Seria Victor Hugo um estruturalista?

Jean Valjean foi condenado a 5 anos de trabalho forçado por ter roubado um pão. Devido às suas tentativas de fuga, esses anos quase quadruplicam. Assim, Jean Valjean sai de seu confinamento após 19 anos de trabalho forçado nas galés. Expulso de todos os locais devido à sua condição de ex-presidiário, ele é acolhido pelo Bispo Myriel, o qual acaba lhe ensinando uma grande lição: a do perdão e da compaixão. A partir de então, Jean Valjean muda-se para Montreuil-sur-Mer, onde abre uma fábrica têxtil e se torna prefeito.

 

A história de um self-made man?  Muito pelo contrário!

 

A obra “Les Misérables”, do célebre escritor francês Victor Hugo, tornou-se conhecida no mundo inteiro. O livro conta, em inúmeros detalhes, a trajetória de Jean Valjean, seus dilemas de consciência, seu esforço para se inserir na sociedade após sair do confinamento, e seu relacionamento com uma série de personagens. Seria difícil retratar todos os personagens complexos e suas histórias impressionantes contidas em “Les Misérables”: a pobre Fantine que teve que se prostituir para sustentar a filha Cosette, a qual vivia como escrava de uma dupla de capangas inescrupulosos de sobrenome Thénardier; o senhor Mabeuf, que praticamente comete suicídio ao ir às barricadas para morrer depois de perder as relíquias de seus livros devido à situação de extrema pobreza; o jovem Marius, que após descobrir que o pai não o abandonara como o avô havia dado a entender, torna-se um “democrata bonapartista” e posteriormente adere às barricadas; “les amis de l’ABC”, estudantes que defendem os ideais da República Francesa e morrem heroicamente na barricada de 1932; Gavroche e seu espírito de criança-adulto que vive nas ruas; o inspetor Javert e sua mente restrita à ordem social; Jean Valjean e suas múltiplas identidades como Pére Madeleine, Prefeito, Sr. Fauchelevent, e sua eterna luta contra os estigmas advindos das galés [1].

 

Mas, acima de tudo, o título não mente: “Les Misérables” é sobre a miséria. A miséria humana que obriga uma mãe desesperada a se prostituir e que faz que o ex-presidiário tenha que renegar seu nome para viver em sociedade. A mesma miséria que transforma crianças em adultos que devem buscar seu próprio pão. Aquela miséria que leva o velho à morte e o jovem à desesperança ou à revolução. A miséria que pode levar ao roubo, aos golpes, ao crime. Miséria essa que agrupa honestos e patifes em uma mesma categoria, “misérables” como escreve o próprio Hugo. Assim, muitos assuntos são retratados: ideais políticos como a igualdade, os dilemas da revolução, a negligência do povo para com ela, e as consequências da pobreza, entre tantas outras temáticas que permeiam os problemas sociais – que permanecem atuais, aliás.

 

E é por isso mesmo que Jean Valjean jamais poderia ser considerado um self-made man, no sentido restrito do termo, pois a obra traz a ideia oposta: estamos presos às relações sociais, ao status, ao que a sociedade convenciona. Embora tenha conseguido “crescer” de certa forma, Jean Valjean jamais conseguiu se inserir na sociedade como Valjean: sempre que sua identidade foi descoberta, ele foi julgado e condenado ao ostracismo social. Ele era um ex-presidiário e não importava que tivesse cumprido sua pena. A ele foi negado o status de ser humano. Eis a semelhança da obra com o estruturalismo: para os estruturalistas, os processos sociais dependem de uma estrutura, que é inconsciente. Disso decorre que certas práticas e crenças próprias aos indivíduos são geradas pela organização social. Assim, o fenômeno é explicado por meio da posição que eles ocupam no sistema [2].

 

De forma semelhante, os indivíduos não podem ser vistos separadamente e atomicamente fora do contexto da sociedade. Embora eles possuam certa margem de agência e liberdade, grande parte do indivíduo é produto do meio.Valjean não nasceu ladrão: roubou um pão porque precisava alimentar os sete sobrinhos e depois tornou-se ladrão porque assim a sociedade o rotulou e o transformou. O mesmo ocorre com Fantine, que teve que recorrer a medidas extremas – tais como vender cabelo e dentes – para sustentar sua filha. E mesmo assim, o julgamento da sociedade é mortal: Javert não perdoou Fantine, afinal ela estava fora da ordem social. Ela era marginalizada.

 

Isso não significa que o ser humano seja bom por natureza. Hugo deixa isso claro nos Thénardier: uma família de trambiqueiros que deixam os filhos ao relento e passam a vida aplicando golpes. Mesmo depois de fugir da prisão e conseguir dinheiro para sair da Europa, Thénardier acaba se tornando traficante de escravos. A mensagem é óbvia: algumas pessoas seriam do mesmo jeito se estivessem em condições diferentes. Mas talvez grande parte, não. Grande parte da população sofre com as condições que lhe são impostas. Algumas se adaptam, sejam para o bem ou para o mal. E todas elas são julgadas e correm o risco de sofrer algum tipo de marginalização. A sociedade cria, julga e prende o ladrão*. De maneira arbitrária. Afinal, um rico que dirige bêbado ou um político corrupto não é julgado da mesma forma que um pobre que rouba um pão para se alimentar. Isso infelizmente não é ficção.

 

Destarte, não existe um self-made man porque os indivíduos não podem ser integralmente separados de seus meios e relações sociais: alguém que consegue algo, mesmo que “por mérito próprio”, provavelmente teve certas condições para isso. Isso não significa que pessoas não possam superar barreiras, econômicas inclusive, mas que oportunidades são desiguais e isso implica em resultados desiguais, mais do que uma questão de esforço pessoal. A própria definição de mérito é mais complexa do que parece: passamos inicialmente por uma loteria genética, depois ao meio familiar e às restrições de socialização impostas pelos espaços que podemos frequentar. Falar em mérito requere analisar tudo isso: se o indivíduo teve condições de cursar boas escolas, se os pais o apoiaram, se ele tinha saúde, se ele pôde se dedicar exclusivamente aos seus objetivos ao invés de trabalhar exaustivamente para se sustentar.

 

Enfim, embora essa seja uma análise demasiada superficial para uma obra de tal brilhantismo, a mensagem traz (paradoxalmente) a necessidade de se analisar as situações além da superfície. Para aqueles que não leram o livro, deixo essa outra sugestão. Qualquer filme, por melhor que seja, será incapaz de captar todas as sutilezas e reflexões trazidas

 

Ao falecido Hugo, deixo apenas o recado de que é uma pena que um dos personagens que mais tenham me ensinado seja um fictício. Ou talvez, eu esteja enganada. Porque como há muitos Amarildos, talvez existam muito Valjeans invisíveis aos olhos da sociedade.

*Não é a intenção desse texto defender qualquer tipo de crime. Apenas refletir sobre possíveis condições que podem ampliar a tendência à criminalidade e o julgamento arbitrário feito em relação a algumas situações específicas. Não significa tampouco que roubar seja legítimo.

 

Referências:

[1] Victor Hugo. Les Misérables. Lido em três partes.

[2]http://webetab.ac-bordeaux.fr/Etablissement/JMonnet/ses/coursocio/struct.html