa emergentes do séc. XIX, podemos conceituar a “tirania da maioria” como uma situação na qual a maioria numa determinada sociedade dita as regras. O resultado disso é que opiniões discordantes e minoritárias em tal sociedade acabam sendo no mínimo negligenciadas, prejudicando um dos elementos fundamentais da democracia: a liberdade de pensamento e opinião.

   Tocqueville (2005), com base nisso, faz um elogio às instituições políticas norte-americanas por, na sua visão, serem eficientes em frear o ímpeto da maioria com seu sistema de checks and balances federalista e bicameral. Já Stuart Mill (2011, 1980), se torna um grande defensor do sistema de votação proporcional e inclusive da extensão do direito ao voto para as mulheres de modo que, na arena congressual as diferentes correntes de opiniões possuam maior representatividade sem necessariamente prejudicar a maioria.

   Obviamente, no universo tolkieano, esses tipos de instituições são inexistentes. No entanto, Sauron e suas criaturas de opiniões homogêneas representam na Terra Média o mesmo tipo de ameaça identificado por esses autores acima. Do mesmo modo, não há noção de indivíduo clara nas obras de Tolkien, porém, isolando os “povos livres”, cada um possui interesses e opiniões diferentes entre si. Quando esses povos se encontram em desunião devido aos problemas de interesses divergentes, a ameaça tirânica de Morgoth em O Silmarillion e Sauron em O Hobbit e O Senhor dos Anéis é uma realidade. Em todas as batalhas travadas na história da Terra Média, os “povos livres” só chegam à vitória e garantem suas liberdades quando se unem militarmente e enfrentam a maioria homogênea.

   Vemos assim que a Terra Média só se mantém harmoniosa quando os “povos livres” governam respeitando os diferentes interesses e opiniões existentes entre as raças. O cenário desenhado por Tolkien em caso de uma vitória de Morgoth ou de Sauron, do ponto de vista do pensamento liberal, é uma Arda povoada por seres com opiniões homogêneas e avessos à qualquer tipo de opiniões e interesses distintos, caracterizando assim uma espécie de “tirania da maioria”.

   É certo que os autores liberais mencionados buscam soluções institucionais para enfrentar esse tipo de tirania, uma vez que ela ocorre dentro do jogo político democrático. Mas, tomando a Terra Média como um território no qual seus diferentes povos são membros de uma sociedade livre na medida que a liberdade de pensamento e de opinião entre eles é garantida e a ameaça de Sauron e Morgoth e seu grupo majoritário homogêneo em ideias é uma realidade, uma Terra Média “democrática” só é garantida quando os “povos livres” se aliam, percebendo que garantir a diferença entre eles é saudável e que o risco da “tirania da maioria” pode levá-los à submissão política e até mesmo à extinção.

 

 

Referências

 

TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion. Martins Fontes, 2011.

______________. The Hobbit. Harper Collins, 2006.

_______________. The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring. Harper Collins, 2007.

______________. The Lord of the Rings: The Two Towers. Harper Collins, 2007.

______________. The Lord of the Rings: The Return of the King. Harper Collins, 2007.

HAMILTON, Alexander et alli. The Federalist. The Modern Library, 2001.

MILL, John Stuart. Considerações sobre o Governo Representativo. Ed. UnB, 1980.

______________. Sobre a Liberdade. Hedra, 2011.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América – Livro 1. Martins Fontes, 2005.

 

[1] Nas histórias de Tolkien, mais especialmente em O Silmarillion, que aborda mais o tema da criação e história da Terra Média e seus seres, não fica claro como surgiram os hobbits, nem se realmente foi Ilúvatar que os criaram. Porém, eles são, segundo as obras de Tolkien, uma variação da raça dos homens.

[2] Assim como os Valar, os Maiar também são seres divinos surgidos do pensamento de Ilúvatar.

[3] Ainur = Valar e Maiar em conjunto.

