Contraponto: motivos para assistir a “13 Reasons Why”

ATENÇÃO! DOIS ALERTAS ANTES DA LEITURA DO TEXTO:

– Antes de mais nada, gostaria de esclarecer que não sou psicóloga ou especialista em problemas de depressão. Então, não sou a pessoa mais indicada para recomendar ou não a série para quem sofre desse tipo de problema. Na dúvida, busque a opinião de um especialista.

Contém spoilers.

 

Recentemente, um seriado produzido e lançado pela plataforma digital Netflix tem sido alvo de inúmeros comentários nas redes sociais. Nada de extraordinário até aqui, visto que várias séries disponibilizadas na plataforma adquiriram sucesso a ponto de se tornar um “trending topic” (tópico em alta), como, por exemplo, Narcos e House of Cards. Exceto pelo motivo que levou à série em questão a ser debatida tão ferozmente em blogs e na timeline do facebook: a série trata sobre bullying e suicídio.

Inspirada no livro homônimo, “13 Reasons Why” conta a história de Hannah Baker, estudante do Ensino Médio que resolve se suicidar após uma série de eventos relacionados à sua vida social na escola. Hannah deixa 7 fitas gravadas contando os motivos que a levaram a se matar. Macabro o suficiente? Cada lado das fitas (são 13 lados gravados, 1 deixado em branco) fala sobre um colega de escola, um dos 13 motivos do suicídio. Assim, cada colega é um “porquê” de Hannah ter resolvido tirar a própria vida (por isso o nome da série, em português, “Os 13 porquês”). Os colegas são instruídos a ouvir todas as fitas, pois, caso não o façam, um colega (Tony) divulgará o material ao público em geral.

Logo após o lançamento, surgiram vários posts e resenhas sobre a série alertando de possíveis perigos ao assista-la, em especial para pessoas com tendências suicidas ou problemas relacionados à depressão. Alguns especialistas se manifestaram em relação à série, afirmando que ela seria prejudicial. Alguns críticos amadores de arte chegaram que as pessoas não assistam de jeito nenhum.

Entretanto, tendo terminado a 1a temporada ontem, discordei veemente de tudo que li até o momento. Na ausência de um contrapondo, resolvi elencar os motivos que me fizeram gostar da série e discordar das críticas negativas. Estes são os meus 13 motivos:

 

1 – A série não romantiza o suicídio

Uma das maiores críticas feitas à série refere-se a uma suposta romantização do suicídio. O último episódio mostra claramente Hannah Baker se matando por meio de uma lâmina que ela pegou da loja dos pais. Ela usa as lâminas para cortar os pulsos enquanto se encontra vestida dentro de uma banheira. Embora gráfica, a cena é crua. Não há uma grande trilha sonora e a cena mostra claramente Hannah sentido dor (não apenas psicológica, mas também física). Logo em seguida seus pais entram no banheiro, pois percebem a água escorrendo, e encontram a filha morta. O sofrimento deles é tocante. Definitivamente é uma cena forte, porque é muito real, mas está longe de ser romântica. Para mim, romantização do suicídio é quando Romeu e Julieta se matam e “ficam juntos para sempre”. Hannah morreu sozinha, encharcada em uma banheira. E fez com que seus pais sofressem muito. Se isso é romantizar o suicídio, eu fico realmente assustada com a definição de “romance” das pessoas. No decorrer dos episódios, a série enfatiza bastante como aquilo trouxe sofrimento aos pais e como deveria ter sido evitado, o que nos leva ao segundo ponto. A série, aliás, teve auxílio de especialistas da área de saúde, como contam os produtores no episódio bônus. Um das produtoras é a Selena Gomez, que passou pessoalmente por problemas relacionados à depressão.

 

2 – O suicídio não é visto como solução

Algumas pessoas afirmaram que a série retrata o suicídio como solução. Sinceramente, não sei de onde as pessoas tiraram isso. A série mostra o quanto o suicídio de Hannah foi negativo para os pais, em termos psicológicos e financeiros (já que eles resolvem processar a escola por não ter feito nada em relação ao bullying). O ato também afeta negativamente a vida de colegas próximos, em especial Clay, que é mencionado nas fitas apenas porque Hannah queria contar sua história (já que ele não fez nada que a agredisse). O suicídio sequer foi uma solução para a própria Hannah, uma vez que ela não ganhou nada com ele. Ela não ganha reconhecimento nem comiseração das pessoas; alguns colegas chegam a afirmar que ela se matou “para chamar a atenção” ou “porque foi fraca”. O suicídio foi uma atitude desesperada (embora planejada), como realmente é em muitos casos. Há quem afirme que o último episódio consiste praticamente em um “wikihow” de como se matar. Sério mesmo, em um mundo de Google e Deep Web, vocês acham realmente que as pessoas precisam de uma série da Netflix para aprender a se matar?

