Pela retomada do “primado da política”.

   A conjuntura nacional e internacional andam altamente instáveis e complexas. O mundo passa por um momento no qual outsiders[1] da política ganham espaço, há uma grave crise migratória, governantes são depostos, movimentos políticos extremistas vem ganhando força e etc. No entanto, o que vem gerando este cenário de mal estar geral é ponto de debate desde as pessoas reunidas numa mesa de bar até foruns de lideranças políticas e agentes do mercado.

   No meu ponto de vista, o principal motivo dos problemas atuais é a negação da política. Mais precisamente, creio que a persistência dos problemas sociais causados pela crise financeira de 2008 gerou disputas políticas radicalizadas a ponto dos grupos políticos encontrarem grandes dificuldades de chegarem a acordos. Exemplo emblemático disto é o caso espanhol onde o primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy (PP)[2] em 2016 só conseguiu formar governo após 3 tentativas.

   De uma maneira geral, o que explica a ascensão da negação do que a cientista política Sheri Berman (2006)[3] intitula como o “primado da política” é reflexo de tentativas mais extremas de solucionar problemas causados pelo mal-estar gerado pela crise do capitalismo financeiro iniciada em 2008. Na Grécia, apesar do SYRIZA ter sido eleito em 2015 com forte discurso anti-austeridade e ter tipo amplo apoio popular para não seguir as imposições do Banco Central Europeu, não logrou sucesso. Isto significa que no mínimo conciliar medidas mais redistributivas com uma agenda econômica hegemônica de austeridade não é fácil. É aí que mora a negação do “primado da política”, ou seja, o espaço para que outras agendas ganhem espaço.

   No Brasil não foi diferente. Com um cenário de crise econômica se desenhando entre 2013 e 2015 e a pressão dos mercados se intensificando, a coalizão que dava sustento à então presidenta Dilma Rousseff (PT) se rompeu e apoiou um impeachment no mínimo polêmico, mesmo com a ex-presidenta tentando num ato desesperado sinalizar para os mercados nomeando Joaquim Levy para a Fazenda. A tentativa tardia e frustrada de Dilma na nomeação de Levy e a manobra política pela deposição da ex-presidenta realizada pela maioria dos partidos no Congresso apoiada por diversos setores do capital mostra como o discurso pró-austeridade é capaz de ultrapassar qualquer tipo de barganha política. Políticas redistributivas seguem sendo possíveis de serem realizadas, no entanto, encontra um cenário mais limitado em relação à chamada Era de Ouro do Capitalismo entre 1945 com o fim da Segunda Guerra e os anos 1971-1973 com o colapso dos acordos de Bretton Woods[4], a crise do petróleo e o crash da Bolsa.

   No campo acadêmico, autores como Friedrich Hayek da escola austríaca são os grandes contribuidores para fundamentar teoricamente uma maior flexibilização do controle social sobre a economia e desse modo, sustentar o discurso pró-austeridade a qualquer custo. Apesar de sua boa contribuição no campo da ação coletiva, na minha opinião, o economista cometeu um equívoco ao deslocar o debate econômico do eixo “capital-trabalho” para o eixo “Estado-liberdade” em O Caminho da Servidão (1944) gerando uma dicotomia falsa associando um Estado mais atuante na economia à opressão individual, algo que nem os liberais clássicos como Stuart Mill e David Hume fizeram.

   Assim, a política fica sempre sob o risco de ser deslocada para atender a uma agenda específica e o espaço aonde ela ocorre – o Estado, é vira e mexe atacado. Karl Polanyi (1944)[5] nota que após a revolução industrial, a economia se sobrepôs à política. Isto foi algo jamais visto no mundo até então e gerou convulsões sociais sem precedentes. O mercado por si só como apontam pensadores de diversas visões como a tríade clássica da Sociologia Marx, Durkheim e Weber argumentam que a economia por si só é imperfeita, impera o caos, as disputas individuais seja entre empresários, seja entre trabalhadores e seja entre empresários e trabalhadores. É o reino em que, sem freios, o mais forte sempre vencerá o mais vulnerável, colocando milhares de indivíduos sob uma série de privações e provocando conflitos sociais. Logo, como diria os contratualistas Hobbes, Rousseau e Locke, é o “estado de natureza”. Nesse sentido, somente a política através do Leviatã, como diria Hobbes (1651)[6], é capaz de controlar esses conflitos da maneira mais civilizada possível. Dessa maneira, a política nos últimos tempos vem no mínimo tendo dificuldades de cumprir sua principal função que é se impor como controle social e assim garantir que os interesses distintos na sociedade sejam resolvidos da melhor forma possível.

   Que o “primado da política” se fortaleça num mundo onde o estado de natureza se encontra forte e a grande maioria segue perdendo direitos como é bem retratado no filme britânico Eu, Daniel Blake (2016) e as jornadas de trabalho são longas e prejudicam as relações familiares como vemos no filme nipônico Pais e Filhos (2015)[7].

[1] Aquele que vem de fora do jogo político tradicional.

[2] Partido Popular: partido político de centro-direita espanhol.

[3] BERMAN, Sheri. (2006) The Primacy of Politics: Social Democracy and the making of Europe 20th century.

[4] Para mais informações sobre os acordos de Bretton Woods, acessar links: Jornal O Globo: http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/conferencia-de-bretton-woods-decidiu-rumos-do-pos-guerra-criou-fmi-13310362 / Página na Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Acordos_de_Bretton_Woods.

[5] POLANYI, Karl (1944). A Grande transformação.

[6] HOBBES, Thomas (1651). Leviatã ou Matéria, Palavra e Poder de um Governo Eclesiástico e Civil.

[7] Afinal, como o blog também trata de arte, é sempre bom citar trabalhos do tipo.

 

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About Rodolfo Darrieux

Bacharel em Ciências Sociais, mestre e doutorando em Ciência Política. Flamenguista, fã de arte, futebol e cultura nerd em geral.

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