“Frozen” e o feminismo branco

 

No semestre passado, estive ministrando a disciplina “Introdução à Ciência Política” (ICP) para cumprir créditos no doutorado. Nem preciso dizer que é uma experiência fantástica e que faria duas, três, quatro vezes mais, pois “ensinar” é a própria razão de ser da minha pós-graduação. E tenho a convicção de que tenho aprendido mais com os alunos/as do que eles/as comigo.

O meu objetivo na disciplina – em que este Blog se insere, inclusive – foi fazer com que alunos e alunas enxergassem a Ciência Política não como um sacrifício, mas também um divertimento. A intenção era que eles/as notassem o quanto a política estava inserida no cotidiano, mas não apenas nas coisas consideradas “chatas” ou enfadonhas (como eventualmente o Jornal Nacional), mas em atividades que são vistas como divertidas. O propósito era mostrar que a política não está apenas no Congresso Nacional, mas permeia relações familiares, piadas feitas em grupos de WhatsApp e situações tão corriqueiras quanto assistir a uma série no Netflix.

No final do semestre, passei um trabalho final de ICP que consistia em escolher qualquer obra da cultura pop – vale filmes, livros, seriados e até jogos de videogame – para analisa-la com base em três autores vistos no decorrer da disciplina. Como de praxe, dei a oportunidade de os/as alunos/as me enviarem uma proposta antes da data de envio do trabalho final para que eu pudesse dar um feedback e algumas sugestões. Estava esperando vários trabalhos repetidos com os temas da moda, como House of Cards ou Game of Thrones. Mas, para a minha surpresa, a turma apareceu com um conjunto diversificado de análises, que vão desde o seriado Suits ao desenho animado Dragon Ball Z. Eis então que uma dupla de meninas me manda um e-mail informando que gostariam de analisar o filme “Frozen”.

Nada contra esse filme em particular, mas em um primeiro momento eu pensei “mas o que ‘Frozen’ tem que pode ser analisado pela Ciência Política?”. Eu só conseguia pensar em teoria feminista. E então, no final do semestre, eu li um dos melhores trabalhos com os quais tive contato nos anos em que participei da monitoria e do estágio em docência. Na realidade e para a minha própria surpresa, ‘Frozen’ abarca muitos temas discutidos na Ciência Política.

Primeiramente, o comportamento do Hans – vilão do filme – pode ser analisado na ótica de vários autores da teoria política. A começar por seu comportamento maquiavélico (ou maquiaveliano?) em busca do poder, o que condiz com a interpretação materialista da política internacional. Em segundo lugar, o próprio conceito de “poder”, nas divergências entre Arendt [1] e Weber [2], expressas nas diferenças de comportamento entre Hans e Elsa. Quem teria o poder verdadeiro? Depende da sua lente teórica. A própria questão da legitimidade se insere nessa disputa pelo trono.

Por fim, e não menos importante, a questão do feminismo e da intersecção das desigualdades. Lembro que quando Frozen saiu em cartaz, muita gente que se considera ‘progressista’ aplaudiu porque finalmente a Disney estava admitindo que o mais importante para as mulheres não era encontrar o Príncipe Encantado. Na verdade – e isso eu li em um livro da própria Disney –  há certa evolução nas personagens femininas da Disney no sentido de maior independência em relação aos homens. É só comparar a Branca de Neve com a Mulan, e depois com a protagonista do filme “A Princesa e o Sapo”até finalmente chegarmos à Elsa de Frozen. Entretanto, como nos encontramos em uma sociedade ainda machista, estamos longe da utopia que desejamos.

Frozen mostra alguns aspectos na nossa sociedade que precisam de maior análise. Um deles é a intersecção entre diferentes tipos de desigualdade, como gênero, classe e raça. Se Anna e Elsa se mostram mais independentes em relação aos homens – o que já é um avanço – elas possuem dois fatores que dão uma vantagem comparativamente a outras mulheres: Anna e Elsa são brancas (ruiva e loira, aliás) e fazem parte da nobreza.