 

3 – A série retrata diversas situações cotidianas em escolas

Muitos dos problemas enfrentados por Hannah fazem parte da vida cotidiana das escolas. Quem nunca ganhou um apelido indesejado ou teve seu nome incluído em uma lista de pior/melhor? Justamente aí reside o perigo do bullying: tais ações são tão banalizadas – vistas como “normais”- que as pessoas desconsideram os efeitos negativos que elas têm nos “alvos”. Já vi pessoas falando em “bullying corretivo” como se tal tipo de perseguição fosse positivo para “construir o caráter”. Destaco aqui que a série aborda problemas específicos do contexto dos Estados Unidos: a supervalorização dos atletas e as consequências disso na cadeia alimentar da popularidade na escola. De qualquer forma, grande parte dos assuntos podem ser transpostos ao contexto do Brasil ou qualquer outro país. É o eterno concurso de popularidade e a submissão dos jovens a padrões de beleza e comportamento. E os efeitos na vida de quem não se encaixa nesses padrões, pois quaisquer razões. A série aborda, inclusive, as dificuldades que a escola enfrenta em relação a esse tipo de questão, no que tange ao tratamento inadequado fornecido pela instituição. Nota-se que a escola não sabe lidar com a maioria das situações.

 

4 – Os episódios discutem muitos problemas que garotas enfrentam

No que tange ao bullying, a série foca particularmente em problemas enfrentados por garotas: assédio sexual, “slut-shaming”, desvalorização, padrões de beleza, entre outros. Quando duas garotas da escola sofrem de abuso sexual, a série toca em pontos fundamentais no debate presente no feminismo: as dificuldades das vítimas em denunciar o que ocorreu e a culpa que a sociedade impõe na vítima. Em um dos casos de estupro retratado na série, a personagem estava bêbada e, portanto, vulnerável. No outro caso, a personagem estava tão paralisada que não conseguiu gritar, o que muitas vezes acontece em situações reais nas quais as autoridades judiciais ainda descreditam as vítimas por “não terem reagido”. A série ainda aborda os efeitos psicológicos do estupro, descrito, na série e na vida real, como o “rompimento da alma”. No último episódio, a personagem Jéssica Davis fala, em seu depoimento, como a própria escola reforça a desigualdade entre homens e mulheres: os homens são atletas, competidores que trazem orgulho à escola e à comunidade em geral, enquanto o papel das mulheres se resume a torcer por eles. Por que o esporte feminino não é tão incentivado quanto o masculino? Por que tantos padrões de beleza? No episódio bônus, os produtores da série destacam o dilema que garotas enfrentam ao tentar se enquadrar nesses padrões e evitar uma atitude que as classifiquem como “piranhas”.

 

5 – O roteiro adaptado aborda diferentes tipos de desigualdade

Além de assuntos relacionados à desigualdade de gênero, a série expõe outras situações de vulnerabilidade. As diferenças de tratamento entre pobres e ricos são retratadas nos contextos dos personagens Tony, Justin e Bryce. Tony é latino e vive em um subúrbio, Justin tem poucos recursos e depende de seu amigo Bryce, que é um ricaço mimado (e responsável pelos dois estupros que ocorrem). Além disso, há vários personagens tentando lidar com a própria sexualidade. Adotada por um casal homoafetivo, Courtney esconde que é lésbica por medo de como a sociedade julgaria seus pais (diriam que ela é lésbica por causa de seus pais). Ryan e Tony, que já foram namorados, muitas vezes adotam posturas isolacionistas em comparação com o restante dos colegas. E o próprio Clay foi um pouco afastado dos demais por certo tempo devido a rumores que diziam que ele era gay. O elenco conta com maior diversidade étnica – embora os protagonistas ainda sejam brancos e em conformidade com o mainstream – em comparação com outras séries adolescentes.

 

6 – A série mostra que isso pode acontecer com qualquer pessoa

Na minha opinião, um dos pontos altos da série é mostrar que ninguém está imune à depressão. Hannah era uma pessoa considerada como normal: ela tinha alguns amigos (embora poucos), ela se divertia e gostava de sair. Ela não demostrava ser uma pessoa depressiva, o que nos leva diretamente ao próximo ponto.

 

7 – A série alerta sobre os sinais da depressão

A série mostra as dificuldades em notar os sinais da depressão e, consequentemente fazer algo a respeito. No último episódio, outro personagem – Alex – é levado a tomar o mesmo tipo de atitude. Durante os episódios anteriores, todos estão tão concentrados na história da Hannah – inclusive os expectadores, diga-se de passagem – que ninguém percebe que Alex demonstra que tomará o mesmo caminho. Ele acelera o carro em excesso, joga-se em uma piscina e deixa de se importar com o que acontece ao redor. Nos últimos momentos antes de se dar um tiro na cabeça, nós vemos Alex arrumando seu armário, “colocando as coisas em ordem” exatamente como Hannah fez minutos antes de se matar. Trata-se de um alerta para prestarmos mais atenção aos sinais. A série mostra, a todo momento, que o suicídio de Hannah poderia ter sido evitado. Mas ele não foi.

