Os dilemas da Revolução

[ATENÇÃO! Esse post contém spoilers da série Hunger Games. Se você não leu a trilogia e não quer saber de spoilers, não leia o post]

Um regime totalitário e opressor. Cidadãos e cidadãs vivendo em um sistema aterrorizante. Comida racionada, fome, miséria. Poderia ser 1984, mas se trata de outro tipo de distopia. Uma distopia futurística. A série Hunger Games – composta por uma trilogia de livros e uma série de filmes – nos traz um mundo pós-apocalíptico em que um governo opressor utiliza de diversos mecanismos calcados no terror para manter sua população em estado de dominação. A história se passa em uma região chamada Panem, composta por 12 distritos e uma Capitol que os controla através da violência e do medo.  Cada distrito é responsável pela produção de um determinado bem, seja carvão ou bens agrícolas, os quais são na maior parte direcionados à população residente da Capitol. As pessoas que vivem na Capitol esbanjam luxo e fartura, enquanto as populações dos distritos enfrentam situações de miséria, fome e pobreza extrema. Os distritos não possuem nenhum tipo de contato entre si. Antigamente, eram treze distritos, porém o 13º se rebelou e a Capitol o destruiu. Ou era essa a história que eles contavam. Na verdade, o 13º distrito – detentor de energia nuclear – fez um acordo com a Capitol em que eles seriam deixados em paz em troca de não mais se rebelar contra o centro do poder de Panem. Assim, os outros distritos não sabem da existência do 13º, achando que ele havia sido destruído durante as rebeliões. Para que as populações dos distritos se lembrassem sempre do fracasso das rebeliões – período conhecido como Dark Days – e não mais expusessem tentativas nesse sentido, a Capitol organiza periodicamente uma espécie de reality show, em que 2 pessoas são sorteadas em cada distrito (uma menina e um menino) para um combate mortal. Assim, 24 crianças ou adolescentes originárias dos distritos são colocadas em uma arena para uma espécie de duelo, em que apenas uma deve sobreviver. Em comparação com o mito de Teseu e o Minotauro, essas crianças são chamadas de tributos.  O/a vitorioso/a sai supostamente com uma vida de riqueza. A arena pode ser um deserto ou uma floresta, mas decididamente um campo com diversos tipos de armadilhas e ameaças. Vale ressaltar, aqui, que existe o “direito” de colocar o nome mais vezes no sorteio em troca de comida – o que, em um contexto de fome, implica em muitas crianças com mais probabilidade de ser sorteadas. Em suma, as principais armas da Capitol são o medo e a escassez. O reality show segue o padrão esbanjador dos costumes da Capitol: antes de ir para o combate, os participantes são bombardeados de entrevistas, uma espécie de desfile de moda, e todas as ações relativas ao jogo são televisionadas para todos os distritos e habitantes da Capitol. Há uma importância em captar o público para a obtenção de patrocinadores, os quais, durante o combate, enviam utensílios necessários aos seus participantes favoritos, como comida e até medicamentos. Como no cotidiano, a população da Capitol aprecia o show, enquanto os habitantes nos distritos assistem aflitos a um parente, colega ou amigo morrer na arena. Morto por alguém do próprio ou de outro distrito. Essa é a ideia central dos Jogos Vorazes (Hunger Games): destruir a possibilidade ínfima de unidade dos distritos e mostrar que o poderio da Capitol está acima de tudo. Entretanto, o sistema é chacoalhado quando a protagonista Katniss Everdeen se voluntaria para ocupar o lugar de sua irmã Prim, sorteada para participar dos 74º Jogos Vorazes. Embora geralmente de forma involuntária, as atitudes de Katniss, desde o início, demostraram certa afronta aos objetivos da Capitol: a solidariedade e o amor que demonstrou ao assumir o lugar da irmã, a relação de amizade com Rue (tributo de outro distrito), e, por fim, o episódio das frutas venenosas, em que a Capitou foi obrigada a deixar que dois tributos – ao invés de um apenas – se tornassem os vitoriosos dos 74º Jogos. E esses dois são Peeta e Katniss, ambos do Distrito 12, considerado um dos mais pobres. Se duas pessoas de um Distrito miserável conseguiram vencer juntas os Jogos, quando supostamente apenas um deveria vencer, imagine o que uma multidão não faria com o poder da Capitol? Esse é o receio do Presidente Snow: esperança demais. Esperança demais para os cidadãos e cidadãs. Não por acaso, nos dois livros que seguem o primeiro – Catching Fire e Mockingjay – Katniss se torna o símbolo da revolução que está por vir. Sua missão se torna trazer unidade aos distritos e encorajar a população a se rebelar. Os organizadores da revolução são os habitantes originais do Distrito 13, que vivem escondidos debaixo da terra. Entretanto, em todo o processo que se refere aos levantes revolucionários – a tentativa de insurgência dos Distritos, as operações contra a Guarda da Capitol (os Peacekeepers), entre outros – Katniss vai desconfiando cada vez mais dos dirigentes da revolução. Isso porque, de uma maneira decepcionante, eles vão apresentando cada vez mais semelhanças com aqueles que eles estão tentando derrubar.