O que isso significa, afinal? Significa que devemos menosprezar a luta delas? Claro que não. Mas isso nos mostra que o conjunto “mulheres” não se trata de um grupo homogêneo de pessoas. E que por mais que possamos passar por situações opressoras comuns relacionadas ao machismo – falta de segurança, cantadas estúpidas, agressão verbal e física – a situação de uma mulher branca é diferente da de uma mulher negra assim como as mulheres ricas dispõem de certas condições que as mulheres pobres não possuem. Isso fica evidente nas discussões sobre trabalho doméstico: ao passo que as mulheres ricas e brancas ainda sejam ligadas socialmente ao trabalho de cuidar do lar, elas ainda possuem a condição de terceirizar a responsabilidade pelo cuidado, por meio, por exemplo, da contratação de trabalhadoras domésticas. Em suma, isso nos mostra que o feminismo não pode ser distanciado de uma visão holística, que considere outras dimensões da desigualdade, tais como raça e classe.

Assim, como destacam Miguel e Biroli (2015) [3], uma análise sobre gênero que não considere as condições impostas pelas variáveis “raça” e “classe” se mostra insuficiente para lidar com as experiências de muitas mulheres. É a lição que extraímos de autoras como Bell Hooks, Crenshaw e Christine Delphy. E é algo que nos leva até mesmo a questionar a expressão “Dia da Mulher”. Quando utilizamos o singular – “Dia Internacional da Mulher”, por exemplo,  estamos obscurecendo as diferenças nas experiências de várias mulheres e criando um estereótipo sobre o que é ser Mulher [4]. E advinha qual é o estereótipo? Aposto que Anna e Elsa se encaixariam…

 

[1] ARENDT, Hannah. “Sobre a violência”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 51-74.

[2] WEBER, Max. “A Política como vocação”. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Ed. Cultrix, 1993, pp. 55-69;104-124.

[3] BIROLI, Flávia; MIGUEL, Luis Felipe. “Gênero, raça, classe: opressões cruzadas e convergências na reprodução das desigualdades”. Revista Mediações, 2015.

[4] NOUVEL OBSERVATEUR. « Non, le 8 mars n’est pas la ‘journée de la femme’. » Em : http://tempsreel.nouvelobs.com/societe/20160308.OBS5984/non-le-8-mars-n-est-pas-la-journee-de-la-femme.html

E se Maquiavel assistisse Star Wars? Considerações sobre forças armadas no pensamento maquiaveliano e a milícia Jedi.

Neste breve artigo, meu objetivo é de responder a seguinte pergunta: O que o filósofo político Maquiavel diria sobre a função dos Jedi na República Galática na famosa e popular saga cinematográfica Star Wars?

Primeiramente, vemos que na trilogia denominada pelos fãs da saga de “prequela”, a República Galática era uma organização político-institucional democrática unicameral na qual os representantes dos planetas membros além de exercerem papeis de lideranças locais em seus próprios planetas também eram senadores da República. Logo, cada planeta membro, tinha um representante no Senado Galático. Como uma organização política democrática que busca a longevidade, garantir a liberdade política dos seus cidadãos e conter os afãs de facções políticas extremistas (Maquiavel, 1977, 2015), esta República dava aos Jedi, o respaldo do uso da força.

Por sua vez, os Jedi são uma espécie de milícia formada por um “grupo de filósofos contempladores dos mistérios do campo de energia chamado Força”[1]. É uma organização que fora o aspecto místico no que tange a relação de seus membros com o controle e uso da Força, possui funções de mediação de conflitos, aconselhar líderes políticos e, como já dito anteriormente, recorrer ao uso da força quando necessário. Os Jedi não são um exército ligado ao aparato de Estado da República. Esta Ordem possui uma organização autônoma na qual seus membros devem seguir um código de conduta pautado na ideia de não dar vazão aos sentimentos, para evitar que sejam dominados por eles. Este código é um alicerce para que os Jedi sempre se mostrassem comprometidos à constituição da República Galática, nunca havendo um rompimento político deles com esta, colocando-a acima de qualquer questão pessoal ou afetiva.