 

8 – O “bullying” não é visto mediante um prisma maniqueísta

Ao passo que a série denuncia as práticas de bullying, mesmo aquelas que não são vistas como tal, ela também mostra que o mundo não é dividido entre “bem” e “mal”. Muitos dos personagens que magoam Hannah às vezes enfrentam situações piores em suas próprias casas. Em nenhum momento, isso é usado como justificativa, mas a série mostra que a realidade é muito mais complexa que a mera divisão da sociedade entre bullies e vítimas. Embora o foco esteja na perspectiva da Hannah, alguns episódios mostram que sua história não é uma verdade universal, que certos eventos não aconteceram exatamente como a narradora descreve (caso do Zach, por exemplo, que não jogou fora o bilhete da Hannah como ela disse na fita). A série mostra que há diferentes perspectivas e que muitas vezes falhas na comunicação contribuem para que não consigamos entender o lado do outro.

 

9 – O enredo é envolvente

É uma série de suspense e a curiosidade sobre as razões que levaram a protagonista a tomar uma atitude tão drástica contribui para a fome de episódios (recorde pessoal meu: assisti à primeira temporada em 4 dias). O 11o episódio explica como a sucessão de fatos se enquadra no desfecho.

 

10 – A série trata da relação entre adolescentes e adultos

Outro tema que fica evidente é a dificuldade de relacionamento entre adolescentes e adultos. A maioria dos adolescentes da série, inclusive a Hannah, possui dificuldades em se abrir para os pais ou responsáveis. Parte disso é resultado da falta de empatia (justificada) dos adultos, os quais são, muitas vezes, incapazes de se colocar no lugar dos adolescentes. Exemplo disso pode ser visto no diálogo entre Hannah e seus pais sobre um baile que ocorrerá na escola. Por mais que sejam pais carinhosos e esforçados, eles não conseguem entender a importância de ir ao baile em um carro legal. Aquilo era importante para a Hannah por ser um meio de conquistar amizades, algo crucial na vida do colégio. Realmente, pode ser difícil compreender porque coisas que parecem tão diminutas são tão relevantes na vida dos jovens. Mas, pensando por outro lado, é razoável que, na ausência de contas para pagar, a vida social na escola ocupe um espaço muito relevante nas preocupações deles.

 

11 – As fitas são uma forma de expressão, não de vingança

Vi muitas pessoas criticando a vingança da Hannah por meio das fitas. Creio que isso se trata de uma questão pura de interpretação. Não vi as fitas como uma forma de vingança. Que tipo de vingança uma pessoa morta pode ter? Se fosse um ato vingativo, ela teria divulgado publicamente as fitas e denunciado cada uma. Mas essa não era a intenção, tanto que as cópias foram disponibilizadas apenas para os 13 motivos, além do Tony, que agiu como guardião. Desde o começo da série, notamos que Hannah tem dificuldades de expressão: ela não consegue se abrir para os pais ou falar dos problemas que tem sofrido com seu amigo Clay (lembrem-se que ela até chega a expulsá-lo do quarto logo após do beijo que deram, ela não consegue sequer explicar suas razões a ele, nem em momentos posteriores). Ela se engaja temporariamente em um clube de poesia, justamente porque tem dificuldades em se expressar, em demonstrar sentimentos. As fitas não são uma vingança, mas uma forma de expressão. Foi o meio que ela encontrou de contar sua história, do seu ponto de vista, como nunca foi capaz quando estava viva. A série frisa essa questão ao tratar as fitas como substitutas à nota que suicidas geralmente deixam aos familiares próximos.

 

12 – A grande lição da história é sobre empatia

No fim, a grande lição é sobre empatia: colocar-se no lugar do outro, entender que às vezes atitudes que parecem banais para você podem ser relevantes para o colega por inúmeras razões que desconhecemos. E, no fundo, é sobre respeito às particularidades. Trata também de responsabilidade em relação aos próprios atos, tópico recorrente nas atitudes dos personagens que estão sempre tentando se livrar das consequências de suas ações.

 

13 – Eu, pessoalmente, identifiquei-me com a protagonista

Apesar de não ser uma obra-prima, a série me tocou especialmente devido a experiências pessoas. Tirando os excessos (felizmente não passei por abusos no nível da série), eu já presenciei muitas situações semelhantes à da Hannah:

  • Já fui a garota nova sem amigos. Quando mudei para Brasília, tive dificuldades em fazer amigos. Todos na escola se conheciam desde o maternal e eram muito fechados. Faziam zombarias em relação ao meu sotaque nordestino a um ponto que eu ensaiei exaustivamente o sotaque brasiliense em casa. Tinha um menino que sempre me batia. Uma vez ele bateu o carrinho da mochila tantas vezes no meu pé que sangrou. E quando eu reclamava com a escola, a instituição não fazia nada. Passei um período com uns quilos a mais e isso foi razão suficiente para o menino que eu gostava dizer que viraria uma panquequinha se eu caísse em cima dele. Também já tive apelidos, tipo “pulga gorda”. Felizmente ou não, eu me “ajustei” aos padrões no ensino fundamental e deixei de ser um alvo tão evidente (mas ainda me sentia sozinha às vezes).
  • No colégio, os meninos faziam listas de meninas mais bonitas. Já vi uma colega dizer que organizaria uma torcida (tínhamos olimpíadas e cheerleaders) exclusivamente com as meninas “mais magras e bonitas” da nossa série.
  • Ainda no colégio, os meninos apelidavam algumas meninas de “putas”, porque teoricamente elas eram “fáceis demais”(?!).
  • Na faculdade, os meninos ainda chamavam as meninas de “putas”, quando, na realidade, elas tinham o mesmo comportamento dos meninos.

