Contraponto: motivos para assistir a “13 Reasons Why”

ATENÇÃO! DOIS ALERTAS ANTES DA LEITURA DO TEXTO:

– Antes de mais nada, gostaria de esclarecer que não sou psicóloga ou especialista em problemas de depressão. Então, não sou a pessoa mais indicada para recomendar ou não a série para quem sofre desse tipo de problema. Na dúvida, busque a opinião de um especialista.

Contém spoilers.

 

Recentemente, um seriado produzido e lançado pela plataforma digital Netflix tem sido alvo de inúmeros comentários nas redes sociais. Nada de extraordinário até aqui, visto que várias séries disponibilizadas na plataforma adquiriram sucesso a ponto de se tornar um “trending topic” (tópico em alta), como, por exemplo, Narcos e House of Cards. Exceto pelo motivo que levou à série em questão a ser debatida tão ferozmente em blogs e na timeline do facebook: a série trata sobre bullying e suicídio.

Inspirada no livro homônimo, “13 Reasons Why” conta a história de Hannah Baker, estudante do Ensino Médio que resolve se suicidar após uma série de eventos relacionados à sua vida social na escola. Hannah deixa 7 fitas gravadas contando os motivos que a levaram a se matar. Macabro o suficiente? Cada lado das fitas (são 13 lados gravados, 1 deixado em branco) fala sobre um colega de escola, um dos 13 motivos do suicídio. Assim, cada colega é um “porquê” de Hannah ter resolvido tirar a própria vida (por isso o nome da série, em português, “Os 13 porquês”). Os colegas são instruídos a ouvir todas as fitas, pois, caso não o façam, um colega (Tony) divulgará o material ao público em geral.

Logo após o lançamento, surgiram vários posts e resenhas sobre a série alertando de possíveis perigos ao assista-la, em especial para pessoas com tendências suicidas ou problemas relacionados à depressão. Alguns especialistas se manifestaram em relação à série, afirmando que ela seria prejudicial. Alguns críticos amadores de arte chegaram que as pessoas não assistam de jeito nenhum.

Entretanto, tendo terminado a 1a temporada ontem, discordei veemente de tudo que li até o momento. Na ausência de um contrapondo, resolvi elencar os motivos que me fizeram gostar da série e discordar das críticas negativas. Estes são os meus 13 motivos:

 

1 – A série não romantiza o suicídio

Uma das maiores críticas feitas à série refere-se a uma suposta romantização do suicídio. O último episódio mostra claramente Hannah Baker se matando por meio de uma lâmina que ela pegou da loja dos pais. Ela usa as lâminas para cortar os pulsos enquanto se encontra vestida dentro de uma banheira. Embora gráfica, a cena é crua. Não há uma grande trilha sonora e a cena mostra claramente Hannah sentido dor (não apenas psicológica, mas também física). Logo em seguida seus pais entram no banheiro, pois percebem a água escorrendo, e encontram a filha morta. O sofrimento deles é tocante. Definitivamente é uma cena forte, porque é muito real, mas está longe de ser romântica. Para mim, romantização do suicídio é quando Romeu e Julieta se matam e “ficam juntos para sempre”. Hannah morreu sozinha, encharcada em uma banheira. E fez com que seus pais sofressem muito. Se isso é romantizar o suicídio, eu fico realmente assustada com a definição de “romance” das pessoas. No decorrer dos episódios, a série enfatiza bastante como aquilo trouxe sofrimento aos pais e como deveria ter sido evitado, o que nos leva ao segundo ponto. A série, aliás, teve auxílio de especialistas da área de saúde, como contam os produtores no episódio bônus. Um das produtoras é a Selena Gomez, que passou pessoalmente por problemas relacionados à depressão.

