O Coringa e a Luta de Classes – Análise a partir de Max Weber e Karl Marx

[Atenção – contém spoilers do filme “Joker”!!!]

O filme “Joker” (Coringa) trata de um dos principais vilões da história dos quadrinhos: o arqui-inimigo do Batman. Além da atuação extraordinária de Joaquim Phoenix no papel principal, o filme atraiu a atenção da mídia por lidar com temas delicados, tais como a saúde mental e a construção psico-social da loucura. Entretanto, não é apenas o debate psiquiátrico ou terapêutico que tem relevância no filme, mas também o pensamento social e político podem contribuir para a compreensão da situação social do filme, sobretudo no que tange ao seu desfecho.

Em Gotham City, predomina o caos: crise econômica, serviços públicos precários, falta de segurança, greve, epidemia de ratos, entre outros fatores, perturbam a paz dos moradores. No meio do caos, Thomas Wayne, rico e com reputação de filantropo, decide se candidatar à prefeitura. Enquanto isso, Arthur Fleck, um palhaço aspirante a comediante de stand-up mal-sucedido, lida com a doença mental que o acomete [1]. Ele tem um distúrbio que o faz rir em situações inconvenientes, mesmo que ele queira expressar outras emoções, além da infelicidade que permeia toda a sua vida (“eu só tenho pensamentos negativos”, ele diz) – depressão, provavelmente, e talvez algum transtorno de personalidade. Mas a infelicidade do personagem não é resultado apenas de atitudes e pensamentos individuais, ela faz parte de um contexto.

Thomas Wayne deixa isso bem claro quando chama as pessoas de classes mais baixas e com menos condições econômicas de “palhaças”. Em um pronunciamento público, ele afirma que tais pessoas, na realidade, invejam os ricos porque não conseguiram ter o mesmo sucesso. Algo muito semelhante a um discurso de meritocracia como se a riqueza fosse exclusivamente produto do esforço. Esse pronunciamento, aliado à baixa qualidade de vida da população e outros eventos que acontecem durante o filme, contribuem para o estopim de uma série de protestos, cujo ápice encontra-se nas cenas finais.

O confronto final é uma verdadeira expressão da luta de classes: o estupor das classes que se sentem excluídas e cuja situação de miséria é justificada pelos ricos e proprietários com base em um discurso focado no mérito e em atribuições individuais (cujo prestígio é, em muitos casos, um construto – seguindo o pensamento de Rousseau). Parece algo similar? Recentemente, no Chile, uma horda de pessoas foi às ruas protestar em prol de serviços públicos de qualidades. E, sobre tal contexto, alguns apontam que trata-se do resultado de um modelo de desenvolvimento econômico pautado no crescimento sem a devida distribuição dos recursos [2].

A verdade inconveniente é que classe social ainda é um conceito analítico importante na compreensão de fenômenos sociais e políticos. Isso não significa que a classe social explica integralmente todos os fenômenos – como bem pontua Erik Olin Wright em “Class Counts”, mas apenas que ainda é um elemento importante e que deve ser considerado. Então, enfim, o que queremos dizer com a expressão “classe social”? Diferentemente do que alguns podem pensar, “classe social” não é um conceito exclusivamente marxista. Existem duas formas predominantes de entender o conceito: uma advém do pensamento do sociólogo Max Weber e outra advém do pensamento marxista, considerando ainda suas divergências internas (há diferentes abordagens marxistas sobre classe). 

Max Weber relaciona o conceito de classe social à posição que o indivíduo ocupa em relação aos mercados de bens e trabalhos. Ou seja, o conceito está relacionado aos interesses econômicos dos indivíduos e suas condições de vida. Já Marx define classe social com base em uma relação de produção, que se pauta pelo conceito de exploração [3]. Nesse sentido, não se trata apenas de uma questão de rendimentos – quem ganha mais ou menos – mas da relação específica no que tange à posse dos meios de produção. O trabalhador é explorado porque ele trabalha uma quantidade de horas superior ao que lhe é fornecido (como meio exclusivo de reprodução/subsistência), o que caracteriza a ideia de “mais-valia”. Dessa forma, o produto é fornecido por uma quantidade de horas superior à quantidade socialmente necessária à sua produção e o excedente é apropriado pelo detentor dos meios de produção, o qual não trabalha. Destarte, diz-se que o trabalhador é alienado do fruto de seu trabalho [4].

Ainda que a distinção clássica remeta à divisão entre burgueses e proletários, o próprio Marx já considerava a  existência de outras classes e análises marxistas mais recentes enfatizam tais posições intermediárias. É o caso do já citado professor Erik Olin Wright (in memorian), que constrói uma matriz de classe com base nos seguintes elementos: autoridade, rendimentos e meios de produção. Assim, o que caracteriza a classe social não é apenas a detenção do meio de produção, mas também a renda e o nível de autoridade que o trabalhador exerce, visto que esses fatores afetam a apropriação social do trabalho (quanto mais alta a renda, mais do trabalho social é apropriado pelo indivíduo) [5].

No filme “Joker”, existe uma diferença clara entre os que têm e os que não têm. Ambas as concepções de classe – weberiana e marxista – aplicam-se ao contexto. As pessoas de Gotham claramente possuem interesses econômicos frustrados, ao passo que se encontram à margem do mercado de bens e devem realizar trabalhos com um prestígio muito inferior ao que almejam, Aqueles que detêm o capital tem uma qualidade de vida imensamente superior aos que trabalham em postos considerados menores, como é o caso de Arthur Fleck. Na perspectiva weberiana, Arthur Fleck reflete a classe inferior por não ter condições de liberdade perante as condições do mercado: não consegue ter sucesso no trabalho e não detém renda suficiente para proporcionar a qualidade de vida desejada. Na abordagem marxista, Arthur Fleck é um proletário porque não detém meio de produção, autoridade ou rendimento para se encontrar entre os estratos superiores. Tudo que ele tem é sua força de trabalho mal remunerada. 

Além disso, a cidade carece de serviços públicos de qualidade que mitiguem os níveis de desigualdade. O próprio Arthur Fleck é vítima dessa carência quando cortam os gastos com a saúde e a sua terapeuta lhe informa que não mais poderá realizar as sessões de terapia. A indignação da população chega a tal ponto que o assassinato de três jovens empresários no metrô causa aprovação coletiva. A máscara de palhaço vira um símbolo, portanto, da luta por justiça social. Entretanto, a luta toma caminhos conservadores e violentos. É a Arte imitando novamente a vida.

Não raro, movimentos inicialmente progressistas tomam rumos autoritários. Trata-se da apropriação do discurso da necessidade de um herói, salvador da pátria, com poderes quase ilimitados. Para Marx [6], as clivagens entre as classes findariam por trazer a substituição do sistema de produção por meio da revolução. Entretanto, a práxis política mostrou que o discurso do herói e as sucessivas crises do capitalismo foram apropriados de modo a dar propulsão e legitimidade a regimes autoritários, que nada fizeram além de adaptar o capitalismo a seus próprios interesses. 

Em “Joker”, não é muito diferente. O Coringa mata a sangue frio e não traz nenhuma revolução social consigo. Diferentemente de uma consciência coletiva – um dos aspectos mais controversos no marxismo é, inclusive, a tal “consciência de classe” – sua satisfação com o caos parece advir mais de um prazer individual de que um objetivo de transformação social. Ainda assim, não se pode esquecer que suas atitudes estão imersas em um contexto social: Gotham City, uma cidade claramente dividida entre proprietários e não-proprietários, entre ricos e pobres.

 

[1] “Joker”, dirigido por Todd Phillips. Escrito por Todd Phillips e Scott Silver. 122 minutos, Warner Bros.

[2] Argumentos nesse sentido podem ser encontrados no  periódico El Pais: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/26/internacional/1572112346_368643.html

[3] MIGUEL, Luis Felipe. “De que falam os marxistas quando falam em classes?” Rev. Mediações, Londrina, v. 3, n. 1, pp. 23-29, 1998. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/9315 

NETTO, Miguel Rodrigues. “A Concepção de Classe em Weber e Marx e os Desafios Contemporâneos do Sindicalismo Brasileiro.” Jornada Internacional de Políticas Públicas, 23 a 26 de agosto de 2011. Disponível em: http://www.joinpp.ufma.br/jornadas/joinpp2011/CdVjornada/JORNADA_EIXO_2011/ESTADO_LUTAS_SOCIAIS_E_POLITICAS_PUBLICAS/A_CONCEPCAO_DE_CLASSE_EM_WEBER_E_MARX_E_OS_DESAFIOS_CONTEMPORANEOS_DO_SINDICALISMO_BRASILEIRO.pdf

[4] MARX, Karl. “O Capital”, diferentes edições. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich, “O Manifesto do Partido Comunista”, várias edições.

[5] WRIGHT, Erik O. Class Counts. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.

[6] MARX, Karl. “O Capital”, diferentes edições. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich, “O Manifesto do Partido Comunista”, várias edições.

De “Admirável Mundo Novo” a “Black Mirror”: a tecnologia é política.

Há anos, diz-se que o mundo passa por uma revolução tecnológica. Antes, era necessário ir à livraria para adquirir um livro em formato físico. Os livros ocupavam espaços largos nas prateleiras e nas malas. Hoje, estão acessíveis a um clique e ocupam um relativo pequeno espaço da memória do drive ou ainda da nuvem. Antes, a forma mais comum de escutar uma música era por meio de um CD. Hoje, estão disponíveis a milhares em plataformas como Deezer e Spotify. As tecnologias alteraram o modo de produção e consumo de diversos bens culturais e promoveram significativos avanços em áreas diversas, tais como saúde e educação [1].

Muitos ressaltam, assim, os benefícios das novas tecnologias, das quais a política não escapa. Entretanto, “nem tudo são flores” diria um pensador anônimo. Os avanços tecnológicos também trazem alguns dilemas, como deixaram claro as últimas eleições presidenciais brasileiras e o Brexit. Muito antes disso, em “Admirável Mundo Novo” [2], escrito pelo brilhante Aldous Huxley em 1932, a tecnologia aparece como um instrumento em prol da supressão de qualquer individualidade dentro de um regime excessivamente coletivista. Já a série (bastante atual) “Black Mirror” [3], produzida e divulgada pela plataforma Netflix (ironicamente), mostra os dilemas dos avanços tecnológicos, com foco nos impactos sobre as interações humanas. 