Pois bem, na história do pensamento político, o tema do uso da força sempre foi uma preocupação. Quem detém a legitimidade do uso da força é uma questão que aparece em diversos autores. Por exemplo, de acordo com Max Weber (1982) o Estado é a instância política que detém o uso legítimo da força. Além do já mencionado Weber, podemos destacar a concepção de Thomas Hobbes (1979) na sua obra O Leviatã sobre como o poder político é organizado na sociedade[2]. Segundo o autor, os homens quando deixam o estado de natureza, realizam tal ato visando garantir sua segurança tanto em relação aos perigos da natureza quanto à ação de outros homens. Para isso, os homens abrem mão de parte de sua autoridade para um soberano. Dentro dessa ideia de autoridade, inclui-se o uso da força, passando ao soberano a posse da “espada”. Dessa maneira, o Estado passa a deter o monopólio da violência.

No entanto, a questão do uso da força não se reduz à quem a detém seu direito legítimo. Nicolau Maquiavel muito antes de Hobbes e mais ainda de Weber, buscou entender qual a melhor maneira do soberano se utilizar do monopólio da violência para se manter no poder. Em outros termos, foi foco de análise do pensador florentino, diferentemente de seus sucessores, qual o melhor tipo de força armada a ser utilizada numa determinada circunstância (se numa situação de conquista de territórios ou defesa e manutenção de um Estado, por exemplo).

Para Maquiavel, “as principais bases que os Estados possuem, novos, velhos ou mistos, são boas leis e bons princípios. E como boas leis não existem onde não há armas boas, e onde existem boas armas conveniente é que estejam boas leis” (Maquiavel, 1977). A concepção é de que é impossível existir boas leis se antes destas não existirem as boas armas. Maquiavel argumenta que todo Estado duradouro, como Roma e Esparta, no passado teve o auxílio das armas.  Maquiavel distingue quatro tipos de forças armadas: próprias, mercenárias, auxiliares e mistas. Segundo o autor, tropas mercenárias, auxiliares e mistas são inúteis e perigosas devido à infidelidade ao Estado pois são destituídas de um elemento importantíssimo no pensamento maquiaveliano: o republicanismo cívico – a lealdade à república, sentimento patriótico, fidelidade ao soberano (Maquiavel, 1977, 1979, 2015).

Formar um exército mercenário ou contar apenas com auxiliares ou mistos significaria arriscar a integridade do Estado e a força da nação, pois o salário oferecido ao mercenário e a lealdade a outro soberano por parte das tropas auxiliares e mistas não seriam o suficiente para que florescesse o sentimento patriota, o desejo de vitória acima de qualquer outro princípio. Resumindo, fora as tropas próprias, nenhum dos tipos de exércitos estariam dispostos a dar sua vida ao soberano/ Estado. Além do que, o risco que o príncipe corria de aprisionar o seu domínio a um outro era alto, pois se um exército mercenário é derrotado, será uma simples derrota, mas se este é vitorioso, a vitória torna o soberano que se utilizou desta força refém delas porque cairia na dependência de homens que não são seus, tornando sua tropa própria covarde e insegura com disposição de lutar apenas com a ajuda de outros exércitos (Maquiavel, 1977).

Como já mencionado, os Jedi são uma milícia que detém funções não só militares, mas também políticas na República Galática. De acordo com a ideia que  Maquiavel tinha acerca das forças armadas, se este assistisse a saga Star Wars, provavelmente seria um entusiasta da Ordem Jedi, pois esta atenderia aos critérios de organização militar mais adequada do ponto de vista maquiaveliano: são tropas próprias da República – não recebem salários ou qualquer benesse material para jurar fidelidade política – e são dotadas de republicanismo cívico. De acordo com a literatura da saga, os Jedi serviram a República militar e politicamente durante milhares de anos, até a chamada “Era de Ascensão do Império”. Logo, vemos que a República foi longeva até a queda dos Jedi, dando suporte à teoria maquiaveliana.