 

2 – O suicídio não é visto como solução

Algumas pessoas afirmaram que a série retrata o suicídio como solução. Sinceramente, não sei de onde as pessoas tiraram isso. A série mostra o quanto o suicídio de Hannah foi negativo para os pais, em termos psicológicos e financeiros (já que eles resolvem processar a escola por não ter feito nada em relação ao bullying). O ato também afeta negativamente a vida de colegas próximos, em especial Clay, que é mencionado nas fitas apenas porque Hannah queria contar sua história (já que ele não fez nada que a agredisse). O suicídio sequer foi uma solução para a própria Hannah, uma vez que ela não ganhou nada com ele. Ela não ganha reconhecimento nem comiseração das pessoas; alguns colegas chegam a afirmar que ela se matou “para chamar a atenção” ou “porque foi fraca”. O suicídio foi uma atitude desesperada (embora planejada), como realmente é em muitos casos. Há quem afirme que o último episódio consiste praticamente em um “wikihow” de como se matar. Sério mesmo, em um mundo de Google e Deep Web, vocês acham realmente que as pessoas precisam de uma série da Netflix para aprender a se matar?

 

3 – A série retrata diversas situações cotidianas em escolas

Muitos dos problemas enfrentados por Hannah fazem parte da vida cotidiana das escolas. Quem nunca ganhou um apelido indesejado ou teve seu nome incluído em uma lista de pior/melhor? Justamente aí reside o perigo do bullying: tais ações são tão banalizadas – vistas como “normais”- que as pessoas desconsideram os efeitos negativos que elas têm nos “alvos”. Já vi pessoas falando em “bullying corretivo” como se tal tipo de perseguição fosse positivo para “construir o caráter”. Destaco aqui que a série aborda problemas específicos do contexto dos Estados Unidos: a supervalorização dos atletas e as consequências disso na cadeia alimentar da popularidade na escola. De qualquer forma, grande parte dos assuntos podem ser transpostos ao contexto do Brasil ou qualquer outro país. É o eterno concurso de popularidade e a submissão dos jovens a padrões de beleza e comportamento. E os efeitos na vida de quem não se encaixa nesses padrões, pois quaisquer razões. A série aborda, inclusive, as dificuldades que a escola enfrenta em relação a esse tipo de questão, no que tange ao tratamento inadequado fornecido pela instituição. Nota-se que a escola não sabe lidar com a maioria das situações.

 

4 – Os episódios discutem muitos problemas que garotas enfrentam

No que tange ao bullying, a série foca particularmente em problemas enfrentados por garotas: assédio sexual, “slut-shaming”, desvalorização, padrões de beleza, entre outros. Quando duas garotas da escola sofrem de abuso sexual, a série toca em pontos fundamentais no debate presente no feminismo: as dificuldades das vítimas em denunciar o que ocorreu e a culpa que a sociedade impõe na vítima. Em um dos casos de estupro retratado na série, a personagem estava bêbada e, portanto, vulnerável. No outro caso, a personagem estava tão paralisada que não conseguiu gritar, o que muitas vezes acontece em situações reais nas quais as autoridades judiciais ainda descreditam as vítimas por “não terem reagido”. A série ainda aborda os efeitos psicológicos do estupro, descrito, na série e na vida real, como o “rompimento da alma”. No último episódio, a personagem Jéssica Davis fala, em seu depoimento, como a própria escola reforça a desigualdade entre homens e mulheres: os homens são atletas, competidores que trazem orgulho à escola e à comunidade em geral, enquanto o papel das mulheres se resume a torcer por eles. Por que o esporte feminino não é tão incentivado quanto o masculino? Por que tantos padrões de beleza? No episódio bônus, os produtores da série destacam o dilema que garotas enfrentam ao tentar se enquadrar nesses padrões e evitar uma atitude que as classifiquem como “piranhas”.

 

5 – O roteiro adaptado aborda diferentes tipos de desigualdade

Além de assuntos relacionados à desigualdade de gênero, a série expõe outras situações de vulnerabilidade. As diferenças de tratamento entre pobres e ricos são retratadas nos contextos dos personagens Tony, Justin e Bryce. Tony é latino e vive em um subúrbio, Justin tem poucos recursos e depende de seu amigo Bryce, que é um ricaço mimado (e responsável pelos dois estupros que ocorrem). Além disso, há vários personagens tentando lidar com a própria sexualidade. Adotada por um casal homoafetivo, Courtney esconde que é lésbica por medo de como a sociedade julgaria seus pais (diriam que ela é lésbica por causa de seus pais). Ryan e Tony, que já foram namorados, muitas vezes adotam posturas isolacionistas em comparação com o restante dos colegas. E o próprio Clay foi um pouco afastado dos demais por certo tempo devido a rumores que diziam que ele era gay. O elenco conta com maior diversidade étnica – embora os protagonistas ainda sejam brancos e em conformidade com o mainstream – em comparação com outras séries adolescentes.

