“Frozen” e o feminismo branco

 

No semestre passado, estive ministrando a disciplina “Introdução à Ciência Política” (ICP) para cumprir créditos no doutorado. Nem preciso dizer que é uma experiência fantástica e que faria duas, três, quatro vezes mais, pois “ensinar” é a própria razão de ser da minha pós-graduação. E tenho a convicção de que tenho aprendido mais com os alunos/as do que eles/as comigo.

O meu objetivo na disciplina – em que este Blog se insere, inclusive – foi fazer com que alunos e alunas enxergassem a Ciência Política não como um sacrifício, mas também um divertimento. A intenção era que eles/as notassem o quanto a política estava inserida no cotidiano, mas não apenas nas coisas consideradas “chatas” ou enfadonhas (como eventualmente o Jornal Nacional), mas em atividades que são vistas como divertidas. O propósito era mostrar que a política não está apenas no Congresso Nacional, mas permeia relações familiares, piadas feitas em grupos de WhatsApp e situações tão corriqueiras quanto assistir a uma série no Netflix.

No final do semestre, passei um trabalho final de ICP que consistia em escolher qualquer obra da cultura pop – vale filmes, livros, seriados e até jogos de videogame – para analisa-la com base em três autores vistos no decorrer da disciplina. Como de praxe, dei a oportunidade de os/as alunos/as me enviarem uma proposta antes da data de envio do trabalho final para que eu pudesse dar um feedback e algumas sugestões. Estava esperando vários trabalhos repetidos com os temas da moda, como House of Cards ou Game of Thrones. Mas, para a minha surpresa, a turma apareceu com um conjunto diversificado de análises, que vão desde o seriado Suits ao desenho animado Dragon Ball Z. Eis então que uma dupla de meninas me manda um e-mail informando que gostariam de analisar o filme “Frozen”.

Nada contra esse filme em particular, mas em um primeiro momento eu pensei “mas o que ‘Frozen’ tem que pode ser analisado pela Ciência Política?”. Eu só conseguia pensar em teoria feminista. E então, no final do semestre, eu li um dos melhores trabalhos com os quais tive contato nos anos em que participei da monitoria e do estágio em docência. Na realidade e para a minha própria surpresa, ‘Frozen’ abarca muitos temas discutidos na Ciência Política.

Primeiramente, o comportamento do Hans – vilão do filme – pode ser analisado na ótica de vários autores da teoria política. A começar por seu comportamento maquiavélico (ou maquiaveliano?) em busca do poder, o que condiz com a interpretação materialista da política internacional. Em segundo lugar, o próprio conceito de “poder”, nas divergências entre Arendt [1] e Weber [2], expressas nas diferenças de comportamento entre Hans e Elsa. Quem teria o poder verdadeiro? Depende da sua lente teórica. A própria questão da legitimidade se insere nessa disputa pelo trono.

Por fim, e não menos importante, a questão do feminismo e da intersecção das desigualdades. Lembro que quando Frozen saiu em cartaz, muita gente que se considera ‘progressista’ aplaudiu porque finalmente a Disney estava admitindo que o mais importante para as mulheres não era encontrar o Príncipe Encantado. Na verdade – e isso eu li em um livro da própria Disney –  há certa evolução nas personagens femininas da Disney no sentido de maior independência em relação aos homens. É só comparar a Branca de Neve com a Mulan, e depois com a protagonista do filme “A Princesa e o Sapo”até finalmente chegarmos à Elsa de Frozen. Entretanto, como nos encontramos em uma sociedade ainda machista, estamos longe da utopia que desejamos.

Frozen mostra alguns aspectos na nossa sociedade que precisam de maior análise. Um deles é a intersecção entre diferentes tipos de desigualdade, como gênero, classe e raça. Se Anna e Elsa se mostram mais independentes em relação aos homens – o que já é um avanço – elas possuem dois fatores que dão uma vantagem comparativamente a outras mulheres: Anna e Elsa são brancas (ruiva e loira, aliás) e fazem parte da nobreza.

O que isso significa, afinal? Significa que devemos menosprezar a luta delas? Claro que não. Mas isso nos mostra que o conjunto “mulheres” não se trata de um grupo homogêneo de pessoas. E que por mais que possamos passar por situações opressoras comuns relacionadas ao machismo – falta de segurança, cantadas estúpidas, agressão verbal e física – a situação de uma mulher branca é diferente da de uma mulher negra assim como as mulheres ricas dispõem de certas condições que as mulheres pobres não possuem. Isso fica evidente nas discussões sobre trabalho doméstico: ao passo que as mulheres ricas e brancas ainda sejam ligadas socialmente ao trabalho de cuidar do lar, elas ainda possuem a condição de terceirizar a responsabilidade pelo cuidado, por meio, por exemplo, da contratação de trabalhadoras domésticas. Em suma, isso nos mostra que o feminismo não pode ser distanciado de uma visão holística, que considere outras dimensões da desigualdade, tais como raça e classe.

Assim, como destacam Miguel e Biroli (2015) [3], uma análise sobre gênero que não considere as condições impostas pelas variáveis “raça” e “classe” se mostra insuficiente para lidar com as experiências de muitas mulheres. É a lição que extraímos de autoras como Bell Hooks, Crenshaw e Christine Delphy. E é algo que nos leva até mesmo a questionar a expressão “Dia da Mulher”. Quando utilizamos o singular – “Dia Internacional da Mulher”, por exemplo,  estamos obscurecendo as diferenças nas experiências de várias mulheres e criando um estereótipo sobre o que é ser Mulher [4]. E advinha qual é o estereótipo? Aposto que Anna e Elsa se encaixariam…

 

[1] ARENDT, Hannah. “Sobre a violência”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 51-74.

[2] WEBER, Max. “A Política como vocação”. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Ed. Cultrix, 1993, pp. 55-69;104-124.

[3] BIROLI, Flávia; MIGUEL, Luis Felipe. “Gênero, raça, classe: opressões cruzadas e convergências na reprodução das desigualdades”. Revista Mediações, 2015.

[4] NOUVEL OBSERVATEUR. « Non, le 8 mars n’est pas la ‘journée de la femme’. » Em : http://tempsreel.nouvelobs.com/societe/20160308.OBS5984/non-le-8-mars-n-est-pas-la-journee-de-la-femme.html

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