Ambas as obras são ficcionais, mas não estão tão longe assim da realidade. Recentemente, acompanhamos o impacto dos algorítimos no direcionamento de escolhas tidas como “pessoais”, assim como a manipulação política mediante grupos de WhatsApp e Notícias Falsas. Vivemos em um mundo no qual ganhar “curtidas” virou profissão, ao passo que vive-se mais no Instagram que fora dele. Assuntos como “proteção de dados pessoais”, “inteligência artificial” e “responsabilidade de provedores” viraram temas centrais no que concerne ao papel regulador do Estado. Termos estrangeiros como “big data” e “blockchain” tornaram-se praticamente universais.

No que tange à relação entre política e tecnologia, em uma visão científica, as pesquisas encontram-se divididas no julgamento dessa nova realidade. Por um lado, pesquisadores/as mais otimistas destacam os potenciais benefícios dos progressos tecnológicos: maior proximidade entre cidadão/ã e governo mediante iniciativas como o “governo digital”, facilidade de comunicação, surgimento de “novas vozes”, entre outros. Por outro lado, os mais pessimistas ressaltam a reprodução das desigualdades nas redes e o teor de manipulação. Não se trata de uma relação de fácil análise, tendo em vista que ocorre em múltiplas direções [4]. Lilia Schwarcz resume bem o balanço da relação entre tecnologia e política ao ressaltar que as mídias sociais trouxeram democratização em termos de informação e acesso, mas também permitiram o sucesso de líderes populistas que pregam ódio e intolerância [5].

Nesse sentido, cabe questionar a natureza neutra da tecnologia. Há quem diga que a tecnologia é neutra e, consequentemente, seus benefícios ou malefícios dependem exclusivamente do uso que se faz dela. Mas será que a tecnologia é mesmo desprovida de qualquer caráter à margem da neutralidade? Sobre esse aspecto, vale lembrar que mesmo a Internet surgiu com um propósito claro (e politicamente direcionado) [6].  Assim, cabe lembrar – por mais óbvio que pareça – que as tecnologias não surgem espontaneamente, mas são criadas por seres humanos – e, muitas vezes, contam com patrocínios por trás dos quais encontram-se determinados interesses. Os algorítimos carregam, portanto, os valores e as perspectivas de seus criadores e desenvolvedores [7]. Sobretudo, o uso da tecnologia pressupõe o domínio de uma linguagem própria – não por acaso, o termo “tecnologia” vem de “técnica” [8]. E quem domina a técnica, domina a política.

Em “Admirável Mundo Novo”, a classe alfa é a detentora do conhecimento sobre como a tecnologia funciona e direciona todo o sistema social disposto no livro, ainda que não esteja dotada de total liberdade (não há a liberdade de ser infeliz, de desprender-se do coletivo em prol da individualidade, e aqueles que o fazem são exilados em ilhas, mesmo quando pertencem às classes superiores). Também em “1984”, clássico de George Orwell [9], a tecnologia é empregada para controlar a população – por meio, principalmente, de câmeras e aparelhos televisores. Por outro lado, “Black Mirror” mostra como o comportamento humano e a tecnologia são mutuamente condicionados. Ao passo que dilemas e problemas relacionados ao mundo analógico permanecem no meio digital, a tecnologia desperta outras questões e também direciona o comportamento dos indivíduos.

Discussões sobre privacidade e proteção de dados pessoais nunca foram tão atuais, principalmente nos debates sobre marcos regulatórios. No âmbito da Ciência Política, é de se esperar que estudos sobre o impacto das tecnologias no comportamento eleitoral e no fortalecimento (ou enfraquecimento) da democracia ampliem-se ainda mais nos próximos anos.

De qualquer forma, já está evidente que também a tecnologia é política. 

Sobretudo, tecnologia é poder.

[1] Diversos livros tratam da expansão das novas tecnologias e seus impactos. Aqui, destaco dois: “Promises to Keep: Technology, Law, and the Future of Entertainment”, de William T. Fisher (Stanford Law and Politics, 2004), sobre tecnologia e direitos autorais, e “Smart”, de Frédéric Martel (versão em português publicada pela Editora Civilização Brasileira, 2015)

[2]  Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. São Paulo: Globo, 2001.

[3] Black Mirror, autores: Charlie Brooker, Jesse Armstrong, William Bridges, série distribuída pela plataforma Netflix.

[4] WEARE, Christopher. “The Internet and Democracy: the Causal Links Between Technology and Politics”.INT’L. J. OF PUBLIC ADMIN., 25(5), 659–691, 2002..

[5] SCHWARCZ, Lilia. Sobre o Autoritarismo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

[6] Ver em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/9888/9888_4.PDF (Último acesso: 02/10/2019).

[7] KAMARINOU, Dimitra et al. Machine Learning with Personal Data. Queen Mary School of Law Legal Studies, Research Paper no. 247/2016. Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2865811 (Último acesso: 02/10/2019).

[8] Ver em: https://www.gramatica.net.br/origem-das-palavras/etimologia-de-tecnologia/ (Último acesso: 02/10/2019).

[9] George Orwell, 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Sobre classe, gênero e coisas mais estranhas

A terceira temporada de “Stranger Things” [1] estreou após um longo período de ansiedade para seus fãs. A série é uma das mais famosas produções originais da plataforma de streaming Netflix. O roteiro da terceira temporada segue a linha bem-sucedida das anteriores: a ameaça de um outro mundo repleto de monstros contra um grupo de crianças entre as quais encontra-se uma garota com poderes paranormais. Mas, para além das aventuras da turma querida da série, a terceira temporada trouxe mais discussões de cunho político. E não se trata apenas da atuação dos russos e da defesa do American Way of Life; a terceira temporada contém algumas cenas rápidas que estão relacionadas a discussões calorosas nos campos da sociologia e da teoria política. Trata-se, primordialmente, do debate sobre a situação das minorias.

A palavra “minoria” possui diferentes significados na teoria política. Na obra de alguns autores (nas traduções em português) – entre eles Robert A. Dahl [2] – o termo é utilizado para designar grupos pequenos no sentido numérico. Entretanto, em grande parte dos estudos sociais, a expressão não remete ao valor numérico, mas a um contexto de desvantagem social. Nesse sentido, minoria se refere a um grupo que se encontra em posição de desvantagem, o que pode ser resultado de uma série de fatores [3] – ou variáveis, na linguagem da metodologia científica. “Classe”, “gênero” e “sexualidade” são alguns desses fatores, uma vez que determinam a posição que os indivíduos e grupos ocupam na sociedade.

No que tange à classe social, é preciso lembrar que existem duas concepções predominantes nas Ciências Sociais: a weberiana e a marxista. A concepção weberiana – advinda logicamente do trabalho de Max Weber – define classe social com base nas condições do mercado de bens e de trabalho. Assim, a classe é uma forma de estratificação social que se baseia nas condições de vida das pessoas. Já a visão marxista, em termos gerais (e respeitando-se as variações entre os autores), baseia-se na ideia de “exploração”. Na ótica do marxismo, a classe deriva de uma relação de exploração, ou seja, uma relação na qual o benefício de determinado segmento provém do prejuízo ao outro. O que define classe no marxismo não é o renda em si, mas a posição na relação de exploração, ou seja, a detenção ou não dos meios de produção [4]. Perspectivas marxistas contemporâneas vão além da dicotomia original burguês vs. proletário: Erik O. Wright (RIP), por exemplo, constrói uma extensa matriz de classes com base nos elementos “meios de produção”, “renda” e “nível de autoridade”, os quais estariam associados aos diferentes graus de apropriação do trabalho social [5].

Classe é uma variável estritamente relacionada à política, porque está vinculada às oportunidades de participação e à construção de valores assim como consistiu historicamente em um dos cernes das demandas populares por determinadas políticas públicas. Não por acaso, a década de 60 foi paradigmática na Ciência Política em razão da ascensão de movimentos que se distanciavam das demandas tradicionais classistas e permeavam outros assuntos aparentemente fora do espectro econômico: gênero e sexualidade são dois exemplos. Nancy Fraser [6] aborda essa questão no clássico texto “Da Redistribuição ao Reconhecimento? Dilemas da Era Pós-Socialista”. A autora divide as demandas sociais em dois tipos: redistributivas e demandas por reconhecimento. Tais demandas foram, por vezes, vistas como antíteses por demandarem remédios distintos (igualdade vs. reconhecimento da diferença).

Esse conflito é visto, em Stranger Things, na discussão entre Nancy Wheeler e seu namorado Jonathan. Vítima de machismo no trabalho, Nancy tenta fazer com que seu namorado – homem branco e heterossexual – entenda sua situação, inicialmente sem sucesso. Ele rebate com o argumento de que tampouco ela conseguia se colocar em seu lugar, uma vez que ambos pertenciam a classes totalmente distintas. Há uma falta de entendimento mútuo que deriva de duas posições distintas ocupadas pelos personagens na sociedade: Nancy não tem problemas com dinheiro, mas enfrenta o machismo no local de trabalho, enquanto Jonathan passou por situações financeiras difíceis, mas não sabe o que é ser vítima do machismo (o fato de Nancy não ser levada a sério pela equipe, escutar chacotas e ser designada a funções consideradas como inferiores meramente por ser mulher).

Assim, classe e gênero incidem sobre as oportunidades de ascender socialmente, pois afetam o reconhecimento por parte dos pares. O mesmo ocorre com a sexualidade, quando a orientação sexual resulta em discriminação, menos direitos e perseguição a determinados grupos. Esse contexto refere-se à submissão de padrões culturais minoritários – considerados “diferentes” – ao padrão hegemônico [7]. Em uma sociedade heteronormativa, determinados padrões de comportamento associados a homossexuais são vistos como sinais de desprezo e perseguição, o que resulta na exclusão dessas pessoas da vida econômica, cultural e social – em suma, na marginalização. Um exemplo clássico é quando a palavra “viado” é utilizada de forma pejorativa. Por quê um homem se relacionar com outro homem seria algo negativo? Ainda sobre Stranger Things, essa marginalização fica clara no diálogo entre Robin e Steve, quando ela se mostra receosa ao contar que é lésbica e, portanto, “diferente” dos demais colegas do amigo. O próprio Will sofre certa marginalização na turma por não demonstrar interesse amoroso em garotas.