Entre muitas outras situações…

Assim como a Hannah, eu também tinha dificuldades em me expressar. Não por acaso, eu tive milhões de blogs, escrevi trilhões de poemas e prosas e gostava de desenhar.

 

Mas eu tive sorte. Por ter uma família acolhedora e alguns amigos verdadeiros que eu conseguiria contar nos dedos. E por ter a Arte ao meu lado: literatura, desenho, música. Sempre soube que podia contar com essas três coisas.

 

Infelizmente, tem gente que não tem a mesma sorte.

Enfim, o que tudo isso tem com a política? Tudo.

 

Para além das questões sobre feminismo, desigualdade e autoridade, grande parte dos eventos políticos derivam de relações sociais. E essas relações começam em casa e na escola, microcosmos da política.

 

Então, pare e pense um pouco.

Pense um pouco antes de maltratar o coleguinha. Pense na política que queremos e na mudança que precisamos. E comece.

La bourgeoisie guidant le peuple

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La Liberté Guidant le Peuple (1830) – Eugène Delacroix

Eugéne Delacroix a été un peintre français qui est consideré comme le chef de file du romantisme. Le romantisme est un mouvement culturel qui a apparu au XVIIIe siècle et s’est diffusé dans toute l’Europe au XIXe siècle. Les idées principales du romantisme sont la victoire de l’émotion contre la raison et l’expression des sentiments. Étant un mouvement qui s’oppose au classicisme, le romantisme s’oppose à la rationalité et exalte le Moyen Âge. Ce mouvement s’est exprimé dans la literature, la peinture et la musique, dans lesquelles il explore le morbide, la melancolie et la passion.

« La Liberté Guidant le Peuple » est un tableu très connu de Delacroix. Il fait le portrait d’une femme avec la poitrine un peu nue et d’autres personages sur le plan principal, comme des enfants de rue et des hommes avec des armes. La femme, qui répresente la liberté, tient le drapeau français. La scène se passe à Paris, parce qu’on peut percevoir les tours de la fameuse Cathédrale de Notre Dame. Le tableau montre une barricade en symbolisant les démarches révolutionnaires de 1830, où le peuple français s’est revolté contre le roi Charles X. On appelle ces frondes sociales « les trois glorieuses » ou « les journées de 1830 ».

À l’époque, Charles X avait publié cinq ordonnances qui constituaient des mesures impopulaires comme la censure, la réduction du corps électoral et la nomination des fidèles aux hautes fonctions. Les insurgés ont tué 200 soldats et Charlex X est parti en exil[1]. Il n’est pas suprenant que la peinture soit devenue un emblème de la République Française. On dit même que le tableau pourrait avoir inspiré Victor Hugo à écrire Les Misérables, qui traite aussi des barricades et du mouvement révolutionnaire. Néanmoins, le titre du tableau et son imaginaire n’est pas tout à fait juste. Malgré son importance, la révolution de 1830 n’a pas été guidée par le peuple dans sa volonté de liberté.

Ce qui a déclanché les premières révoltes a été l’action des journalistes et commerçants. Alors, on peut dire que la bourgeoisie a commencé les journées de 1830. Après, la révolution est devenue populaire, mais puis rapidement les journalistes et les députés ont récupéré la révolution au profit de la bourgeoisie. Une monarchie constitucionnelle a été instituée au lieu d’une république, option qui a été éliminée. Charles X finit par renoncer au trône et le duc Philippe d’Orléans devient le roi sous le nom de Louis-Philippe 1er.

On peut s’apercevoir que « La Liberté Guidant le Peuple » a les traits typiques du romantisme : l’idéalisation de la révolution, y compris la violence, et l’exaltation des idées révolutionnaires. Mais il ne faut pas se tromper sur l’idéal, puisque la réalité est toujours différente. Dans ce cas, par exemple, ça n’a pas été la liberté qui a guidé le peuple, mais la bourgeoisie. La liberté lutterait toujours pour la république, la bourgeousie lutte seulement pour maintenir ses privilèges.

 

[1] Pour voir un relate três court sur ce sujet, visitez: https://www.herodote.net/26_juillet_1830-evenement-18300726.php

Frank Underwood, Maquiavel e Brasil: encontre o erro

O Brasil vive um momento de conturbação política sobre o qual é impossível se abster. Os problemas incluem uma crise econômica que se alarga, a expansão de epidemias, e até uma ameaça terrorista. Mas um fator permeia todos os outros: a crise política. Ontem, o país parou para assistir à votação referente ao processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Trata-se de uma primeira fase que consiste mais precisamente em autorizar a instauração do processo de impeachment. Com 367 votos a favor e 137 contra, o parecer favorável ao impeachment foi aprovado e o processo deve seguir ao Senado Federal. No Senado, basta maioria simples para que Dilma seja afastada do cargo, enquanto maioria qualificada é requerida para que ela seja condenada e perca o mandato [1].

