“Tirania da maioria” versus opiniões minoritárias na literatura de J.R.R Tolkien

   É sabido que as obras do escritor e filólogo britânico John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) – J.R.R Tolkien – possuem notórias influências de Medievalismo, Cristianismo e mitologias de tribos que habitavam o norte da Europa tais como os celtas, anglo-saxões e vikings.

   Também vemos nas obras de Tolkien diversas críticas aos problemas ambientais causados pela industrialização excessiva, como por exemplo o desmatamento causado na floresta de Fangorn pela produção em massa de orcs e uruk-hai sob a ordem de Saruman  em O Senhor dos Anéis – As Duas Torres (2007) e às guerras mecanizadas da modernidade causando destruições em larga escala e genocídios.

   Logo, podemos afirmar, a partir do parágrafo anterior, que a obra de Tolkien é permeada de alegorias que representam suas ideias acerca do mundo. Do ponto de vista político, há  elemento(s) que podemos interpretar a partir de suas obras? Se sim, como podemos explicá-lo(s) à luz da Ciência Política? São essas perguntas que este breve texto busca responder.

   A Terra Média é composta por quatro raças distintas: homens, elfos, anões e hobbits. Esses são os chamados “povos livres” da Terra Média, criados pelo ser divino máximo do universo tolkieano, Eru Ilúvatar, com exceção dos anões que foram criados por outro ser divino, Aulë, um dos chamados Valar, seres divinos oriundos do pensamento de Ilúvatar[1] (Tolkien, 2011).

Todavia, antes da existência de Arda – como a Terra Média também é conhecida -, Melkor, um Vala, e Sauron, um Maia[2] se rebelam contra Ilúvatar e os outros Ainur[3] durante a criação de Arda e decidem desenhá-la de acordo com suas intenções. Ambos “descem” para a Terra Média, e nela, tentam  inúmeras vezes vencer os “povos livres” formando grandes exércitos de seres feitos unicamente para seguir suas vontades, conhecidos como orcs, trolls e balrogs e posteriormente, já na Guerra do Anel na Terceira Era, contam também com o auxílio dos uruk-hai e nazguls, os espectros do Anel. Em suma, trata-se uma trama com elementos clássicos de história de “bem versus mal”.

   Pois bem, note o que foi dito no parágrafo anterior sobre as criaturas de Melkor (também conhecido como Morgoth) e Sauron. São seres que existem unicamente para fazer a vontade de seus senhores. Logo, orcs, uruk-hai formam uma massa de seres homogêneos em termos de opiniões, visão de mundo, gostos e etc.

   Por sua vez, os “povos livres” possuem costumes, tradições, gostos e opiniões distintos entre eles. Esse fato, acaba gerando alguns conflitos e desentendimentos entre esses povos. As divergências entre anões e elfos são as mais evidentes ao longo da obra de Tolkien.

   Considerando que orcs, uruk-hai e etc. são “iguais” e muito numerosos, logo, eles são maioria tanto em opiniões e interesses quanto em quantidade frente a qualquer raça da Terra Média tomada em separado. Logo, as chances de controle sobre Arda são maiores por parte desses seres, pois possuem maior capacidade de organização política enquanto que os “povos livres” devido à heterogeneidade de opiniões entre eles, possuem menos chances de vitória.

   Na história do pensamento político, mais precisamente, no pensamento liberal, a busca pela garantia da liberdade individual e de grupos sociais é uma constante. A partir, principalmente de James Madison nos Artigos Federalistas (2011), no qual, o autor buscou criar um aparato institucional que fosse capaz de frear as “paixões” de facções políticas majoritárias, buscando regular interesses diversos de cada grupo social, seja ele religioso, econômico e etc. Madison buscou controlar o que ele denominou de “tirania da maioria”, um fenômeno sociopolítico identificado por ele no “Federalista nº 10”.