Sobre as demandas discutidas anteriormente, Nancy Fraser aponta que trata-se de uma falsa antítese, uma vez que a justiça social demanda simultaneamente redistribuição e reconhecimento. Há muitos grupos que se encontram subordinados em um contexto bidimensional, ou seja, sofrem má-distribuição e falta de reconhecimento em formas em que “nenhuma dessas injustiças é um efeito indireto da outra, mas ambas são primárias e co-originais” [8]. Nesse sentido, a tendência atual na sociologia é justamente estudar a intersecção entre essas variáveis, i.e. as diferentes realidades sociais que resultam da interação entre distintos tipos de opressão.

Há diferentes correntes que abordam a questão, desde o pós-estruturalismo à abordagem interseccional. No geral, pode-se dizer que tais perspectivas tentam analisar como interagem condicionantes sociais tais como classe, gênero, raça e sexualidade. São as chamadas “opressões cruzadas [9]. Por exemplo, a situação de uma mulher negra é diferente de uma mulher” branca: ambas sofrem com machismo, mas em graus claramente diferenciados segundo outras características sociais (classe, renda, raça, etc).

Até agora falamos bastante de sociologia, mas e especificamente quanto à política? Como essa discussão se encaixa? Acontece que a política é definida, muitas vezes, por grupos que representam os poderosos na sociedade. Disso resulta uma falta de empatia, visível nos estudos sobre percepções das elites [10]. Como pode um homem decidir sobre direito ao aborto se ele não sabe como é engravidar? Ou brancos discutirem sobre medidas anti-racistas se eles nunca passaram por uma situação de racismo? Não significa que tais pessoas sejam incapazes totalmente de participar da discussão, mas elas possuem experiências distintas que se articulam às suas demandas e aos seus valores políticos.

Iris Marion Young [11] utiliza o conceito de “perspectiva social” para designar o conjunto de experiências que faz com que determinados indivíduos compartilhem situações que os caracterizam como pertencentes a determinados grupos – ou a minorias. A defesa da autora em relação a determinados elementos de representação descritiva partem desse conceito. Em uma explicação simplista, a autora defende a inserção de determinados grupos na política – por meio, por exemplo, de cotas – para que tais segmentos tenham representação, i.e. alguém que compartilhe de suas experiências, ainda que isso não signifique ter as mesmas opiniões.

Tendo em vista que democracia pressupõe certo nível de igualdade política [12], a inclusão de grupos minoritários é fundamental. Os caminhos mais adequados para promover a inclusão são questionáveis, mas a dificuldade de algumas pessoas em compreender tal necessidade é ainda mais estranha que o universo de Stranger Things. Será que estamos no mundo reverso?

Referências:

[1] http://www.adorocinema.com/series/serie-19156/temporada-32683/

[2] DAHL, Robert. Poliarquia: Participação e Oposição. Tradução de Celso Mauro Paciornik. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

[3] Para uma explicação didática e simples sobre o termo, ver: https://www.politize.com.br/o-que-sao-minorias/

[4] MIGUEL, Luis Felipe. “De que falam os marxistas quando falam em classes?”. Rev. Mediações, Londrina, v. 3, n. 1, p. 23-29, 1998.

[5] WRIGHT, Erik Olin. “Análise de Classes”. Capítulo 1 do livro “Class Counts”. Tradução de Roberto Cataldo Costa, Revista Brasileira de Ciência Política, n° 17, Brasília, maio-agosto, 2015.

[6] FRASER, Nancy. “Da Redistribuição ao Reconhecimento? Dilemas da Justiça na era Pós-Socialista”. In: SOUZA, Jessé (org.) Democracia Hoje: Novos desafios para a teoria democrática contemporânea. Brasília: Editora UnB, 2001, p.245-282; FRASER, Nancy. Social Justice in the Age of Identity Politics: Redistribution, Recognition, and Participation. Em FRASER, Nancy & HONNETH, Axel. Redistribution or Recognition : a Political-Philosophical Exchange. London: Verso, 2003.

[7] Ibidem

[8] Ibidem, p. 19

[9] MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. “Gênero,           raça,    classe: opressões        cruzadas         e         convergências  na        reprodução das desigualdades”. Em: Mediações,         vol.      20,       n.         2,         2015.

[10] Um exemplo: REIS, Elisa. “Percepções da elite sobre pobreza e desigualdade”. Em: Revista Brasileira de Ciências Sociais, 2000, vol.15, n.42, pp.143-152.

[11] YOUNG, Iris Marion. “Representação política, identidade e minorias”. Lua Nova, São Paulo, 37, 2006, pp. 139-190. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ln/n67/a06n67.pdf/

[12] HELD, David. Modelos de democracia. Tradução de María Hernández. Madrid: Alianza, Terceira Edição, 2007.

Filosofia é a sua terapia.

Aristóteles definia a felicidade como um hábito [1].

Maquiavel argumentava que é necessário ter virtú para lidar com as circunstâncias [2].

Schopenhauer falava sobre a importância de não esperar, ou do “désespoir” [3] e ensinava a ganhar um debate [4]

Engels criticava o modelo de família que se baseava em uma relação de propriedade [5].

Em termos de terapia, a filosofia pode ser tão eficaz (ou melhor que) quanto a autoajuda. De fato, o princípio básico da filosofia é a busca pelo saber, porquanto a essência desse campo do conhecimento consiste em instigar o indivíduo a pensar. Nessa empreitada, os/as filósofos/as se debruçam sobre questões essenciais à existência humana e, portanto, contribuem para que seus/suas próprios/as leitores/as desenvolvam suas reflexões. E essa é um dos cernes da conhecida série catalã “Merlí”, disponível na plataforma Netflix.

Ambientada em Barcelona, “Merlí” está centrada em um professor de filosofia bastante excêntrico chamado Merlí Bergeron. Merlí é o típico professor subversivo, que não concorda com o atual sistema educacional, fala o que pensa e faz críticas efusivas à sociedade, além de se envolver pessoalmente nos conflitos dos/as estudantes da turma. Em que pese algumas falhas em seu caráter – em alguns casos, Merlí adota atitudes bastante antiéticas [6] – ele tenta ajudar os/as estudantes do Instituto onde ensina filosofia. O ponto mais positivo da série é justamente a ligação que os episódios promovem entre as corrente filosóficas e os dilemas pessoais dos/as adolescentes. Por exemplo, no episódio sobre Platão [7], Merlí discute o sentido da expressão “amor platônico”, enquanto alguns/as estudantes da turma se envolvem em conflitos amorosos. Nos episódios sobre Engels [8] e Zizek [9], ele rediscute o conceito de “amor” de modo a fazer com que a turma reflita sobre a transformação das relações pessoais em relações de propriedade (ele discute bastante sobre o ciúme) e a definição de amor como algo relacionado a aceitar as imperfeições em oposição ao afeto sobre a imagem idealizada. Explicando sobre Judith Butler [10], ele aborda os estereótipos e as definições de gênero, ao passo que uma professora transexual chega à escola.

Já no episódio 12 da 2ª Temporada [11], Merlí explica o taoísmo – que se baseia na ideia de harmonia – enquanto alguns estudantes tentam sair de suas próprias zonas de conforto.

Ele discute constantemente os conceitos de “felicidade”, “amor”, “família”, entre outros, tão essenciais à existência humana, evidentemente intricados com a vida dos/as estudantes. O próprio Merlí não está livre de conflitos emocionais. Ele mesmo tem uma relação complicada com seu filho, Bruno, o qual passa a morar com ele no início da série e pertence coincidentemente à turma à qual ele passa a lecionar (que ele chama de “peripatéticos”, em homenagem ao círculo de filósofos que seguiam os ensinamentos de Aristóteles).

É claro que as vertentes filosóficas são mostradas, na série, de maneira rasa e suave, tendo em vista que os episódios não se concentram apenas nas aulas de filosofia, mas abordam principalmente a vida pessoal dos personagens. Além disso, a falta de profundidade se justifica pelo ambiente, o qual consiste em uma escola secundária (e não universidade ou curso de filosofia propriamente dito). Em que pese a falta de profundidade, a explicação sobre as variadas vertentes filosóficas e a relação entre os conceitos e a vida dos/as personagens é suficientemente interessante. A teoria política, aliás, não deixa de ter papel relevante. Durante a série, Merlí também discute autores como Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes e Karl Marx. E nos dá lição de como tais autores estão também presentes em nossas vidas cotidianas.

A verdade é que muitas pessoas possuem uma visão pejorativa sobre a política e, consequentemente, sobre a Ciência Política, ou mesmo a teoria política. Todavia, não se pode ignorar o fato de que a política faz parte diretamente da vida das pessoas, inclusive em aspectos muitas vezes ignorados. Veja, por exemplo, a relação familiar: estão presentes os conceitos de “poder”, “autoridade” e “liderança”, exaustivamente discutidos pela teoria política. Ou então outros tipos de relacionamento afetivo: daria para escrever um livro inteiro sobre conselhos de Maquiavel para ter sucesso com namorados/as. Falando em Maquiavel, algumas de suas ideias principais trazem lições importantes não apenas ao Príncipe, mas à sobrevivência humana. Nesse sentido, destaco o conceito de “virtú” [12], que corresponde à capacidade de lidar com as circunstâncias, ou seja, de transformar situações desfavoráveis em algo positivo. Não poderíamos, então, afirmar que a virtú é uma baita fonte de resiliência? Aristóteles, por sua vez, dizia que a felicidade é a finalidade das ações humanas [13]. Dessa forma, também a teoria (ou a filosofia) política se aplica a assuntos banais da existência. Política, aliás, faz parte do cotidiano, porque remete às relações humanas – e, lembrem-se, o ser humano é um animal social, como diria Aristóteles [14].