Enquanto grande parte da população apoia a saída da presidenta, é preciso lembrar que todo impeachment tem suas externalidades negativas. A começar pela indefinição quanto aos rumos da política econômica e da estrutura administrativa, passando pela preocupação com a continuidade dos programas sociais e desembocando na incerteza sobre a melhoria da situação do país. Entretanto, em que pesem todos esses riscos, há ainda um problema maior: quem assume o governo, com a saída de Dilma, é o vice-presidente decorativo Michel Temer e seu sucessor é Eduardo Cunha, que atualmente ocupa a presidência da Câmara. Ambos são políticos profissionais extremamente inteligentes e os dois foram citados na Lava-Jato, operação da polícia federal que alegadamente (e ironicamente) é uma das causas da insatisfação com o governo.

Não por acaso, no auge desse contexto turbulento, não faltam comparações entre Brasil e o seriado House of Cards. O seriado, produção original do Netflix, conta a história de um congressista estadunidense – Frank Underwood – que faz de tudo para alcançar o poder [2]. Com um arsenal ativo de manobras políticas, Frank consegue chegar à presidência da república. Muitos diriam que as atitudes de Frank, em sua maioria imorais ou antiéticas, fariam do personagem um herói maquiavélico – ou maquiaveliano.  Ele engana, trai, manipula as pessoas de modo a atingir seus interesses pessoais mais diretos. De fato, a personalidade de Frank é compatível com o que as pessoas geralmente associam ao pensamento de Maquiavel.

Mas será que foi isso mesmo que disse o pensador florentino? A resposta é não. Uma das frases mais conhecidas da Ciência Política atribuída a Maquiavel é “ os fins justificam os meios”. Ironicamente, trata-se de um erro de tradução ou de interpretação. A questão central para Maquiavel [3] nunca foi a intenção, mas o resultado. Para ter um resultado positivo, vale até agir contra a ética e a moral. Isso porque a política é um campo distinto da moral e da religião que se rege por leis próprias, e essas leis determinam que algumas ações consideradas “erradas” são necessárias para se alcançar resultados positivos. Até aí, as atitudes de Underwood, Temer e Cunha estão plenamente compatíveis com o pensamento de Maquiavel. Os três usaram artimanhas e estratégias políticas e obtiveram os resultados que queriam.

Entretanto, muitos esquecem que os resultados dos quais trata Maquiavel possuem uma particularidade: eles estão vinculados a uma ideia de bem comum. E que bem seria esse? O da Igreja? Não, senhoras e senhores. O bem para Maquiavel é a estabilidade do Estado. Vivendo em uma Itália fragmentada, o objetivo final defendido por Maquiavel era a coesão. Ora, resta evidente que nem Cunha nem Temer têm contribuído muito para a estabilidade do Estado brasileiro. Pelo contrário, suas ações têm levado a uma constante crise política de indefinição. Tampouco o processo de impeachment se justifica por motivos transcendentais que vão além de meros interesses pessoais. Enquanto os mais ingênuos creem no combate à corrupção e na melhoria do país, ficou claro, na votação de ontem, que nossos parlamentares estão pensando em tudo – na família, em Deus e até mesmo em torturadores da ditadura militar – exceto no bem-estar da população.

É claro que há razões válidas para a instauração do processo de impeachment. O enquadramento das pedaladas fiscais como crime de responsabilidade fiscal é uma delas. Porém, também está claro que essa não é a principal razão do movimento pró-impeachment. Uma insatisfação geral contra o Partido dos Trabalhadores justificada pelo desempenho fraco da economia e pelos escândalos de corrupção parece ser um dos principais motivos. A incompetência e a má gestão são suficientes para impedir um governo democraticamente eleito?

Chegamos ao ponto principal: a democracia. As instituições democráticas brasileiras são ainda incipientes. São raros os presidentes na história do país que conseguiram terminar um mandato. Sobretudo, a interrupção mal justificada do mandato poderia abrir um precedente nocivo ao regime democrático: imaginem se toda vez que houver comoção nacional ou insatisfação do Legislativo com o Executivo, fosse possível aplicar algo como um voto de desconfiança, mecanismo típico dos regimes parlamentaristas [4]. Parece insustentável, e instável. Ainda mais tendo em conta que quem vai assumir não teve os votos da população, pelo menos não para o cargo de presidente. O que faz lembrar o que disse Underwood: “One heartbeat away from the presidency and not a single vote cast in my name. Democracy is so overrated.” Ademais, devemos lembrar que o governo não é formado apenas pela Presidência da República. O Congresso desempenha um papel importante em nosso presidencialismo de coalizão, responsabilidade que muitas vezes é esquecida devido ao excesso de foco no Chefe do Executivo. Além disso, não há garantias de que a economia vá se recuperar e quem estará assumindo a presidência também está envolvido nos escândalos citados.