 

6 – A série mostra que isso pode acontecer com qualquer pessoa

Na minha opinião, um dos pontos altos da série é mostrar que ninguém está imune à depressão. Hannah era uma pessoa considerada como normal: ela tinha alguns amigos (embora poucos), ela se divertia e gostava de sair. Ela não demostrava ser uma pessoa depressiva, o que nos leva diretamente ao próximo ponto.

 

7 – A série alerta sobre os sinais da depressão

A série mostra as dificuldades em notar os sinais da depressão e, consequentemente fazer algo a respeito. No último episódio, outro personagem – Alex – é levado a tomar o mesmo tipo de atitude. Durante os episódios anteriores, todos estão tão concentrados na história da Hannah – inclusive os expectadores, diga-se de passagem – que ninguém percebe que Alex demonstra que tomará o mesmo caminho. Ele acelera o carro em excesso, joga-se em uma piscina e deixa de se importar com o que acontece ao redor. Nos últimos momentos antes de se dar um tiro na cabeça, nós vemos Alex arrumando seu armário, “colocando as coisas em ordem” exatamente como Hannah fez minutos antes de se matar. Trata-se de um alerta para prestarmos mais atenção aos sinais. A série mostra, a todo momento, que o suicídio de Hannah poderia ter sido evitado. Mas ele não foi.

 

8 – O “bullying” não é visto mediante um prisma maniqueísta

Ao passo que a série denuncia as práticas de bullying, mesmo aquelas que não são vistas como tal, ela também mostra que o mundo não é dividido entre “bem” e “mal”. Muitos dos personagens que magoam Hannah às vezes enfrentam situações piores em suas próprias casas. Em nenhum momento, isso é usado como justificativa, mas a série mostra que a realidade é muito mais complexa que a mera divisão da sociedade entre bullies e vítimas. Embora o foco esteja na perspectiva da Hannah, alguns episódios mostram que sua história não é uma verdade universal, que certos eventos não aconteceram exatamente como a narradora descreve (caso do Zach, por exemplo, que não jogou fora o bilhete da Hannah como ela disse na fita). A série mostra que há diferentes perspectivas e que muitas vezes falhas na comunicação contribuem para que não consigamos entender o lado do outro.

 

9 – O enredo é envolvente

É uma série de suspense e a curiosidade sobre as razões que levaram a protagonista a tomar uma atitude tão drástica contribui para a fome de episódios (recorde pessoal meu: assisti à primeira temporada em 4 dias). O 11o episódio explica como a sucessão de fatos se enquadra no desfecho.

 

10 – A série trata da relação entre adolescentes e adultos

Outro tema que fica evidente é a dificuldade de relacionamento entre adolescentes e adultos. A maioria dos adolescentes da série, inclusive a Hannah, possui dificuldades em se abrir para os pais ou responsáveis. Parte disso é resultado da falta de empatia (justificada) dos adultos, os quais são, muitas vezes, incapazes de se colocar no lugar dos adolescentes. Exemplo disso pode ser visto no diálogo entre Hannah e seus pais sobre um baile que ocorrerá na escola. Por mais que sejam pais carinhosos e esforçados, eles não conseguem entender a importância de ir ao baile em um carro legal. Aquilo era importante para a Hannah por ser um meio de conquistar amizades, algo crucial na vida do colégio. Realmente, pode ser difícil compreender porque coisas que parecem tão diminutas são tão relevantes na vida dos jovens. Mas, pensando por outro lado, é razoável que, na ausência de contas para pagar, a vida social na escola ocupe um espaço muito relevante nas preocupações deles.