E é justamente essa a ideia que eu tentei compartilhar com minhas turmas, nas experiências com docência que tive até o momento. Trazendo conceitos que inicialmente parecem abstratos à análise de elementos cotidianos – sobretudo, a cultura pop que tanto gosto – tento mostrar que a teoria política não está tão longe assim das nossas vidas. E pode servir como uma ótima terapia. Porque a teoria política nos ensina a pensar. E esse ato é fundamental na existência humana, como já diria Descartes [15].

P.S.: Obviamente, a série tem muitos pontos fracos. Um dos principais é a caracterização geral das mulheres [16], muitas vezes relegadas a papeis secundários ou estereotipados. Mas esse é assunto para outra postagem.

Referências:

[1] Aristóteles, “Ética à Nicômaco”.

[2] N. Maquiavel, “O Príncipe”.

[3] A. COMTE-SPONVILLE, “L’amour et la solitude”.

[4] A. Schopenhauer, “L´Art d´Avoir Toujours Raison“

[5] F. Engels, “A Origem da Família, da Propriedade e do Estado”.

[6] Em um episódio, ele chega a roubar uma prova de outro professor para beneficiar seu próprio filho.

[7] T1 E2

[8] T2 E10

[9] T2 E11

[10] T2 E7

[11] “O Taoísmo”

[12] N. Maquiavel, “O Príncipe”.

[13] Aristóteles, “Ética à Nicômaco”.

[14] Aristóteles, “Política”, I.

[15] R. Descartes, “Discurso do Método”

[16] Já abordado em outras publicações, tais como: https://cinemacao.com/2017/10/12/pontos-positivos-negativos-merli/

Romantização de relacionamentos abusivos na cultura pop: breve análise a partir das teorias feministas.

[ATENÇÃO! Contém spoilers de: “O Fantasma da Ópera” (musical/filme) e “You” (série)]

Em 2018, tive a oportunidade de assistir ao musical “O Fantasma da Ópera” [1] em Londres. Embora obviamente o musical seja impecável em termos de produção, ter revisto essa história me deixou com um incômodo difícil de evitar. Acontece que “O Fantasma da Ópera”, assim como muitas outras histórias, vende um tipo de relacionamento nocivo a diversas mulheres. Explico: trata-se do tão famoso relacionamento abusivo.

Chamamos de “relacionamento abusivo” uma relação na qual predomina o exercício do poder de uma pessoa sobre a parceira. E esse poder se reflete na necessidade de controle, o que remete à visão da relação afetiva como uma relação de propriedade [2].

Na história de “O Fantasma da Ópera”, Christine é uma aspirante à cantora que passa a ser tutorada por um “fantasma”, um sujeito que se esconde nas sombras do teatro. Acontece que, em que pese o Fantasma ter ajudado Christine a se desenvolver profissionalmente, a todo momento ele tenta exercer controle sobre ela – proibindo, inclusive, que ela tenha uma relação amorosa com Raoul, um amigo de infância por quem Christina claramente nutre sentimentos. O ápice do musical é quando o Fantasma sequestra Christine e Raoul tenta resgatá-la. Como se não bastasse o Fantasma tratar Christine como se ela fosse sua propriedade, também o “mocinho” Raoul deixa a desejar em diversos momentos. Em determinado trecho, ele até convence Christine, de forma bastante coercitiva, a servir de “isca” para que eles consigam capturar o Fantasma.

Mas tudo acaba relativamente, qual é o problema então dessa história? A grande questão é que o musical cria a ideia de que as ações do Fantasma são justificadas pelo amor que ele sente por Christine. E isso, psicologicamente, faz com muitas mulheres desejem ser amadas dessa maneira (e confundam obsessão com posse). Imagine só, “um homem que te ama tanto, tanto, mas tanto!, que até te sequestra e assina um punhado de gente para te fazer feliz!”. Parece irreal, mas é verdade que algumas mulheres pensam assim.

Recentemente, uma série sobre um protagonista obsessivo fez bastante sucesso na Netflix: inspirada em livro homônimo, “You” conta a história de Joe Goldberg, que assassina uma série de pessoas por acreditar que está fazendo “o melhor” pela mulher que “ama”(Guinevere Beck) [3]. Joe evidentemente é alguém com problemas de personalidade, ele se transforma em uma espécie de serial killer e tenta controlar todos os aspectos da vida de sua namorada: ele a investiga, acessa suas redes sociais por meio do telefone dela que ele roubou (!), assina o ex-namorado, entre outros. Parece um horror evidente, mas o fato é que muitas fãs da série transformaram Joe em um “objeto de desejo”, o que perturbou, inclusive, o ator que o interpreta [4]. Detalhe importante: no capítulo final da primeira temporada, Joe mata sua namorada – e isso não impediu que fãs dissessem, nas redes sociais, que elas queriam ser sequestradas por ele.

Aí entra aquele debate sobre agência, autonomia e liberdade, tão caro às Ciências Sociais. Há quem pergunte “e daí se a mulher quer ter um relacionamento assim? Liberdade individual, etc”. Deturpar o conceito de liberdade individual não é apenas perigoso como pode ser letal. Acontece que ninguém é 100% autônomo no sentido de que até mesmo o juízo de valor é dependente do contexto e das relações interpessoais. Algumas pessoas são menos autônomas que outras, pois enfrentam uma série de constrangimentos que afetam a construção de suas preferências: trata-se do conceito de “agência diferenciada” da professora Flávia Biroli [5].

E um dos problemas é a forma com a qual a cultura pop representa o “homem” e a “mulher” de modo a atribuir papeis específicos. Historicamente, a mulher foi colocada em posição de objeto no sentido de que o referencial era o homem e a mulher era a “outra” – Simone De Beauvoir fala bem disso em “O Segundo Sexo” [6] Filmes, livros e séries refletem essa realidade na medida em que representam mulheres em papeis exclusivos, geralmente passivos ou submissos: a donzela em perigo na torre, a dona de casa, a esposa traída, entre outros. Evidente que essa realidade tem mudado, mas está longe de ser um paraíso.

Não por acaso, existe o teste de Bechdel, criado para identificar filmes que fogem do padrão em relação às personagens femininas [7]. O teste consiste em verificar se o filme atende aos seguintes requisitos:

  • Ter duas mulheres com nomes;
  • Ter ao menos uma cena em que mulheres conversam entre si;
  • Ter uma conversa sobre mulheres na qual o assunto principal não seja “homens” [8].

E é surpreendente a quantidade de filmes que não passam no teste. Por isso, pedir por mais “representatividade” não é “mimimi”. A representatividade é necessária para mostrar que “lugar de mulher” é onde ela quiser estar. Preferencialmente, longe de relacionamentos abusivos e opressores.

Referências:

[1] “The Phantom of the Opera”, exibido em Her Majesty Theatre. Informações em: https://phantomoftheopera.fromtheboxoffice.com/city/2957-london/42KY-the-phantom-of-the-opera/?ab_test__new_event_page=shown&gclid=EAIaIQobChMIkYvflt2y4QIVSQqRCh0gkg4pEAAYASAAEgJXPfD_BwE

[2] Repórter UNESP (2015). “Psicóloga explica relacionamentos abusivos˜. Ver em: http://reporterunesp.jor.br/2015/08/20/psicologa-explica-relacionamentos-abusivos-o-que-e-e-como-lidar-com-essa-situacao/

[3] https://youtv.fandom.com/wiki/Joe_Goldberg

[4] http://www.c7nema.net/tv-musica-games/item/49928-you-penn-badgley-incomodado-com-fas-do-seu-joe-goldberg.html

[5] BIROLI, Flávia (2012). “Agentes imperfeitas: contribuições do feminismo para a análise da relação entre autonomia, preferências e democracia”. Ver em: http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n9/01.pdf

[6] BEAUVOIR, Simone de (1979 [1949]). Le deuxième sexe”, I. Gallimard.

[7] https://www.youtube.com/watch?v=KOZZXOQ-PtE

[8] Ibidem

Em uma galáxia não muito distante: lições de Star Wars para a política brasileira

“Então, é assim que a liberdade morre: com um estrondoso aplauso”, diz Padmé Amidala ao presenciar a concessão de poderes máximos, pelo Senado, ao Chanceler Supremo [1]. No terceiro filme da saga de Star Wars, a concentração de poderes na figura do Chanceler Palpatine resultou na fase da política galáctica conhecida como “Império”, caracterizado pelo alto nível de repressão política e violação às liberdades individuais.

No início cronológico da série (episódios I, II e III), o sistema político é classificado como uma República. Na ótica da ciência política, tal regime consiste em um sistema misto no qual se combinam instituições de diferentes formas de governo: a realeza (monarquia), o Senado (aristocracia) e as instâncias representativas do povo (democracia). A ideia principal da combinação institucional é promover maior estabilidade, uma vez que a existência de diferentes formas de governo propiciaria um sistema de freios e contrapesos [2]. Entretanto, a República Galáctica de Star Wars enfrentava períodos de instabilidade. Uma das principais causas era a influência da Federação do Comércio, a qual empreendeu embargos comerciais devido à discordância em relação à política tarifaria. A Federação apoiou substancialmente alguns movimentos separatistas de grupos que queriam se separar da República Galáctica, o que aumentou o número de conflitos armados [3].

A ameaça de uma guerra foi utilizada então pelo Senador Palpatine para convencer seus pares a optar pela concentração de poderes. O Senador convenceu os demais sobre a importância de criar um exército para a República. O exército então foi utilizado em prol de um genocídio jedai, i.e. o assassinato deliberado em massa de indivíduos que se contrapunham à visão de mundo de Palpatine [4]. Com o pretexto de guerra civil, Palpatine eliminou (literalmente) os dissidentes políticos e instaurou um regime de natureza ditatorial, chamado de Império, com o auxílio de seu braço armado, o conhecido vilão Darth Vader. Esse é o contexto dos filmes IV, V e VI, nos quais acompanhamos a luta da Aliança Rebelde, grupo guerrilheiro, contra o Império.