Por fim, muitos defensores do impeachment ressaltam que o processo se refere a um mecanismo constitucional e que, portanto, não é um golpe. Tudo bem, realmente, está previsto e está dentro da legalidade. Mas vamos lembrar que muitas situações políticas deploráveis surgiram por meio de manobras institucionais. Aconteceu na Alemanha, em 1934, na Itália de Berlusconi e até mesmo em Star Wars, quando o senador Palpatine aumentou seus poderes executivos no Senado Galáctico [5].

Em todo caso, creio que a história nos julgará.

[1] “Câmara autoriza instauração de processo de impeachment de Dilma com 367 votos a favor e 137 contra”, em: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/POLITICA/507325-CAMARA-AUTORIZA-INSTAURACAO-DE-PROCESSO-DE-IMPEACHMENT-DE-DILMA-COM-367-VOTOS-A-FAVOR-E-137-CONTRA.html

[2] http://www.adorocinema.com/series/serie-7663/

[3] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martin Claret, 2012 [1513].

[4] “Impeachment mal fundamentado abre precedente preocupante”, em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/01/1726540-impeachment-mal-fundamentado-e-precedente-preocupante.shtml

[5] http://pt.starwars.wikia.com/wiki/Palpatine

“Tirania da maioria” versus opiniões minoritárias na literatura de J.R.R Tolkien

   É sabido que as obras do escritor e filólogo britânico John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) – J.R.R Tolkien – possuem notórias influências de Medievalismo, Cristianismo e mitologias de tribos que habitavam o norte da Europa tais como os celtas, anglo-saxões e vikings.

   Também vemos nas obras de Tolkien diversas críticas aos problemas ambientais causados pela industrialização excessiva, como por exemplo o desmatamento causado na floresta de Fangorn pela produção em massa de orcs e uruk-hai sob a ordem de Saruman  em O Senhor dos Anéis – As Duas Torres (2007) e às guerras mecanizadas da modernidade causando destruições em larga escala e genocídios.

   Logo, podemos afirmar, a partir do parágrafo anterior, que a obra de Tolkien é permeada de alegorias que representam suas ideias acerca do mundo. Do ponto de vista político, há  elemento(s) que podemos interpretar a partir de suas obras? Se sim, como podemos explicá-lo(s) à luz da Ciência Política? São essas perguntas que este breve texto busca responder.

   A Terra Média é composta por quatro raças distintas: homens, elfos, anões e hobbits. Esses são os chamados “povos livres” da Terra Média, criados pelo ser divino máximo do universo tolkieano, Eru Ilúvatar, com exceção dos anões que foram criados por outro ser divino, Aulë, um dos chamados Valar, seres divinos oriundos do pensamento de Ilúvatar[1] (Tolkien, 2011).

Todavia, antes da existência de Arda – como a Terra Média também é conhecida -, Melkor, um Vala, e Sauron, um Maia[2] se rebelam contra Ilúvatar e os outros Ainur[3] durante a criação de Arda e decidem desenhá-la de acordo com suas intenções. Ambos “descem” para a Terra Média, e nela, tentam  inúmeras vezes vencer os “povos livres” formando grandes exércitos de seres feitos unicamente para seguir suas vontades, conhecidos como orcs, trolls e balrogs e posteriormente, já na Guerra do Anel na Terceira Era, contam também com o auxílio dos uruk-hai e nazguls, os espectros do Anel. Em suma, trata-se uma trama com elementos clássicos de história de “bem versus mal”.

   Pois bem, note o que foi dito no parágrafo anterior sobre as criaturas de Melkor (também conhecido como Morgoth) e Sauron. São seres que existem unicamente para fazer a vontade de seus senhores. Logo, orcs, uruk-hai formam uma massa de seres homogêneos em termos de opiniões, visão de mundo, gostos e etc.

   Por sua vez, os “povos livres” possuem costumes, tradições, gostos e opiniões distintos entre eles. Esse fato, acaba gerando alguns conflitos e desentendimentos entre esses povos. As divergências entre anões e elfos são as mais evidentes ao longo da obra de Tolkien.

   Considerando que orcs, uruk-hai e etc. são “iguais” e muito numerosos, logo, eles são maioria tanto em opiniões e interesses quanto em quantidade frente a qualquer raça da Terra Média tomada em separado. Logo, as chances de controle sobre Arda são maiores por parte desses seres, pois possuem maior capacidade de organização política enquanto que os “povos livres” devido à heterogeneidade de opiniões entre eles, possuem menos chances de vitória.

   Na história do pensamento político, mais precisamente, no pensamento liberal, a busca pela garantia da liberdade individual e de grupos sociais é uma constante. A partir, principalmente de James Madison nos Artigos Federalistas (2011), no qual, o autor buscou criar um aparato institucional que fosse capaz de frear as “paixões” de facções políticas majoritárias, buscando regular interesses diversos de cada grupo social, seja ele religioso, econômico e etc. Madison buscou controlar o que ele denominou de “tirania da maioria”, um fenômeno sociopolítico identificado por ele no “Federalista nº 10”.

