O problema dos elfos domésticos em HP: breve discussão sobre Capital x Trabalho

Antes de fazer seu discurso sobre feminismo nas Nações Unidas, Emma Watson tornou-se amplamente reconhecida pelo seu papel em Harry Potter, em que interpretava a bruxinha Hermione. Na saga de J.K. Rowling, além de excelente aluna, Hermione era uma árdua defensora dos elfos domésticos. No universo de Potter, os elfos não lembravam em praticamente nada as glamorosas criaturas de Tolkien. Eles são espécies de servos domésticos destinados a trabalhar para famílias de bruxos até que seus patrões os libertem por vontade própria.

Parece uma situação surreal, mas não fosse pelo fato de que os elfos não são remunerados, eles poderiam bem lembrar certo grupo numeroso de indivíduos que passou por condições calamitosas durante as transformações magníficas dos séculos XVIII e XIX. Sim, isso mesmo, estamos falando do proletariado.

Para compreender a semelhança, é preciso entender bem primeiramente o sentido da expressão “proletariado”. Diferentemente do que muitos podem pensar, o termo proletariado não se referia inicialmente a uma classe restrita de indivíduos e, sim, a uma coletividade maior: a dos excluídos. Assim, Tavares (2014) esclarece que o termo era utilizado para designar um “tipo genérico”, que representava as camadas mais desfavorecidas da população.

Nesse sentido, é importante destacar que o período em que surgiu “O Manifesto do Partido Comunista” foi marcado por condições precárias de trabalho, em que a sociedade dividia-se em dois segmentos nítidos e separados: os proprietários e os não-proprietários.  A utilização da palavra “proletário” nesse contexto remete, portanto, à situação de exclusão. Contrária a essa divisão, a ideia comunista propunha a edificação de um mundo único e harmônico. Fundou-se na crítica à concorrência, em que se destacava o prejuízo aos laços sociais. Essa crítica desembocava na “desindividualização”: o“indivíduo” não existe e a comunidade de bens é uma consequência prática desse pensamento. Os dois pilares eram as ideias de unidade e fraternidade, em que imperava a ideia de um “todo maior que as partes” (Rosanvallon, 2011).

Ao passo que o comunismo podia acarretar a negação do conflito, essa corrente teórica foi uma vertente que trouxe a como aspecto central a inclusão social. Os proletários eram os miseráveis de Hugo, o “prole” de Orwell, aqueles que estavam fora da sociedade, que não tinham direitos sociais ou políticos. Incluí-los foi a preocupação primordial da ideia comunista. No fundo, o que estava no centro da discussão era a relação Capital x Trabalho, em que o Capital predominava em uma relação de nítida exploração.

A crítica ao poder do capital não foi exclusiva do marxismo. Até um autor como Dahl (1985), o qual encaixa-se comumente na vertente pluralista, apontou o perigo de se conceder poder demais aos acionistas da empresa. Na obra A Preface to Economic Democracy, o autor questiona como uma democracia em nível amplo pode ser incentivada enquanto internamente nas empresas impera uma estrutura anti-democrática. Dessa forma, ele indaga o que justificaria essa diferença entre regime adotado no governo e dentro das firmas. A solução proposta por Dahl (1985) é um sistema baseado em empresas autogovernadas. Outra alternativa à tradicional hierarquia entre Capital e Trabalho é apresentada pela Economia Solidária, que teve origem no socialismo e também defende a auto-gestão.

O que essas perspectivas trazem em comum é a interação entre a esfera econômica e a política, em que certo nível de igualdade econômica é necessário para sustentar a igualdade política que viabiliza a democracia. O marxismo foi um dos pioneiros em aprofundar essa questão ao propor as primeiras críticas à democracia burguesa. Não por acaso a teoria marxista é definida como economicista.

A situação dos elfos domésticos, embora não plenamente representativa da teoria marxista, pode servir para ilustrar a questão. Se o universo mágico de Harry Potter fosse dividido em classes, haveria ao menos três: os privilegiados “puro-sangue”, os bruxos em geral que estariam próximos da classe média e os elfos domésticos, que seriam como o proletariado. Os elfos se encontram em uma situação de exploração, porque com as horas não gastas em serviço doméstico, os bruxos privilegiados podem dedicar-se a outras atividades e, assim, dispor de muito dinheiro. A apropriação do trabalho dos elfos é o que caracteriza a mais-valia, que nesse caso reflete indiretamente em ganhos monetários. Enquanto isso, os elfos são excluídos de toda decisão política presente na sociedade dos bruxos, ao serem privados inclusive do direito limitado ao voto.

Hoje em dia, a realidade dos primórdios do capitalismo industrial parece distante, afinal foram muitas conquistas trabalhistas para chegar até aqui. Conquistas, aliás, que apenas foram viabilizadas devido à luta de vários movimentos esquerdistas, os mesmos que são ironicamente criticados amargamente por pessoas que hoje em dia usufruem dessas conquistas. Mas estamos longe de viver uma utopia. Muito longe.

Não por acaso, Piketty (2013) estudou, décadas depois, o mesmo problema de Marx: a acumulação de capital. No entanto, não se deixe enganar pelo título do livro: diferentemente de Marx, Piketty atenta que não se trata de uma tendência perpétua e tal acumulação deriva de outros motivos dos expostos por Karl. Para Piketty (2013), a acumulação não se refere a uma falha de mercado; aliás, se a situação de mercado perfeito fosse atingida, não haveria essa acumulação discrepante, segundo o economista francês. Diferente de Marx, Piketty atribui a causa a uma força divergente: o capital tem sido acumulado a uma taxa mais veloz que o crescimento geral. Consequentemente, as soluções são distintas: para o comunismo, é a abolição de classes; para Piketty, é uma espécie de imposto de grandes fortunas.

A confusão foi tamanha que o próprio Piketty teve que esclarecer “não ser marxista” [1]. Embora, o próprio Marx tenha afirmado não ser também [2].

O que essa discussão toda implica para nossos amigos elfos domésticos? Sua emancipação depende do ativismo da sociedade, principalmente de pessoas como Hermione. Porém, tal empoderamento encontraria um grande obstáculo: os elfos acreditam que trabalhar duro é uma honra e não querem ser libertados. Falsa consciência? Talvez. Precisaria conversar com mais elfos para saber…

 

Referências bibliográficas:

DAHL, Robert. A Preface to Economic Democracy. Berkeley e Los Angeles: University of California Press, 1985.

PIKETTY, Thomas. Le Capital au XXIe siècle. Paris : Éditions du Seuil, 2013.

ROSANVALLON, Pierre. La société des égaux. Paris: Éditions du Seuil, 2011

TAVARES, Francisco Mata Machado. “A Democracia Realizada do Materialismo Histórico: sobre a ditadura do proletariado e sua injustificada omissão nos estudos de teoria democrática contemporânea”. 2º Simpósio Nacional sobre Democracia e Desigualdades, Brasília, 2014.

[1] Entrevista com Thomas Piketty: <http://affaires.lapresse.ca/economie/macro-economie/201405/21/01-4768516-thomas-piketty-le-problemede-linegalite-excessive.php&gt;

[2] < http://progreshumain.wordpress.com/2013/09/29/moi-je-ne-suis-pas-marxiste/&gt;

 

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