Embora seja um filme de ficção, o contexto de Star Wars apresenta diversos elementos presentes na realidade política, inclusive a recente ascensão do populismo de direita em diferentes partes do mundo. A permissividade do Estado quanto a grupos de grande poder econômico é um tema bastante estudado na ciência política. Vertentes marxistas abordam as diferentes formas com as quais as instituições estatais são cooptadas pelos interesses das classes burguesas (cf. Claus Offe, Nicos Poulantzas, Ralph Miliband) [5]. Nesse sentido, o Estado seria mais “aberto” aos interesses de grupos com poder econômico por diferentes razões, tais como a dependência estrutural em relação ao investimento privado ou a constituição material do Estado, cujas instituições são compostas por diferentes frações de classe (cf. Claus Offe, Nicos Poulantzas) [6].

No caso do Brasil, as classes mais abastadas tiveram historicamente mais acesso às decisões públicas mediante o relacionamento com a burocracia e as instituições estatais. Não por acaso, diz-se que o sistema político brasileiro é corporativista, tendo em vista o favorecimento, mediante instituições públicas, de interesses de classes específicas em detrimento das demais (cf. Eli Diniz, Luiz C. Bresser) [7]. Assim como a Federação do Comércio, os grupos com maior poder econômico possuem mais oportunidades de pressionar o governo. E nem sempre utilizam métodos democráticos. É só lembrar que as classes média e alta concederam largo apoio ao golpe de 1964, que instaurou uma ditadura militar no Brasil. Sobre o pretexto de uma ameaça comunista – sobre a qual, há controvérsias em relação à real existência [8] – o regime militar brasileiro foi responsável por torturar e assassinar dissidentes políticos. Há famílias que até hoje não sabem o que aconteceu com seus parentes desaparecidos durante o regime.

Ainda assim, há pessoas que, em 2018, defendem o regime militar. Argumentam que foi um período próspero para o país e que os militares teriam evitado uma catástrofe maior. Um dos principais candidatos à Presidência da República nas eleições de 2018, o líder das pesquisas até o momento, trata-se de Jair Bolsonaro, que defendeu publicamente o General Ustra, responsável por torturas na época da ditadura. Segundo pesquisas recentes [9], o apoio ao Bolsonaro se justifica principalmente por uma espécie de “anti-esquerdismo”, que resulta do ódio ao Partido dos Trabalhadores (PT), gerado, em parte, pelos escândalos de corrupção relacionados ao partido. Todavia, essa ideologia caminha por uma trilha perigosa: a da adoção de uma alternativa bonapartista que, além de não resolver os problemas do país, pode trazer prejuízos sérios às liberdades fundamentais e aos direitos humanos.

A eleição de Bolsonaro simboliza uma solução bonapartista porque se apoia na crença de que um candidato será o grande responsável por salvar o país de seus problemas. Chama-se de “bonapartista” pois Napoleão Bonaparte foi colocado no poder para frear os rumos da Revolução Francesa, como uma forma de conciliador [10]. Semelhante ao que aconteceu em Star Wars, acredita-se que uma pessoa – o candidato “super honesto” – será capaz de tirar o país do caos ou salva-lo de uma suposta ameaça, comunista ou petista no caso do Brasil. No entanto, trata-se de uma perspectiva perigosa e pouco razoável. Primeiramente (#foratemer), porque grandes problemas que assolam o país não serão resolvidos exclusivamente mediante o mecanismo eleitoral. Há provas mais que suficientes de que a corrupção é endêmica e que, para solucioná-la, seria necessário fazer mudanças de natureza institucional e estrutural.

Em segundo lugar, atribuir a culpa de todas as mazelas do país a um único partido parece infrutífero e tira o foco dos fatores mais relevantes relacionados às dificuldades da política nacional. Nesse sentido, o PT tem servido largamente como bode expiatório da classe política como um todo. Basta recordar trechos do áudio do ex-ministro Romero Jucá, no qual ele afirma que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff servirá para livrar os demais políticos da Operação Lava Jato, uma das maiores operações contra a corrupção da história do país (importante, mas não isenta de parcialidade). Assim, a política contra a corrupção no Brasil tem focado em figuras específicas – sobretudo, o ex-presidente Lula – enquanto outras parecem imunes (o que se diz sobre Aécio e os demais citados no áudio e em outras reportagens?). Isso não significa afirmar que Lula seja inocente, mas o foco exclusivo em sua personalidade contribui para que outros desvios de conduta de mesma significância recebam menos atenção pública – o que é vantajoso para a classe política em geral.

Por fim, a ideia de um “salvador” é demasiado personalística e traz riscos à democracia. Parte do pressuposto que a salvação virá de características pessoais – uma espécie de dominação carismática, conforme conceito weberiano [11] – as quais são elementos menos perenes que as instituições. Soma-se a esses fatores, as alegações do candidato que mostram que ele possui uma personalidade autoritária. Além das conhecidas declarações racistas, misóginas e homofóbicas, ele afirmou publicamente que fecharia o Congresso Nacional se considerasse necessário. Embora a composição do Congresso deixe a desejar, o parlamento ainda consiste em um fórum relevante de discussão. Além disso, trata-se de um órgão de controle do Poder Executivo. De forma semelhante, em Star Wars, o Senado Galáctico representava um espaço mais aberto de debate, pois permitia a expressão de interesses de diferentes regiões da Galáxia. A experiência fictícia e a brasileira mostram que fechar tais espaços está longe de ser a solução. Na prática, a limitação imposta ao Poder Legislativo visa ao fortalecimento do poder irrestrito do chefe do Executivo. E bem sabemos para onde caminha essa concentração de poder… (ouça-se aqui a “Marcha Imperial”).

Assim, o universo Star Wars sugere que devemos analisar com clareza o que está em jogo nestas eleições, pois elas envolvem mais que simplesmente propostas para melhorar a economia. Caso contrário, corremos o risco de presenciar alguns retrocessos em uma galáxia não muito, muito distante….

Referências

[1] Star Wars, Episódio III: A Vingança dos Sith. Diretor: George Lucas. Estreia: 2005, 140 minutos, Estados Unidos da América.

[2] BOBBIO, Noberto. Teoria Geral da Política: A Filosofia Política e as Lições dos Clássicos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000.

[3] REIS, Guilherme Simões; LEMOS, Carlos; BARREIRA, Renato; DIAS, Weslley. A ciência política de Star Wars. Março de 2016.

[4] Para uma explicação sobre o conflito Sith x Jedai, ibidem.

[5] Seguem as obras referenciais:

OFFE, Claus. Problemas estruturais do Estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder, o socialismo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 4a edição, 2000.

MILIBAND, Ralph. “O Sistema Estatal e a Elite do Estado”. In: CARDOSO, Fernando Henrique; MARTINS, Carlos Estevam (orgs). Política e Sociedade. São Paulo: Editora Nacional, 1979, v.1, p. 135-147.

[6] Op. Cit. / Conclusões semelhantes são expostas por outras vertentes teóricas. Ver em: GILENS, Martin; PAGE, Benjamin I. “Testing Theories of American Politics: Elites, Interest Groups, and Average Citizens”. Perspectives on Politics, vol. 12, nº 13, pp. 564-581, 2014.

[7] Seguem as obras referenciais:

DINIZ, Eli. Neoliberalismo e Corporativismo: As duas faces do capitalismo industrial no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 7, n. 20, 1992.

PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Burocracia pública e classes dirigentes no Brasil. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 28, pp. 9-30, 2007.

[8] https://theintercept.com/2018/09/21/farsa-historia-ditadura-militar-comunista/

[9] Ver em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/09/na-internet-fas-de-bolsonaro-esquecem-economia-e-defendem-conservadorismo.shtml

[10] Existem vários conceitos e usos do termo “bonapartismo”. Aqui, optei por utilizar o sentido que o associa à presença de certa liderança carismática. Para uma revisão dos conceitos, ver: DEMIER, Felipe. “Bonapartismo: o fenômeno e o conceito”. Revista Outubro, n. 25, Março de 2016. Sobre Star Wars, ver: REIS, Guilherme Simões; LEMOS, Carlos; BARREIRA, Renato; DIAS, Weslley. A ciência política de Star Wars. Março de 2016.

[11] Dominação carismática é aquela exercida devido a características pessoais. O conceito encontra-se na obra clássica: WEBER, Max. A Política como Vocação (disponível em várias edições).

Pela retomada do “primado da política”.

   A conjuntura nacional e internacional andam altamente instáveis e complexas. O mundo passa por um momento no qual outsiders[1] da política ganham espaço, há uma grave crise migratória, governantes são depostos, movimentos políticos extremistas vem ganhando força e etc. No entanto, o que vem gerando este cenário de mal estar geral é ponto de debate desde as pessoas reunidas numa mesa de bar até foruns de lideranças políticas e agentes do mercado.

   No meu ponto de vista, o principal motivo dos problemas atuais é a negação da política. Mais precisamente, creio que a persistência dos problemas sociais causados pela crise financeira de 2008 gerou disputas políticas radicalizadas a ponto dos grupos políticos encontrarem grandes dificuldades de chegarem a acordos. Exemplo emblemático disto é o caso espanhol onde o primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy (PP)[2] em 2016 só conseguiu formar governo após 3 tentativas.

   De uma maneira geral, o que explica a ascensão da negação do que a cientista política Sheri Berman (2006)[3] intitula como o “primado da política” é reflexo de tentativas mais extremas de solucionar problemas causados pelo mal-estar gerado pela crise do capitalismo financeiro iniciada em 2008. Na Grécia, apesar do SYRIZA ter sido eleito em 2015 com forte discurso anti-austeridade e ter tipo amplo apoio popular para não seguir as imposições do Banco Central Europeu, não logrou sucesso. Isto significa que no mínimo conciliar medidas mais redistributivas com uma agenda econômica hegemônica de austeridade não é fácil. É aí que mora a negação do “primado da política”, ou seja, o espaço para que outras agendas ganhem espaço.