Note, por exemplo, o comportamento da Presidente Coin, a líder do Distrito 13. Ela age de forma tão calculista e fria quanto o próprio Presidente Snow para atingir seus objetivos. Além de ordenar um bombardeio desnecessário a crianças na Capitol, que acabou matando médicos do próprio Distrito 13, ela não mede as consequências para atingir seu objetivo final, que é substituir Snow no comando de Panem. Além disso, ela submete Katniss a tratamentos muito semelhantes aos da Capitol antes dos Jogos: para se tornar a “face” da Revolução, Katniss é submetida novamente a tratamentos de beleza – contando com seu Prep. Team – e a gravações no estilo mais cinematográfico possível para instigar os rebeldes. Porém, isso não funciona muito bem com ela. É preciso coloca-la em combate para que ela realmente consiga algum avanço, afinal ela é boa apenas sendo ela mesma. Mas Coin não se distingue de Snow e da Capitol apenas pelos seus métodos, como também pela sua finalidade. Ela quer poder e é capaz de tudo para conquista-lo. Vale destacar que, enquanto ela luta para ampliar seu poder, ela permanece nas sombras: em momento algum, Coin deixa sua segurança e entra em combate, como Katniss faz por vontade própria. Ela apenas espera os acontecimentos acontecerem, como uma jogadora de xadrez que sacrifica seus peões em prol da vitória. Alguns personagens do livro até mesmo suspeitam que ela estaria por trás de tentativas de assassinar Katniss, a qual, após ter cumprido seu objetivo de dar unidade aos distritos, seria uma ameaça ao plano de poder de Coin. Coin usa e abusa, tal como a Capitol, dos efeitos apelativos da propaganda, para angariar mais seguidores por meio da manipulação de imagens relacionadas a Katniss. Katniss, por sua vez, se torna a “mockingjay”, o símbolo da revolução. Um símbolo totalmente construído e que foi oposto à vontade da própria Katniss no início. Ela adere à revolução devido ao seu ódio pela Capitol e por Snow, mas se incomoda com a percepção de que novamente está fazendo parte de um jogo. O jogo de Coin, que governa o Distrito 13 com quase a mesa severidade de Snow.

A própria rotina do Distrito 13 não é das mais convidativas: a disciplina está em primeiro e lugar e, por isso, todos os moradores seguem um cronograma restrito. O local parece uma eterna preparação para a guerra. Certa sensação de Guerra Fria, na verdade, paira no ar, já que tanto o Distrito 13 quanto a Capitol portam armas nucleares. Quando os rebeldes vencem a Capitol, a sugestão de Coin é que eles façam uma última edição dos Jogos Vorazes, em que crianças relacionadas a pessoas poderosas da Capitol sejam colocadas na arena. Uma espécie de vingança para acalmar os distritos. Katniss sobrevive à guerra, mas com a apreensão de que a estabilidade desse novo mundo pode ser fraca e a violência pode, algum dia, voltar. Ademais, ela passa a vida inteira sofrendo por aqueles que perderam a vida no controle da Capitol ou na luta contra ela.

A história da trilogia Hunger Games demonstra dois dilemas constantes em revoluções: o custo humano de um empreendimento como esse e a reprodução de práticas sistêmicas no movimento anti-sistema. Por hora, vamos nos concentrar no segundo. Fidel Castro desejou, em certo discurso, que “a revolução não devorasse seus próprios filhos” [1]. Essa frase pode ter diversas interpretações, principalmente relacionada ao contexto em que foi dita. Mas eu prefiro usá-la no sentido de que a revolução tem um potencial de se anular devido à reprodução de práticas sistêmicas em seu interior. O que isso significa exatamente? Significa que muitos grupos que lutam contra uma opressão podem ter práticas opressoras em seu interior tão semelhantes àquelas utilizadas por seus antagonistas que a revolução em si se torna contraditória. (E corre o risco de entrar em descrédito). Algo como Coin e Snow, que estão em lados opostos mas são assustadoramente semelhantes. Não é raro um governo opressor tombar pela ação de grupos revolucionários e ser substituído por um governo tão opressor quanto o anterior (algo soa familiar?). E aí a Revolução perde o sentido. Ela devorou seus filhos, netos e bisnetos.

Não estou dizendo que o uso de violência por esses grupos é totalmente incompreensível, uma vez que na maioria dos casos a violência é realmente a única arma que detém o oprimido. Mas a violência já acarreta em si um custo inestimável: o da vida humana. É admirável que algumas pessoas estejam dispostas a pagar esse custo em relação à própria vida, mas, por outro lado, não se pode exigir que todos/as estejam. Principalmente quando há entes amados envolvidos.

Disso surge a necessidade de se valorizar mais os pequenos atos de resistência diários, na expressão utilizada por Scott [2], mas em sentido mais amplo. Atos pequenos de rebeldia que são executados diariamente e que apresentam comportamentos anti-sistêmicos. Deixar de fazer piadinhas de cunho machista, por exemplo. Talvez mais importante que a derrubada de um governo, seja a mudança de mentalidade. Afinal, não há regime que se sustente sem o apoio da população – mesmo que uma parcela dela.

Fontes:

http://thehungergames.wikia.com

The Hunger Games, Catching Fire, Mockingjay – de Suzanne Collins

[1] Infelizmente tive que extrair da VEJA: <http://veja.abril.com.br/270208/p_068.shtml>

[2]  Em “Weapons of the Weak: Everyday Forms of Peasant Resistance”, James C. Scott expõe práticas utilizadas por camponeses como forma de resistência cotidiana. O conceito se distingue da forma como utilizei aqui, mas acabei optando pela expressão devido ao fato de ambos os sentidos trazerem uma concepção de “resistência” à ordem atual.

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