Exemplo de fidelidade à República por parte da Ordem Jedi podem ser vistos em diversos momentos ao longo da saga, mas, destaco dois eventos, ambos do episódio III – “A Vingança dos Sith”.  1º) a necessidade que Palpatine (Darth Sidious) tinha de exterminar a Ordem Jedi para conseguir concretizar a sua intenção de dar um golpe de Estado, pois com os Jedi fortes, estes constantemente se colocariam em defesa das instituições republicanas e 2º) a luta entre Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker (recém convertido Lorde Sith, intitulado Darth Vader, e consequentemente aliado de Palpatine). Foi um momento muito complicado para Obi-Wan, pois foi obrigado a enfrentar seu padawan (aprendiz), logo, teve que por questões pessoais e afetivas de lado para cumprir sua missão como soldado que era a de defender a República e a democracia, como ele mesmo num momento de discussão com Anakin deixa claro: “Anakin, my  allegiance is to the Republic, to democracy![3], por mais que naquele momento, o golpe de Estado estivesse praticamente concretizado.

Por fim, concluo que os Jedi na saga Star Wars são um bom exemplo da concepção maquiaveliana de força armada. São próprias e fiéis à quem e ao que defendem. Certamente foram atores políticos fundamentais na longevidade da República. Além disso, a queda desta se deve muito ao expurgo dos Jedi coordenado por Palpatine, Anakin e seu exército de clones. Posteriormente, os Jedi remanescentes do expurgo – Obi-Wan Kenobi e Mestre Yoda – e Luke Skywalker foram fundamentais na queda do Império e na restauração da República.

Maquiavel provavelmente estaria orgulhoso e feliz de ver sua teoria sendo exposta na cultura popular.

 

Referências

Star Wars Wiki – link: http://pt.starwars.wikia.com/wiki/P%C3%A1gina_principal

HOBBES, Thomas. (1979) [1651] O Leviatã. Editora Abril.

MAQUIAVEL, Nicolau. (1977) [1513] O Príncipe. Editora Hemus.

___________________. (1979) [1531] Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio. Editora UnB.

__________________. (2015) [1509] A Arte da Guerra. L&PM Pocket.

WEBER, Max. (1982) ” Política Como Vocação”, in Ensaios de Sociologia 5ª ed. Zahar Editores.

 

Notas

[1] “Força” está com “f” maiúsculo para diferenciar de “força” no sentido de monopólio da violência.

Fonte: http://pt.starwars.wikia.com/wiki/Ordem_Jedi.

[2] Nesta passagem, não digo que Hobbes e Weber possuem objetivos comuns em suas análises. Hobbes procura criar uma teoria sobre como os homens se organizam social e politicamente enquanto que Weber busca entender o que ele denomina de tipos de dominação estatal.

[3] Tradução: “Anakin, meu compromisso é com a República, com a democracia!”

A República Ideal de Star Wars, por Platão

Uma das discussões mais célebres no campo da Ciência Política trata-se do debate sobre as formas de governo. Desde Heródoto até os pensadores mais atuais, as palavras “democracia”, “aristocracia” e “monarquia” não saíram do vocabulário do pensamento político. As definições e julgamentos de valor variam, é claro, segundo os autores.

Sem dúvidas, uma das divisões mais lembradas é a tipologia de Platão, filósofo mais conhecido pela alegoria da caverna (ou pela trilogia Matrix). No livro “A República”, Platão traz uma divisão bastante peculiar e distinta daquelas que se tornariam mais correntes, como a classificação sêxtupla de Aristóteles e o ciclo de Políbio. Na obra citada [1], Platão demonstra uma perspectiva negativa da história, que se constitui em um regresso indefinido entre quatro formas de governo negativas: timocracia (espécie de transição), oligarquia, democracia e tirania.