   No Brasil não foi diferente. Com um cenário de crise econômica se desenhando entre 2013 e 2015 e a pressão dos mercados se intensificando, a coalizão que dava sustento à então presidenta Dilma Rousseff (PT) se rompeu e apoiou um impeachment no mínimo polêmico, mesmo com a ex-presidenta tentando num ato desesperado sinalizar para os mercados nomeando Joaquim Levy para a Fazenda. A tentativa tardia e frustrada de Dilma na nomeação de Levy e a manobra política pela deposição da ex-presidenta realizada pela maioria dos partidos no Congresso apoiada por diversos setores do capital mostra como o discurso pró-austeridade é capaz de ultrapassar qualquer tipo de barganha política. Políticas redistributivas seguem sendo possíveis de serem realizadas, no entanto, encontra um cenário mais limitado em relação à chamada Era de Ouro do Capitalismo entre 1945 com o fim da Segunda Guerra e os anos 1971-1973 com o colapso dos acordos de Bretton Woods[4], a crise do petróleo e o crash da Bolsa.

   No campo acadêmico, autores como Friedrich Hayek da escola austríaca são os grandes contribuidores para fundamentar teoricamente uma maior flexibilização do controle social sobre a economia e desse modo, sustentar o discurso pró-austeridade a qualquer custo. Apesar de sua boa contribuição no campo da ação coletiva, na minha opinião, o economista cometeu um equívoco ao deslocar o debate econômico do eixo “capital-trabalho” para o eixo “Estado-liberdade” em O Caminho da Servidão (1944) gerando uma dicotomia falsa associando um Estado mais atuante na economia à opressão individual, algo que nem os liberais clássicos como Stuart Mill e David Hume fizeram.

   Assim, a política fica sempre sob o risco de ser deslocada para atender a uma agenda específica e o espaço aonde ela ocorre – o Estado, é vira e mexe atacado. Karl Polanyi (1944)[5] nota que após a revolução industrial, a economia se sobrepôs à política. Isto foi algo jamais visto no mundo até então e gerou convulsões sociais sem precedentes. O mercado por si só como apontam pensadores de diversas visões como a tríade clássica da Sociologia Marx, Durkheim e Weber argumentam que a economia por si só é imperfeita, impera o caos, as disputas individuais seja entre empresários, seja entre trabalhadores e seja entre empresários e trabalhadores. É o reino em que, sem freios, o mais forte sempre vencerá o mais vulnerável, colocando milhares de indivíduos sob uma série de privações e provocando conflitos sociais. Logo, como diria os contratualistas Hobbes, Rousseau e Locke, é o “estado de natureza”. Nesse sentido, somente a política através do Leviatã, como diria Hobbes (1651)[6], é capaz de controlar esses conflitos da maneira mais civilizada possível. Dessa maneira, a política nos últimos tempos vem no mínimo tendo dificuldades de cumprir sua principal função que é se impor como controle social e assim garantir que os interesses distintos na sociedade sejam resolvidos da melhor forma possível.

   Que o “primado da política” se fortaleça num mundo onde o estado de natureza se encontra forte e a grande maioria segue perdendo direitos como é bem retratado no filme britânico Eu, Daniel Blake (2016) e as jornadas de trabalho são longas e prejudicam as relações familiares como vemos no filme nipônico Pais e Filhos (2015)[7].

[1] Aquele que vem de fora do jogo político tradicional.

[2] Partido Popular: partido político de centro-direita espanhol.

[3] BERMAN, Sheri. (2006) The Primacy of Politics: Social Democracy and the making of Europe 20th century.

[4] Para mais informações sobre os acordos de Bretton Woods, acessar links: Jornal O Globo: http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/conferencia-de-bretton-woods-decidiu-rumos-do-pos-guerra-criou-fmi-13310362 / Página na Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Acordos_de_Bretton_Woods.

[5] POLANYI, Karl (1944). A Grande transformação.

[6] HOBBES, Thomas (1651). Leviatã ou Matéria, Palavra e Poder de um Governo Eclesiástico e Civil.

[7] Afinal, como o blog também trata de arte, é sempre bom citar trabalhos do tipo.

 

A Jovem Jenny Marx

O último filme que eu vi em 2017 foi “O Jovem Karl Marx” [1], o qual demorou a ser veiculado no Brasil. Já estava ansiosa para vê-lo há alguns meses, uma vez que meu interesse pelas obras de Karl Marx cresceu, o que gerou curiosidade sobre detalhes de sua trajetória pessoal que eu desconhecia. Fui pelo protagonista, mas acabei gostando do filme devido a outra personagem. E não se trata de Friedrich Engels.

Jenny Marx foi uma moça de origem aristocrata que deixou o conforto de sua vida com a família em prol de um casamento que lhe trouxe muitos infortúnios. É possível dizer que a razão para tal mudança não foi apenas sentimental, uma vez que ela deixou a casa de seus pais por amor ao homem e à causa. Jenny compartilhava muitas das ideias atribuídas a Karl e, inclusive, teve um papel fundamental na sua obra, não apenas compartilhando ideias próprias com ele, como também traduzindo o que o autor escrevia – visto que a letra dele era praticamente ilegível (algo que o filme mostra bem). Ela também buscava patrocínio para as causas e obras de Karl [2]. O filme a retrata como uma mulher de personalidade forte e bastante ativa na vida política compartilhada com o marido.

A vida do casal foi repleta de infortúnios devido às várias perseguições sofrida pela família Marx e a consequente necessidade de migrar, além das dificuldades econômicas. Soma-se a isso o fato de que Karl era um péssimo marido, pois frequentemente voltava embriagado e cometia adultérios. Aparentemente, ele chegou a engravidar a trabalhadora doméstica que servia ao casal e o filho foi assumido por ninguém menos que Engels para evitar que Jenny abandonasse Karl [3] – aquela clássica solidariedade masculina machista, que, para usar as palavras de uma grande amiga, priva as mulheres do direito de escolha.

Infelizmente, Jenny – Johanna Bertha Julie von Westphalen, no nome original – foi uma dupla vítima do machismo. De um lado, ela sofreu com os abusos do marido em uma época em que às mulheres era negado o direito de resistir. Em consequência, ela também foi vítima dos tradicionais atos de machismo cometidos pelos homens, sobretudo aquele sentimento que eles possuem de acreditar que tudo podem, inclusive cometer atos de infidelidade e mentir. Principalmente o “mentir para ajudar o amigo”, um clássico que permanece nas épocas mais modernas e libertárias. De outro, ela foi vítima do machismo porque a história a relegou, como tantas outras, a um papel secundário.

Enquanto as obras de Karl são lidas com frequência e seu nome é ecoado como símbolo das lutas proletárias e da defesa dos direitos dos trabalhadores, poucas pessoas sabem quem foi Jenny von Westphalen – e faço questão de usar, neste momento, o nome de solteira. A própria Jenny chegou a escrever, para Karl, que as mulheres eram consideradas como secundárias até mesmo nos círculos socialistas [4]. Pobre Jenny! Quem nunca caiu no conto do “esquerdomacho”, não é mesmo? Com cada vez mais frequência, homens bradam que são feministas, às vezes apenas para ganhar algum tipo de reconhecimento social ou aplauso, pois o que eles bradam não corresponde às atitudes em suas vidas pessoais. Não raras vezes, escutei amigos meus que se dizem feministas debocharem de mulheres ou trata-las como meros objetos e não sujeitos. Ou então compactuarem com atitudes claramente machistas, de piadinhas machistas no WhatsApp a endossar o papel da esposa como a única responsável pelas atividades domésticas.

Não por acaso, um dos slogans principais do movimento feminista é “o pessoal é político” [5], o que salienta os impactos das ações na vida “privada”. Na realidade, as teorias feministas criticam a separação entre “público” e “privado”, porque tal divisão ilusória renegou as mulheres a uma situação de submissão na esfera privada, enquanto os homens estiveram historicamente associados ao exercício da liberdade característica da esfera pública [6]. O papel do casamento, como um contrato que prejudica as mulheres, recebe uma atenção especial. Antes mesmo de entrar em contato com a teoria política, sempre me surpreendia a quantidade de piadinhas machistas sobre casamento (“perdemos um soldado” e congêneres), como se a condição civil prejudicasse majoritariamente os homens.

Não me refiro a uma experiência particular, mas a uma diversidade de casos: o casamento prejudica fundamentalmente as mulheres. Não apenas devido a casos extremos – como a violência doméstica – mas também devido a atitudes consideradas como “pormenores”, das quais é exemplo a injusta divisão sexual do trabalho que perdura até hoje. Podem prestar atenção. Quando um homem ajuda na casa, ele ganha uma série de elogios. Não parece um tanto óbvio argumentar que as tarefas domésticas deveriam ser divididas ou ao menos compactuadas em uma relação de igualdade? A experiência mostra que os contratos práticos raramente são realizados entre partes materialmente iguais.

A questão é que prepondera uma divisão de papeis, baseada em construções sociais e fatores que vão além das diferenças meramente biológicas. E tal divisão faz com que o homem seja mais reconhecido, enquanto a mulher encara às vezes uma jornada tripla – de trabalhadora doméstica, trabalhadora não-doméstica e cuidadora – sem o mesmo nível de reconhecimento.

A história de Jenny Marx é mais um exemplo. Por isso, a partir de agora, quando eu me intitular marxista, será em referência à Jenny e não ao Karl.

Mulheres do mundo, uni-vos!

[1] Direção: Raoul Peck. Para ficha completa do filme, ver: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-235590/

[2] The Jacobin. “The Life of Jenny Marx”. Em: https://www.jacobinmag.com/2016/02/jenny-karl-marx-mary-gabriel-love-and-capital e também http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2013/03/16/amor-e-capital-reconstitui-a-vida-atribulada-de-karl-marx/

[3] Ibidem

[4] Ibidem

[5] http://www.carolhanisch.org/CHwritings/PIP.html

[6] PATEMAN, Carole. O Contrato Sexual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

Sense8: dominação cultural e a luta por reconhecimento

[Alerta! Contém spoilers] Há alguns meses, a Netflix anunciou o cancelamento de uma de suas séries originais mais populares: Sense8. Alegadamente, o custo de produzir a série – gravada em diferentes países – estaria muito alto em comparação à audiência, apesar do sucesso, notadamente entre os espectadores brasileiros. O clamor dos fãs foi tão grande em relação ao cancelamento que a Netflix concedeu fazer um episódio final de cerca de 2 horas, o qual está previsto para ser lançado em 2018. Tudo indica que as gravações de tal episódio já se encerraram, mas ainda não há previsão de data oficial para seu lançamento na plataforma.