   John Stuart Mill (1806-1873) e Alexis de Tocqueville (1805-1859) podem ser considerados os autores mais importantes da escola liberal a tratar do assunto. A partir do que esses autores (Stuart Mill, 2011; Tocqueville, 2005) descrevem sobre este fenômeno sociopolítico característico das sociedades de massa emergentes do séc. XIX, podemos conceituar a “tirania da maioria” como uma situação na qual a maioria numa determinada sociedade dita as regras. O resultado disso é que opiniões discordantes e minoritárias em tal sociedade acabam sendo no mínimo negligenciadas, prejudicando um dos elementos fundamentais da democracia: a liberdade de pensamento e opinião.

   Tocqueville (2005), com base nisso, faz um elogio às instituições políticas norte-americanas por, na sua visão, serem eficientes em frear o ímpeto da maioria com seu sistema de checks and balances federalista e bicameral. Já Stuart Mill (2011, 1980), se torna um grande defensor do sistema de votação proporcional e inclusive da extensão do direito ao voto para as mulheres de modo que, na arena congressual as diferentes correntes de opiniões possuam maior representatividade sem necessariamente prejudicar a maioria.

   Obviamente, no universo tolkieano, esses tipos de instituições são inexistentes. No entanto, Sauron e suas criaturas de opiniões homogêneas representam na Terra Média o mesmo tipo de ameaça identificado por esses autores acima. Do mesmo modo, não há noção de indivíduo clara nas obras de Tolkien, porém, isolando os “povos livres”, cada um possui interesses e opiniões diferentes entre si. Quando esses povos se encontram em desunião devido aos problemas de interesses divergentes, a ameaça tirânica de Morgoth em O Silmarillion e Sauron em O Hobbit e O Senhor dos Anéis é uma realidade. Em todas as batalhas travadas na história da Terra Média, os “povos livres” só chegam à vitória e garantem suas liberdades quando se unem militarmente e enfrentam a maioria homogênea.

   Vemos assim que a Terra Média só se mantém harmoniosa quando os “povos livres” governam respeitando os diferentes interesses e opiniões existentes entre as raças. O cenário desenhado por Tolkien em caso de uma vitória de Morgoth ou de Sauron, do ponto de vista do pensamento liberal, é uma Arda povoada por seres com opiniões homogêneas e avessos à qualquer tipo de opiniões e interesses distintos, caracterizando assim uma espécie de “tirania da maioria”.

   É certo que os autores liberais mencionados buscam soluções institucionais para enfrentar esse tipo de tirania, uma vez que ela ocorre dentro do jogo político democrático. Mas, tomando a Terra Média como um território no qual seus diferentes povos são membros de uma sociedade livre na medida que a liberdade de pensamento e de opinião entre eles é garantida e a ameaça de Sauron e Morgoth e seu grupo majoritário homogêneo em ideias é uma realidade, uma Terra Média “democrática” só é garantida quando os “povos livres” se aliam, percebendo que garantir a diferença entre eles é saudável e que o risco da “tirania da maioria” pode levá-los à submissão política e até mesmo à extinção.

 

 

Referências

 

TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion. Martins Fontes, 2011.

______________. The Hobbit. Harper Collins, 2006.

_______________. The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring. Harper Collins, 2007.

______________. The Lord of the Rings: The Two Towers. Harper Collins, 2007.

______________. The Lord of the Rings: The Return of the King. Harper Collins, 2007.

HAMILTON, Alexander et alli. The Federalist. The Modern Library, 2001.

MILL, John Stuart. Considerações sobre o Governo Representativo. Ed. UnB, 1980.

______________. Sobre a Liberdade. Hedra, 2011.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América – Livro 1. Martins Fontes, 2005.

 

[1] Nas histórias de Tolkien, mais especialmente em O Silmarillion, que aborda mais o tema da criação e história da Terra Média e seus seres, não fica claro como surgiram os hobbits, nem se realmente foi Ilúvatar que os criaram. Porém, eles são, segundo as obras de Tolkien, uma variação da raça dos homens.

[2] Assim como os Valar, os Maiar também são seres divinos surgidos do pensamento de Ilúvatar.

[3] Ainur = Valar e Maiar em conjunto.

“Frozen” e o feminismo branco

 

No semestre passado, estive ministrando a disciplina “Introdução à Ciência Política” (ICP) para cumprir créditos no doutorado. Nem preciso dizer que é uma experiência fantástica e que faria duas, três, quatro vezes mais, pois “ensinar” é a própria razão de ser da minha pós-graduação. E tenho a convicção de que tenho aprendido mais com os alunos/as do que eles/as comigo.

O meu objetivo na disciplina – em que este Blog se insere, inclusive – foi fazer com que alunos e alunas enxergassem a Ciência Política não como um sacrifício, mas também um divertimento. A intenção era que eles/as notassem o quanto a política estava inserida no cotidiano, mas não apenas nas coisas consideradas “chatas” ou enfadonhas (como eventualmente o Jornal Nacional), mas em atividades que são vistas como divertidas. O propósito era mostrar que a política não está apenas no Congresso Nacional, mas permeia relações familiares, piadas feitas em grupos de WhatsApp e situações tão corriqueiras quanto assistir a uma série no Netflix.