Note que a palavra “democracia” estava longe ainda de assumir a conotação positiva dos dias de hoje, em que até regimes mais autoritários disputa a acunha. Platão provavelmente tinha uma visão negativa da democracia devido ao fato de que a morte de Socrátes (real ou amigo imaginário?) foi fruto de decisão coletiva tomada em assembleia. Assim, tinha-se a percepção de que as massas poderiam tomar decisões ruins. As formas de governo, para Platão, caracterizavam-se pelos vícios e virtudes de suas classes dirigentes. Assim, o homem timocrático era conhecido por seu talento militar e severidade com os criados, o homem oligárquico pela prevalência que dava aos ricos e o homem tirânico pela violência [2].

Por outro lado, a forma ideal, que – como o “homem ideal” não existe – refere-se à composição harmônica entre as três categorias de homens: guerreiros, filósofos e dedicados ao trabalho produtivo, os quais correspondem às três partes da alma (respectivamente passional, racional e apetitiva). Tal forma ideal poderia ser uma aristocracia ou a monarquia, desde que as três categorias de homem estejam exercendo suas funções [3].

Platão não contemporâneo as duas trilogias de filmes de Star Wars, mas não é difícil imaginar como ele julgaria a política exposta nos filmes. Primeiramente, no plano real, a passagem da república ao Império se constituiria em uma brusca transformação em tirania, caracterizada pela violência do Imperador por meio da ação de Darth Vader. Em segundo lugar, a própria passagem pode ser analisada pelos critérios de Platão, que destaca duas espécies de conflito: dentro da classe dirigente e entre governantes e governados. No âmbito da classe dirigente, houve um conflito óbvio entre o Senador Palpatine e alguns outros membros do Senado, em especial a proeminente Padmé Amidala. Já no que tange à disputa entre governantes e governados, podemos ressaltar o papel da Federação de Comércio [4], a qual contribuiu para que o Império Galáctico fosse efetivamente construído. Dessa forma, o governo em Star Wars enfrentou os dois tipos de conflito. O filósofo também menciona que a passagem pode ocorrer pela troca de gerações – o que podemos observar em Star Wars pelo crescimento de Anakin Skywalker e seu conflito geracional eterno com Obi-Wan Kenobi. Por fim, cabe destacar a visão que Platão teria sobre a forma de governo ideal para os personagens de Star Wars. Ora, se a forma ideal se refere à composição harmônica entre as três categorias descritas, o resultado é óbvio. A atividade de governar ficaria a cargo do Mestre Yoda, visto que “filósofo ele é”. A segurança estaria sob a responsabilidade dos Jedis, pois eles equivalem mais apropriadamente aos guerreiros (possuem até um código de moral próprio voltado a isso, embora Anakin tenha subvertido). Já o trabalho produtivo continuaria nas mãos dos coadjuvantes dos filmes (semelhança com a vida real é uma mera coincidência?).

Assim, para memorizar a divisão I (ele tem outras divisões nas obras seguintes) de Platão, é simples: basta recordar que a forma ideal é um sistema em que Yoda governa, os Jedis fazem a defesa do território e a classe produtiva continua responsável pela produção dos bens de sobrevivência. Ou, para os fãs de música popular brasileira, “cada um no seu quadrado”.

Dessa forma, percebemos que a filosofia e as trilogias de Star Wars têm alguns pontos em comum além das discussões políticos: são longas e às vezes trabalhosas, mas valem a pena.

Passagem ocorre através da troca de gerações

O que explica a transição de uma forma a outra? Duas espécies de conflito: dentro da classe dirigente, e governantes x governados.

Referências bibliográficas:

[1] PLATÃO. A República. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

[2] BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: A Filosofia Política e as Lições dos Clássicos. Rio de Janeiro: Elservier, 2000

[3] Ibidem

[4] http://pt.starwars.wikia.com/wiki/Federa%C3%A7%C3%A3o_de_Com%C3%A9rcio