Eddard Stark: Ética da convicção ou da responsabilidade?

No primeiro livro da série A Song of Ice and Fire [1], Eddard Stark descobre que os filhos da Rainha não são filhos do Rei. Em vez de denunciar a infidelidade (e o incesto, diga-se de passagem) ao seu melhor amigo, o rei Robert Baratheon, Ed opta por sugerir à rainha que fuja antes que ele conte a verdade. O objetivo era evitar que os filhos e a mãe fossem mortos ou perseguidos, em um ato de misericórdia do herói. Entretanto, o plano não funciona como planejado: em vez de fugir, Cersey arma contra Eddard, o qual é aprisionado após a morte do rei.

Com certeza, poderíamos dizer que Eddard agiu com base em seus preceitos éticos. Sua finalidade era salvar principalmente as crianças, as quais não poderiam ser culpadas pela infidelidade da rainha, mas estariam sujeitas ao rancor do rei se ele descobrisse a verdade. Todavia, que tipo de ética seria essa que desembocou na morte da Mão do Rei e na posse de Joffrey como novo soberano?

Se Maquiavel [1] já separara a ética política da religiosa desde o século XVI, Max Weber [3] argumenta que a vocação política exige a complementariedade de dois tipos de ética: a da responsabilidade a da vocação. Assim, o homem político seria caracterizado por três qualidades: paixão, sentimento de responsabilidade e senso de proporção (que seria o mesmo que “distanciamento”). Inegavelmente, a posição de “Mão do Rei” se constitui em uma função política. Mas teria Eddard Stark todos os requisitos para cumpri-la?

Por um lado, poderíamos argumentar que ele agiu na ótica da ética da convicção: ele fez o que acreditava ser “certo” – tentar salvar a rainha e os filhos – mesmo que suas atitudes tenham gerado consequências perversas: sua própria decapitação, a guerra posterior e a situação da sua família. Poderíamos dizer que ele não pensou muito bem nas consequências e agiu com base naquilo que considerava o comportamento mais honrado.

Por outro lado, poderíamos argumentar que ele tomou suas atitudes pensando nas consequências de seus atos: se ele dissesse a verdade a Robert, Cersei e seus filhos provavelmente seriam mortos.

Em que pese as dúvidas sobre qual ética seria mais adequadamente atribuída às ações de Eddard Stark, não há dúvidas de que suas atitudes levaram a um fim trágico para todos. Ele não soube pensar com base nas duas éticas, vistas como complementares. Dessa forma, sobravam-lhe paixão e sentimento de responsabilidade, mas faltava-lhe muito o senso de proporção. De fato, Eddard Stark não tinha vocação política.

Como diria Weber, quem adentra a política deve esquecer a salvação da alma. E seguir as regras do jogo.

E no jogo dos tronos, ou você ganha ou você morre.

[1] MARTIN, George. “Game of Thrones” (série “A song of Ice and Fire”), lançado em 1996.

[2] MAQUIAVEL, Nicolau. “O Príncipe”, 1532.

[3] WEBER, Max. “A Política como Vocação”, 1919.