   John Stuart Mill (1806-1873) e Alexis de Tocqueville (1805-1859) podem ser considerados os autores mais importantes da escola liberal a tratar do assunto. A partir do que esses autores (Stuart Mill, 2011; Tocqueville, 2005) descrevem sobre este fenômeno sociopolítico característico das sociedades de massa emergentes do séc. XIX, podemos conceituar a “tirania da maioria” como uma situação na qual a maioria numa determinada sociedade dita as regras. O resultado disso é que opiniões discordantes e minoritárias em tal sociedade acabam sendo no mínimo negligenciadas, prejudicando um dos elementos fundamentais da democracia: a liberdade de pensamento e opinião.

   Tocqueville (2005), com base nisso, faz um elogio às instituições políticas norte-americanas por, na sua visão, serem eficientes em frear o ímpeto da maioria com seu sistema de checks and balances federalista e bicameral. Já Stuart Mill (2011, 1980), se torna um grande defensor do sistema de votação proporcional e inclusive da extensão do direito ao voto para as mulheres de modo que, na arena congressual as diferentes correntes de opiniões possuam maior representatividade sem necessariamente prejudicar a maioria.

   Obviamente, no universo tolkieano, esses tipos de instituições são inexistentes. No entanto, Sauron e suas criaturas de opiniões homogêneas representam na Terra Média o mesmo tipo de ameaça identificado por esses autores acima. Do mesmo modo, não há noção de indivíduo clara nas obras de Tolkien, porém, isolando os “povos livres”, cada um possui interesses e opiniões diferentes entre si. Quando esses povos se encontram em desunião devido aos problemas de interesses divergentes, a ameaça tirânica de Morgoth em O Silmarillion e Sauron em O Hobbit e O Senhor dos Anéis é uma realidade. Em todas as batalhas travadas na história da Terra Média, os “povos livres” só chegam à vitória e garantem suas liberdades quando se unem militarmente e enfrentam a maioria homogênea.

   Vemos assim que a Terra Média só se mantém harmoniosa quando os “povos livres” governam respeitando os diferentes interesses e opiniões existentes entre as raças. O cenário desenhado por Tolkien em caso de uma vitória de Morgoth ou de Sauron, do ponto de vista do pensamento liberal, é uma Arda povoada por seres com opiniões homogêneas e avessos à qualquer tipo de opiniões e interesses distintos, caracterizando assim uma espécie de “tirania da maioria”.

   É certo que os autores liberais mencionados buscam soluções institucionais para enfrentar esse tipo de tirania, uma vez que ela ocorre dentro do jogo político democrático. Mas, tomando a Terra Média como um território no qual seus diferentes povos são membros de uma sociedade livre na medida que a liberdade de pensamento e de opinião entre eles é garantida e a ameaça de Sauron e Morgoth e seu grupo majoritário homogêneo em ideias é uma realidade, uma Terra Média “democrática” só é garantida quando os “povos livres” se aliam, percebendo que garantir a diferença entre eles é saudável e que o risco da “tirania da maioria” pode levá-los à submissão política e até mesmo à extinção.

 

 

Referências

 

TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion. Martins Fontes, 2011.

______________. The Hobbit. Harper Collins, 2006.

_______________. The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring. Harper Collins, 2007.

______________. The Lord of the Rings: The Two Towers. Harper Collins, 2007.

______________. The Lord of the Rings: The Return of the King. Harper Collins, 2007.

HAMILTON, Alexander et alli. The Federalist. The Modern Library, 2001.

MILL, John Stuart. Considerações sobre o Governo Representativo. Ed. UnB, 1980.

______________. Sobre a Liberdade. Hedra, 2011.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América – Livro 1. Martins Fontes, 2005.

 

[1] Nas histórias de Tolkien, mais especialmente em O Silmarillion, que aborda mais o tema da criação e história da Terra Média e seus seres, não fica claro como surgiram os hobbits, nem se realmente foi Ilúvatar que os criaram. Porém, eles são, segundo as obras de Tolkien, uma variação da raça dos homens.

[2] Assim como os Valar, os Maiar também são seres divinos surgidos do pensamento de Ilúvatar.

[3] Ainur = Valar e Maiar em conjunto.

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About Rodolfo Darrieux

Bacharel em Ciências Sociais, mestre e doutorando em Ciência Política. Flamenguista, fã de arte, futebol e cultura nerd em geral.

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