Gotham City precisa de um herói

Nunca fui de chorar  por causa de filmes. Não chorei com “Titanic”, nem com “Diário de uma Paixão”, muito menos com “Rei Leão”. Mas um filme, em particular, fez com que eu derramasse lágrimas escondidas no cinema. Trata-se de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (The Dark Knight Rises), o terceiro filme da trilogia bem sucedida (e mais recente) do Batman. Pode parecer pitoresco ou irônico que um filme assim tenha me feito chorar, mas a verdade é que o filme toca em um assunto favorito de uma maneira idiossincrática: a política na sua forma mais deprimente e decepcionante.

Isso porque Gotham vive um contexto de caos: políticos corruptos, altos índices de criminalidade, medo e uma vaga esperança de solução dos problemas que atormentam a população. Parece similar? Não é à toa que quando um mascarado surge, de forma a enfrentar os males da cidade, as pessoas o veneram – mesmo que ele tenha seu lado (bastante) sombrio. Batman não é um herói comum, justamente porque ele tem uma postura anti-heroica em algumas de suas ações. Isso ainda fica mais claro na História em Quadrinhos. E o que diferencia o Batman de outros heróis e filmes é exatamente esse seu lado sombrio. E Gotham toma Batman como seu herói porque é o único que parece ser capaz de acabar com seu contexto caótico.

No entanto, em todos os três filmes, Gotham continua sendo Gotham. Oportunistas, vilões, pessoas que se aproveitam dos problemas da cidade, eles não deixaram de existir porque o Batman apareceu. E um dos aspectos geniais da trilogia é debater esse contexto de violência e criminalidade e relacioná-lo com o comportamento das pessoas. Não apenas daqueles que detém o poder, mas também dos que estão no cotidiano. Não por acaso, no segundo filme, o Coringa coloca dois grupos de pessoas em dois navios e ambos possuem o poder de detonar o outro. Tratava-se de um teste: se nenhum dos dois grupos acionassem o detonador em 15 minutos, os dois navios explodiriam. Tratava-se de um teste do caráter humano frente a um conflito entre racionalidade e dilema ético. Obviamente, o Batman chega antes que qualquer decisão possa ser tomada, mas ainda há alguns minutos de indecisão e de debate sobre o valor da vida humana.

O que o Batman pode trazer para a realidade, além de todos esses dilemas, é a necessidade de ter um herói. Não raro pessoas são tomadas como mártires a ponto de se tornarem indivíduos desprovidos de defeitos. Isso com base em diversas alegações cegas que consideram apenas as atitudes consideradas como “positivas” das pessoas. Entretanto, não existe uma linha clara entre “bem” e “mal”, assim como o contexto de Gotham tenta demonstrar. Na política, não existe santos, e a situação geralmente é mais complexa de que uma simples dicotomia entre esse lado e aquele lado. É claro que existem atitudes marcadamente anti-éticas ou negativas para um ou outro grupo social, mas geralmente há muitos mais aspectos de que a vã filosofia humana pode captar.

Um exemplo prático é a responsabilização excessiva em torno do Chefe do Poder Executivo. Da forma com a qual algumas pessoas falam, parece que no Brasil não existe um cargo de presidente da república, mas de Imperador. É importante lembrar que além de outros órgãos no Executivo, além do Executivo há o Legislativo e o Judiciário, e além do Governo Federal há os Estados e os Municípios. Imagino que tudo isso implique em uma grande dificuldade de articulação, não apenas entre governo e oposição, mas dentro do próprio governo.

Assim, antes de criar vilões e heróis na vida real, é necessário tomar muito cuidado. Caso contrário, corremos o risco de termos uma estátua do Duas Caras no meio da cidade.

 

O que Habermas diria sobre o Rei do Camarote?

Jürgen Habermas é amplamente conhecido por seu pensamento filosófico abstrato e os textos mal traduzidos do alemão. Em outras palavras: algumas pessoas encaram a leitura com um “ah, não”. Mas se fizermos um pequeno esforço de imaginação, a verdade é que muito de sua teoria pode ser aplicada a pequenos fatos do cotidiano.

Parte relevante do trabalho do filósofo alemão está centrada na concepção de “colonização do mundo da vida”. Isso por que o autor trabalha com uma lógica dual: existe o mundo da vida e os sistemas. O mundo da vida refere-se ao “reservatório de tradições implicitamente conhecidas e de pressupostos automáticos que estão imersos na linguagem e na cultura e utilizados pelos indivíduos na vida cotidiana” [1]. Traduzindo para o bom e velho português, podemos dizer que o mundo da vida está relacionado com o cotidiano, a realidade imediata dos indivíduos. Estado e mercado se constituem em dois subsistemas.

A colonização do mundo da vida, nesse sentido, refere-se à invasão da lógica de mercado no mundo da vida. Ocorreria, portanto, uma penetração do mundo da vida pela lógica sistêmica [2].

Quando penso em colonização do mundo, imagino uma série de pequenos exemplos. Um dos que gosto mais, devido à minha afinidade natural com o feminismo, é a questão da “objetificação” da mulher. No mundo machista que infelizmente ainda vivemos, a mulher é – muitas vezes – vista como um objeto. Em alguns casos, os homens tratam mesmo como se pudesse compra-las, com carros esportivos ou um salário muito alto, coisas que trazem status. Sobretudo, há uma espécie de lógica de mercado: no mercado, um produto é valorizado quando poucos podem compra-lo. Com as mulheres não é diferente: já soube de homens falando “ah, mas ela não conta, porque ela pega todo mundo”, desvalorizando a opinião da mulher, porque supostamente “ela pega todo mundo” ou, pior, desvalorizando a própria mulher como ser humano. “Todo mundo pode pegar”, logo não é exclusivo, logo não dá status, “então eu não quero”. Note que está presente aqui uma relação discrepante de poder: o homem, o consumidor; a mulher, o objeto a ser adquirido, o qual, como outros objetos, se encaixa na lógica oferta e demanda: quanto mais oferta (nesse caso ela pega todo mundo), o preço cai. Não estou dizendo que não existem mulheres que valorizam o status, mas apenas mostrando uma das várias consequências do machismo e, possivelmente, da penetração da lógica de mercado nas relações pessoais. Afinal, como diria Marx, “A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro”.

Recentemente, mais um vídeo do youtube se tornou uma moda viral nas redes sociais. Trata-se do vídeo do “Rei do Camarote”, um moço que aceita esse título e demonstra um comportamento esbanjador com a forma como gasta seu próprio dinheiro. Sem entrar no mérito de bom ou ruim,  o vídeo é mais uma demonstração de como dinheiro e estima social se integram cada vez mais a ponto de um significar o outro. E, sem hipocrisia, convenhamos que existem muitos reis do camarote por aí, e até mesmo príncipes, duques e lordes, mesmo que em menor escala por ter menor dinheiro. E o mais irônico é que muitos deles vão postar o vídeo “tirando sarro” do Rei enquanto comentam com o amiguinho que a opinião de Fulana não importa porque, sem ofensas, “ela pega todo mundo”.

 

PS: Eu não sei o que Habermas diria sobre o rei do camarote. Se alguém souber, sinta-se à vontade.

[1] Arato, Andrew; Cohen, Jean, 1994. “Sociedade civil e Teoria Social”, IN: Avritzer, Leonardo (org.).Sociedade Civil e Democratização. Pág. 147-192

[2] Idem

[3] MARX, Karl; ENGELS, Friederich. O Manifesto do Partido Comunista. Disponível em: <http://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/cap1.htm>