A história da primeira temporada de Sense8 [1] começa de uma maneira um tanto lenta, mas o ritmo vai se tornando cada vez mais rápido ao passo que os espectadores adentram ainda mais as histórias e os dilemas dos protagonistas: Nomi, Lito, Will, Riley, Kala, Wolfgang, Capheus e Sun. Por outro lado, a medida em que as tramas pessoais de cada um se desenvolvem, a série também ganha contornos mais nitidamente políticos. Cada um deles vive em uma cidade diferente e possui um contexto bastante diverso. Nomi Marks é uma hacker ativista transexual que namora uma moça chamada Amanita, a qual tem uma mãe e três pais. Lito é um ator mexicano que teve que esconder seu relacionamento amoroso com o namorado Hernando para não prejudicar sua carreira. Will é um policial de Chicago que seguiu os passos do pai, mas pensa de forma bem diferente que ele sobre a própria profissão. Riley é uma DJ com um histórico de relacionamentos abusivos e consumo de drogas. Kala é uma indiana que trabalha em uma empresa de farmácia. Wolfgang é um membro controverso do crime organizado de Berlim. E Sun é uma executiva coreana e uma lutadora escondida.

O que une pessoas tão diferentes? Bem, o cerne do roteiro está em uma espécie de poder especial que os personagens possuem. Embora sejam pessoas “comuns” (se é que hacker, lutadora e gangster podem ser considerados como atividades comuns…), os oito protagonistas compartilham uma espécie de conexão mental, a qual permite que eles se comuniquem entre si a qualquer momento e até usem as habilidades pertencentes aos outros – como se um pudesse “encarnar” temporariamente no outro [2].

Se a história pessoal de cada personagem e o poder que eles compartilham já bastam para sustentar a série, esses estão longe de ser os únicos elementos interessantes do roteiro. A série trata de problemas fundamentais da política, particularmente da teoria política. Há, primeiramente, as questões mais óbvias relacionadas diretamente à política: a condição de periferia global do Quênia, os dilemas entre religião e política na Índia e outras disputas políticas envolvendo diversas regiões, inclusive mediante uma perspectiva internacional. Tudo isso é aprofundado na segunda temporada. Um dos personagens, Capheus, até decide se candidatar a um cargo político por um partido e acaba entrando em contato mais diretamente com o lado perverso da atividade política em seu país. A série mostra problemas como a relação entre autoridades políticas e a máfia, as políticas de crescimento de preços, a falta de recursos e serviços básicos para a população, o elevado nível de desigualdade social, o tráfico de drogas e o problema dos remédios falsificados no continente africano.

Mas, além dessas questões, um plano de fundo profundamente político e cultural permeia toda a trama da série: o multiculturalismo e a política de identidade. Sense8 retrata diversos personagens que possuem padrões culturais distintos daqueles considerados como dominantes: Nomi é transexual (inclusive, a atriz! – mais um ponto para a Netflix!), Lito é homossexual em uma sociedade bastante conservadora e heteronormativa, enquanto Sun e Kala são mulheres em países com estruturas extremamente patriarcais… E cada um sofre algum tipo de preconceito ou perseguição devido a tal elemento constitutivo da própria identidade. Nomi sofre rejeição da própria família, enquanto Sun é negligenciada na empresa em que trabalha (que pertence ao seu pai) e Lito quase perde a carreira ao descobrirem que ele é homossexual. Basicamente, os personagens, antes de lutarem contra os vilões da série, lutam por reconhecimento.

Nancy Fraser, na clássica obra “Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça numa era pós-socialista” [3], aborda o surgimento das demandas tidas como culturais, ou seja, demandas que extrapolavam o interesse de classe como motivo único de mobilização política. Fazem parte desse tipo de demanda as lutas de grupos mobilizados por causas relacionadas à etnia, ao gênero e à sexualidade, entre outros fatores. Seriam demandas voltadas ao reconhecimento das diferenças em vez do foco na redistribuição como remédio para a injustiça. Entretanto, Fraser (2003) [4] se opõe a essa dicotomia. Segundo a autora, ambas são dimensões da injustiça: uma voltada à esfera socioeconômica (ligada à busca pelo igualitarismo) e outra à esfera social ou simbólica (padrões de representação, interpretação e comunicação). E apesar de suas diferenças, ambas deveriam ser remediadas. No plano simbólico, a injustiça se manifesta na presunção de superioridade de um padrão cultural em detrimento de outros. A série ilustra isso bem na rejeição de Nomi pela sua família e na perseguição que Lito sofre em relação à sua carreira quando descobrem que ele é homossexual. Em ambos os casos, trata-se da dominação do padrão heteronormativo, condenando pessoas tidas como “diferentes” à marginalidade em suas relações sociais.

Política e cultura são duas dimensões intrinsicamente ligadas. Ao passo que a cultura afeta o comportamento político, a política também tem impacto na cultura. E ambas estão ligadas a outras dimensões da totalidade social, como a economia. Não por acaso, a série retrata largamente os impactos da desigualdade de renda ao mostrar a realidade de Nairóbi. E como essa desigualdade afeta o comportamento dos personagens. A intersecção entre economia, política e cultura faz parte de uma das discussões fundamentais presentes nas teorias multiculturalistas. O surgimento de novas demandas – tidas como “culturais” – gerou debate na teoria política. Por um lado, essas demandas destacavam que a classe social não era o único elemento constitutivo da identidade do indivíduo ou tampouco uma fonte exclusiva de mobilização. Por outro lado, a existência dessas demandas não significa que classe não seja importante. Tratava-se de um dilema, pois indagava-se como conciliar o combate à desigualdade com a valorização das diferenças. Como explica Anne Phillips (2009) [5]:

Para alguns, esse permanece um ponto estratégico: não podemos esperar alcançar a igualdade ignorando as diferenças, pois todos os intentos de não levar em conta as diferenças – não observando se alguém é homem ou mulher, se ela é branca ou negra – acabarão por reforçar a dominância dos grupos já dominantes. Para outros, tal aspecto tem uma dimensão mais digna de celebração: a diversidade deveria ser vista como uma característica positiva e ativamente acolhida em nossas iniciativas políticas.

Tanto Fraser quanto Iris Marion Young tentam lidar com essa questão. Como esclarece Phillips [6], ambas as autoras focam na combinação entre os tipos injustiças: econômicas e culturais. A tendência atual, na teoria politica, aliás, é abarcar a interseccionalidade entre os diversos tipos de desigualdade. Em outras palavras, trata-se da compreensão de que variáveis como “raça”, “gênero” e “classe” operam conjuntamente na delimitação da posição do indivíduo no espaço social [7].

Além dos aspectos materiais, étnicos, culturais, sexuais e de gênero, vale ressaltar que outra diferença primordial marca a vida dos protagonistas de Sense8, pois eles constituem uma espécie diferente de ser humano: os Homo Sensorium. O medo aos sensorium é uma estratégia comumente utilizada pelos antagonistas para ganhar poder. É o caso do “Suspiros” (Whispers), integrante da Biologic Preservation Organization (BPO). A BPO tinha sido criada originalmente para preservar os sensorium, mas acabou se tornando uma organização que os persegue e promove a tortura em prol de benefícios próprios. A política da organização mudou, segundo um de seus membros, depois dos ataques de 11 de setembro, quando os sensorium passaram a ser vistos como potenciais ameaças à segurança nacional, devido aos riscos de serem usados por terroristas. Ou, ao menos, esse foi o motivo alegado. Na realidade, a BPO também possui disputas internas, principalmente entre duas facções: uma que quer manter o objetivo original da organização e outra que difunde as práticas de perseguição aos sensorium. A própria história da BPO ressalta outro elemento discutido em obras clássicas da ciência política: a dimensão inevitavelmente oligárquica de estruturas organizacionais, tal como Robert Michels [8] aborda. Claramente, a BPO se distanciou de seu objetivo original e ficou sujeita ao acúmulo de poder das facções dominantes.

O elitismo é uma vertente teórica aplicável a muitas situações exploradas na série. Há diferentes tipos de elites econômicas e culturais que exercem dominação sobre grupos desprivilegiados. Há a elite da BPO, há algumas autoridades do governo – como o político que protege o irmão da Sun – e há até mesmo a elite da máfia do crime. Afinal, a palavra “elite” é usada para designar um grupo de indivíduos que estariam em posição superior em um ranking social, seja devido às suas qualificações (Gaetano Mosca) [9] ou a motivos alegadamente biológicos [10]. As formulações elitistas clássicas argumentavam sobre a inevitabilidade do poder ser controlado por poucos, mas as vertentes mais críticas apontavam a desigualdade como algo negativo e não necessariamente inevitável. A própria agressividade da BPO contra os sensorium pode ser vista como um mecanismo de defesa, provavelmente devido ao medo de superação por outra elite e de perda de poder.

A dominação cultural é um componente relevante do poder político. E isso é fácil de ilustrar: a segregação histórica de mulheres à esfera doméstica serviu para alijá-las da atividade política [11]. O Brasil é uma ilustração disso: em uma população de maioria numérica feminina, o parlamento é composto por pouquíssimas mulheres. Não por acaso, poucas políticas trazem. Daí a importância de representantes que compartilhem a mesma perspectiva social, nas palavras de Iris Marion Young [12]. O conceito de perspectiva social, de Young, refere-se ao compartilhamento de situações e experiências em razão da posição em determinado grupo social. Isso não significa que o grupo seja homogêneo ou compartilhe as mesmas ideias (por isso, Young usa a expressão “perspectiva social”). Mesmo entre os sensorium, há divergências de opiniões e ideologias: há muitos que preferem não enfrentar a BPO por medo ou comodismo, enquanto o grupo dos protagonistas decide por lutar contra a organização. De fato, as diferenças e desigualdades internas dos grupos culturais fazem parte de dilemas enfrentados pelo multiculturalismo [13].