 

11 – As fitas são uma forma de expressão, não de vingança

Vi muitas pessoas criticando a vingança da Hannah por meio das fitas. Creio que isso se trata de uma questão pura de interpretação. Não vi as fitas como uma forma de vingança. Que tipo de vingança uma pessoa morta pode ter? Se fosse um ato vingativo, ela teria divulgado publicamente as fitas e denunciado cada uma. Mas essa não era a intenção, tanto que as cópias foram disponibilizadas apenas para os 13 motivos, além do Tony, que agiu como guardião. Desde o começo da série, notamos que Hannah tem dificuldades de expressão: ela não consegue se abrir para os pais ou falar dos problemas que tem sofrido com seu amigo Clay (lembrem-se que ela até chega a expulsá-lo do quarto logo após do beijo que deram, ela não consegue sequer explicar suas razões a ele, nem em momentos posteriores). Ela se engaja temporariamente em um clube de poesia, justamente porque tem dificuldades em se expressar, em demonstrar sentimentos. As fitas não são uma vingança, mas uma forma de expressão. Foi o meio que ela encontrou de contar sua história, do seu ponto de vista, como nunca foi capaz quando estava viva. A série frisa essa questão ao tratar as fitas como substitutas à nota que suicidas geralmente deixam aos familiares próximos.

 

12 – A grande lição da história é sobre empatia

No fim, a grande lição é sobre empatia: colocar-se no lugar do outro, entender que às vezes atitudes que parecem banais para você podem ser relevantes para o colega por inúmeras razões que desconhecemos. E, no fundo, é sobre respeito às particularidades. Trata também de responsabilidade em relação aos próprios atos, tópico recorrente nas atitudes dos personagens que estão sempre tentando se livrar das consequências de suas ações.

 

13 – Eu, pessoalmente, identifiquei-me com a protagonista

Apesar de não ser uma obra-prima, a série me tocou especialmente devido a experiências pessoas. Tirando os excessos (felizmente não passei por abusos no nível da série), eu já presenciei muitas situações semelhantes à da Hannah:

  • Já fui a garota nova sem amigos. Quando mudei para Brasília, tive dificuldades em fazer amigos. Todos na escola se conheciam desde o maternal e eram muito fechados. Faziam zombarias em relação ao meu sotaque nordestino a um ponto que eu ensaiei exaustivamente o sotaque brasiliense em casa. Tinha um menino que sempre me batia. Uma vez ele bateu o carrinho da mochila tantas vezes no meu pé que sangrou. E quando eu reclamava com a escola, a instituição não fazia nada. Passei um período com uns quilos a mais e isso foi razão suficiente para o menino que eu gostava dizer que viraria uma panquequinha se eu caísse em cima dele. Também já tive apelidos, tipo “pulga gorda”. Felizmente ou não, eu me “ajustei” aos padrões no ensino fundamental e deixei de ser um alvo tão evidente (mas ainda me sentia sozinha às vezes).
  • No colégio, os meninos faziam listas de meninas mais bonitas. Já vi uma colega dizer que organizaria uma torcida (tínhamos olimpíadas e cheerleaders) exclusivamente com as meninas “mais magras e bonitas” da nossa série.
  • Ainda no colégio, os meninos apelidavam algumas meninas de “putas”, porque teoricamente elas eram “fáceis demais”(?!).
  • Na faculdade, os meninos ainda chamavam as meninas de “putas”, quando, na realidade, elas tinham o mesmo comportamento dos meninos.

Entre muitas outras situações…

Assim como a Hannah, eu também tinha dificuldades em me expressar. Não por acaso, eu tive milhões de blogs, escrevi trilhões de poemas e prosas e gostava de desenhar.

 

Mas eu tive sorte. Por ter uma família acolhedora e alguns amigos verdadeiros que eu conseguiria contar nos dedos. E por ter a Arte ao meu lado: literatura, desenho, música. Sempre soube que podia contar com essas três coisas.

 

Infelizmente, tem gente que não tem a mesma sorte.

Enfim, o que tudo isso tem com a política? Tudo.

 

Para além das questões sobre feminismo, desigualdade e autoridade, grande parte dos eventos políticos derivam de relações sociais. E essas relações começam em casa e na escola, microcosmos da política.

 

Então, pare e pense um pouco.

Pense um pouco antes de maltratar o coleguinha. Pense na política que queremos e na mudança que precisamos. E comece.