O que Habermas diria sobre o Rei do Camarote?

Jürgen Habermas é amplamente conhecido por seu pensamento filosófico abstrato e os textos mal traduzidos do alemão. Em outras palavras: algumas pessoas encaram a leitura com um “ah, não”. Mas se fizermos um pequeno esforço de imaginação, a verdade é que muito de sua teoria pode ser aplicada a pequenos fatos do cotidiano.

Parte relevante do trabalho do filósofo alemão está centrada na concepção de “colonização do mundo da vida”. Isso por que o autor trabalha com uma lógica dual: existe o mundo da vida e os sistemas. O mundo da vida refere-se ao “reservatório de tradições implicitamente conhecidas e de pressupostos automáticos que estão imersos na linguagem e na cultura e utilizados pelos indivíduos na vida cotidiana” [1]. Traduzindo para o bom e velho português, podemos dizer que o mundo da vida está relacionado com o cotidiano, a realidade imediata dos indivíduos. Estado e mercado se constituem em dois subsistemas.

A colonização do mundo da vida, nesse sentido, refere-se à invasão da lógica de mercado no mundo da vida. Ocorreria, portanto, uma penetração do mundo da vida pela lógica sistêmica [2].

Quando penso em colonização do mundo, imagino uma série de pequenos exemplos. Um dos que gosto mais, devido à minha afinidade natural com o feminismo, é a questão da “objetificação” da mulher. No mundo machista que infelizmente ainda vivemos, a mulher é – muitas vezes – vista como um objeto. Em alguns casos, os homens tratam mesmo como se pudesse compra-las, com carros esportivos ou um salário muito alto, coisas que trazem status. Sobretudo, há uma espécie de lógica de mercado: no mercado, um produto é valorizado quando poucos podem compra-lo. Com as mulheres não é diferente: já soube de homens falando “ah, mas ela não conta, porque ela pega todo mundo”, desvalorizando a opinião da mulher, porque supostamente “ela pega todo mundo” ou, pior, desvalorizando a própria mulher como ser humano. “Todo mundo pode pegar”, logo não é exclusivo, logo não dá status, “então eu não quero”. Note que está presente aqui uma relação discrepante de poder: o homem, o consumidor; a mulher, o objeto a ser adquirido, o qual, como outros objetos, se encaixa na lógica oferta e demanda: quanto mais oferta (nesse caso ela pega todo mundo), o preço cai. Não estou dizendo que não existem mulheres que valorizam o status, mas apenas mostrando uma das várias consequências do machismo e, possivelmente, da penetração da lógica de mercado nas relações pessoais. Afinal, como diria Marx, “A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro”.

Recentemente, mais um vídeo do youtube se tornou uma moda viral nas redes sociais. Trata-se do vídeo do “Rei do Camarote”, um moço que aceita esse título e demonstra um comportamento esbanjador com a forma como gasta seu próprio dinheiro. Sem entrar no mérito de bom ou ruim,  o vídeo é mais uma demonstração de como dinheiro e estima social se integram cada vez mais a ponto de um significar o outro. E, sem hipocrisia, convenhamos que existem muitos reis do camarote por aí, e até mesmo príncipes, duques e lordes, mesmo que em menor escala por ter menor dinheiro. E o mais irônico é que muitos deles vão postar o vídeo “tirando sarro” do Rei enquanto comentam com o amiguinho que a opinião de Fulana não importa porque, sem ofensas, “ela pega todo mundo”.

 

PS: Eu não sei o que Habermas diria sobre o rei do camarote. Se alguém souber, sinta-se à vontade.

[1] Arato, Andrew; Cohen, Jean, 1994. “Sociedade civil e Teoria Social”, IN: Avritzer, Leonardo (org.).Sociedade Civil e Democratização. Pág. 147-192

[2] Idem

[3] MARX, Karl; ENGELS, Friederich. O Manifesto do Partido Comunista. Disponível em: <http://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/cap1.htm>

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