O conceito de perspectiva social auxilia a lidar com essas diferenças justamente porque não pressupõe que os integrantes de um mesmo grupo são iguais em todas os seus posicionamentos, ideias e opiniões. Por outro lado, tais membros compartilham experiências e situações comuns, principalmente derivadas das relações de poder com outros grupos. É o caso dos sensorium: eles são diferentes, mas enfrentam as mesmas situações de perseguição e constrangimento propiciadas pela BPO. O fato de os personagens compartilharem emoções e situações mentalmente acentua ainda mais esse compartilhamento de perspectiva. Por outro lado, ao passo que a BPO usa a “diferença” para promover uma política de terror, os protagonistas lutam para que suas diferenças sejam reconhecidas. E a diferença é justamente o que torna um sensate forte: é o poder de se apropriar de uma habilidade que ele/ela não tem que o fortalece (e isso aparece várias vezes na série quando alguém precisa de outra pessoa de seu próprio grupo).

Sobretudo, Sense8 nos oferece um grande ensinamento sobre empatia. E empatia é um elemento essencial na construção de uma política justa e igualitária.

Felizmente, a Netflix foi empática o suficiente para nos conceder um episódio final dessa série…

[1] Sense8. Roteiro/Produção: J. Michael Straczynski; Lana Wachowski; Lilly Wachowski. Primeira temporada disponibilizada em 2015.

[2] http://www.imdb.com/title/tt2431438/plotsummary

[3] FRASER, Nancy. Da Redistribuição ao Reconhecimento? Dilemas da Justiça na era Pós-Socialista. In: SOUZA, Jessé (org.) Democracia Hoje: Novos desafios para a teoria democrática contemporânea. Brasília: Editora UnB, 2001, p.245-282.

[4] Ibidem

[5] PHILLIPS, Anne. “Da desigualdade à diferença: um caso grave de deslocamento?”. Revista Brasileira de Ciência Política, nº 2. Brasília, julho-dezembro de 2009, pp. 223-240. Disponível em: http://periodicos.unb.br/index.php/rbcp/article/view/6582

[6] Ibidem

[7] MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. “Gênero, raça, classe: opressões cruzadas reprodução das e convergências na desigualdades”. Em: Mediações, vol. 20, n. 2, 2015. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/24124/G%C3%AAnero%2C%20ra%C3%A7a%2C%20classe%3A%20opress%C3%B5es%20cruzadas%20e%20cconverg%C3%AAncias%20na%20reprodu%C3%A7%C3%A3o%20das%20desigualdades

[8] MICHELS, Robert. MICHELS, Robert. Sociologia dos partidos políticos, Sexta Parte (“As tendências oligárquicas da organização”).

[9] MOSCA, Gaetano. “A Classe Dirigente”, em SOUZA, Amaury de (org.). Sociologia política. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.

[10] PARETO, Vilfredo. Vilfredo Pareto: sociologia. São Paulo: Ática, 1984. Coleção Grandes Cientistas Sociais.

[11] Ver: PATEMAN, Carole. O Contrato Sexual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

[12] YOUNG, Iris Marion. Representação política, identidade e minorias”. Lua Nova, São Paulo, 37, 2006, pp. 139-190. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ln/n67/a06n67.pdf/

[13] Destaca-se aqui a realidade de mulheres que fazem parte de comunidades religiosas de estrutura sexista. Trata-se de um dilema entre respeito à cultura e direitos das mulheres. Existem vários textos sobre esse debate. Ver, por exemplo: YOUNG, Iris Marion. “Representação política, identidade e minorias”. Lua Nova, São Paulo, 37, 2006, pp. 139-190. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ln/n67/a06n67.pdf/

O que significa “poder” no jogo dos tronos?

Inspirado na série de livros “A Song of Ice and Fire”, o seriado “Game of Thrones” chegou recentemente à sua sétima temporada. Não é surpreendente que a primeira publicação deste blog, em 2013, tenha sido justamente sobre esse popular programa de TV. Além de seu inegável sucesso [1], a utilização do seriado para explicar conceitos das Ciências Sociais justifica-se por sua dimensão política. Assim como os livros que o inspiraram, o seriado traz um conjunto diverso de temas frequentes no estudo da Ciência Política, tais como discussões relacionadas à estratégia, à disputa pelo poder, aos dilemas morais [2] e à relação entre religião e Estado. Os temas são infinitos e analisar todos eles resultaria em uma série de livros tão grande quanto a que originou o seriado. Como me falta disponibilidade, vou me deter em um aspecto específico: o conceito de poder [3].

Não é novidade que a Ciência Política, como disciplina, esteja associada ao estudo dos fenômenos relacionados ao exercício do poder. Trata-se de uma definição ampla em contraposição à “Ciência do Estado” [4]. O “poder” abrange um conjunto diverso de relações, mas o que a Ciência Política estuda é um poder específico, i.e. o poder político [5]. Mas o que seria esse tal “poder político”? Tradicionalmente, o poder político se diferencia dos demais tipos de poder devido a duas características: o espaço e a alocação autoritária. O espaço refere-se a uma determinada coletividade (a sociedade em um território delimitado, no caso do Estado), enquanto a alocação autoritária consiste na existência de um processo de tomada de decisões e realização de ações em nome da sociedade. A obrigatoriedade das decisões advém da obediência consentida – que remete ao conceito de “legitimidade”* – e da coerção [6]. Claramente, essa perspectiva baseia-se na concepção de Max Weber, o qual associa o Estado ao monopólio legítimo da força e o próprio conceito de política ao Estado [7].

Assim, a visão tradicional, na Ciência Política, sobre o poder relacionava o termo a outras expressões como “força” e “violência”. Hannah Arendt, por outro lado, ressalta a necessidade de diferenciar esses termos. Segundo a autora, embora se combinem na maioria dos casos, “poder” e “violência” são conceitos opostos. Quando há 100% de violência, não existe poder, uma vez que o poder é a “habilidade de agir em concerto”. O poder pertence, portanto, ao grupo, enquanto o vigor – geralmente confundido com a força – é um atributo individual [8]. O poder é um fim em si mesmo, ao passo que a violência é um instrumento. O poder está relacionado ao apoio da maioria. A violência, por outro lado, é uma ferramenta da minoria para tentar destruir o poder (ela pode destruí-lo, inclusive, mas não pode cria-lo). [9]

A sétima temporada de “Game of Thrones” traz novamente conhecidos personagens disputando pelo trono de Westeros, que controla os reinos. A disputa principal, porém concentra-se agora no conflito entre duas mulheres: Cersei e Daenerys. Cersei Lannister encontra-se no trono, mas será que ela tem poder segundo o conceito de Arendt? Cersei usa e abusa da violência, como os fãs da série estão cansados de saber. Mas, por outro lado, a população de Westeros não parece se opor veementemente aos desmandos da Lannister. Inclusive, nos últimos episódios, a população aplaude Euron das Ilhas de Ferro, quando ele chega com suas cativas. Hannah Arendt associa o silêncio da maioria como uma espécie de apoio, ainda que velado. Na vida real, mesmo os regimes autoritários e totalitários tiveram uma base de apoio da população (é só lembrar que importante camada da classe média brasileira apoio o golpe militar de 64). O argumento da autora é que nenhuma estrutura de poder se sustenta apenas com o uso da violência.

Daenerys Targaryen tem um grande poderio militar à sua disposição: como se três dragões não bastassem, ela dispõe de dois tipos de exércitos. Entretanto, seus conselheiros vêm sugerindo que ela economize a violência. O que Varys e Tyrion tentam ensinar à Daenerys nesta temporada se relaciona justamente ao entendimento de Hannah Arendt acerca do conceito de “poder”. Nesse sentido, eles acreditam que o poder requer o apoio do povo e não se constrói meramente com base em inocentes e casas queimadas. Varys, aliás, já havia deixado isso claro a Tyrion em temporadas passadas, ao contar uma breve anedota. Resumidamente, Varys questiona quem detém o poder em uma sala com um rei, um sacerdote e um rico. Tyrion responde que detém o poder aquele que possui a espada. Mas ele estava enganado. A resposta ao enigma é simples: o poder reside onde as pessoas acreditam que reside.

Nota-se que Tyrion atribui o poder a uma qualidade individual: a espada ou a coroa (que denota, em verdade, na capacidade de mobilizar a espada). Mas Varys esclarece que o poder não é individual, e sim, é um atributo do grupo, uma demonstração do apoio do povo. Resta saber quem o povo irá apoiar para o trono de ferro, se é que vai apoiar alguém (ou se ainda vai existir alguém vivo para fazê-lo). Mas essa é uma resposta que só a próxima temporada vai nos dar.

 

Fontes:

[1] O sucesso é tamanho que “Game of Thrones” foi uma das séries mais pirateadas em 2016: http://time.com/4618954/game-of-thrones-pirated-2016/

[2] Recentemente, The Economist publicou um artigo sobre isso: https://www.economist.com/blogs/prospero/2017/07/how-westeros-won

[3] Em posts anteriores, abordei questões relacionadas à estratégia e ao pensamento de Maquiavel: https://politiculturarte.wordpress.com/2013/01/ e https://politiculturarte.wordpress.com/2013/04/

[4] SCHMITTER, Philippe C. Reflexões sobre o Conceito de Política. In: Cadernos da UnB. pp. 43-51

[5] DIEU, François. Introduction à la Méthode de la Science Politique. Paris: L’Harmattan, 2008

* O conceito de legitimidade está relacionado à aceitação.

[6] DIEU, François. Introduction à la Méthode de la Science Politique. Paris: L’Harmattan, 2008.

[7] WEBER, Max. “Política como vocação”, em: Ciência e política: duas vocações, várias edições. Disponível em: http://docs.wixstatic.com/ugd/956028_d9bb61406fec4b53b3a3a86547d0533a.pdf

[8] ARENDT, Hannah. Da violência, Brasília: Editora da UnB, 1985, Capítulo 2, pp. 19 a 31

[9] Ibidem