No final do semestre, passei um trabalho final de ICP que consistia em escolher qualquer obra da cultura pop – vale filmes, livros, seriados e até jogos de videogame – para analisa-la com base em três autores vistos no decorrer da disciplina. Como de praxe, dei a oportunidade de os/as alunos/as me enviarem uma proposta antes da data de envio do trabalho final para que eu pudesse dar um feedback e algumas sugestões. Estava esperando vários trabalhos repetidos com os temas da moda, como House of Cards ou Game of Thrones. Mas, para a minha surpresa, a turma apareceu com um conjunto diversificado de análises, que vão desde o seriado Suits ao desenho animado Dragon Ball Z. Eis então que uma dupla de meninas me manda um e-mail informando que gostariam de analisar o filme “Frozen”.

Nada contra esse filme em particular, mas em um primeiro momento eu pensei “mas o que ‘Frozen’ tem que pode ser analisado pela Ciência Política?”. Eu só conseguia pensar em teoria feminista. E então, no final do semestre, eu li um dos melhores trabalhos com os quais tive contato nos anos em que participei da monitoria e do estágio em docência. Na realidade e para a minha própria surpresa, ‘Frozen’ abarca muitos temas discutidos na Ciência Política.

Primeiramente, o comportamento do Hans – vilão do filme – pode ser analisado na ótica de vários autores da teoria política. A começar por seu comportamento maquiavélico (ou maquiaveliano?) em busca do poder, o que condiz com a interpretação materialista da política internacional. Em segundo lugar, o próprio conceito de “poder”, nas divergências entre Arendt [1] e Weber [2], expressas nas diferenças de comportamento entre Hans e Elsa. Quem teria o poder verdadeiro? Depende da sua lente teórica. A própria questão da legitimidade se insere nessa disputa pelo trono.

Por fim, e não menos importante, a questão do feminismo e da intersecção das desigualdades. Lembro que quando Frozen saiu em cartaz, muita gente que se considera ‘progressista’ aplaudiu porque finalmente a Disney estava admitindo que o mais importante para as mulheres não era encontrar o Príncipe Encantado. Na verdade – e isso eu li em um livro da própria Disney –  há certa evolução nas personagens femininas da Disney no sentido de maior independência em relação aos homens. É só comparar a Branca de Neve com a Mulan, e depois com a protagonista do filme “A Princesa e o Sapo”até finalmente chegarmos à Elsa de Frozen. Entretanto, como nos encontramos em uma sociedade ainda machista, estamos longe da utopia que desejamos.

Frozen mostra alguns aspectos na nossa sociedade que precisam de maior análise. Um deles é a intersecção entre diferentes tipos de desigualdade, como gênero, classe e raça. Se Anna e Elsa se mostram mais independentes em relação aos homens – o que já é um avanço – elas possuem dois fatores que dão uma vantagem comparativamente a outras mulheres: Anna e Elsa são brancas (ruiva e loira, aliás) e fazem parte da nobreza.

O que isso significa, afinal? Significa que devemos menosprezar a luta delas? Claro que não. Mas isso nos mostra que o conjunto “mulheres” não se trata de um grupo homogêneo de pessoas. E que por mais que possamos passar por situações opressoras comuns relacionadas ao machismo – falta de segurança, cantadas estúpidas, agressão verbal e física – a situação de uma mulher branca é diferente da de uma mulher negra assim como as mulheres ricas dispõem de certas condições que as mulheres pobres não possuem. Isso fica evidente nas discussões sobre trabalho doméstico: ao passo que as mulheres ricas e brancas ainda sejam ligadas socialmente ao trabalho de cuidar do lar, elas ainda possuem a condição de terceirizar a responsabilidade pelo cuidado, por meio, por exemplo, da contratação de trabalhadoras domésticas. Em suma, isso nos mostra que o feminismo não pode ser distanciado de uma visão holística, que considere outras dimensões da desigualdade, tais como raça e classe.

Assim, como destacam Miguel e Biroli (2015) [3], uma análise sobre gênero que não considere as condições impostas pelas variáveis “raça” e “classe” se mostra insuficiente para lidar com as experiências de muitas mulheres. É a lição que extraímos de autoras como Bell Hooks, Crenshaw e Christine Delphy. E é algo que nos leva até mesmo a questionar a expressão “Dia da Mulher”. Quando utilizamos o singular – “Dia Internacional da Mulher”, por exemplo,  estamos obscurecendo as diferenças nas experiências de várias mulheres e criando um estereótipo sobre o que é ser Mulher [4]. E advinha qual é o estereótipo? Aposto que Anna e Elsa se encaixariam…

 

[1] ARENDT, Hannah. “Sobre a violência”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 51-74.

[2] WEBER, Max. “A Política como vocação”. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Ed. Cultrix, 1993, pp. 55-69;104-124.

[3] BIROLI, Flávia; MIGUEL, Luis Felipe. “Gênero, raça, classe: opressões cruzadas e convergências na reprodução das desigualdades”. Revista Mediações, 2015.

[4] NOUVEL OBSERVATEUR. « Non, le 8 mars n’est pas la ‘journée de la femme’. » Em : http://tempsreel.nouvelobs.com/societe/20160308.OBS5984/non-le-8-mars-n-est-pas-la-journee-de-la-femme.html

E se Maquiavel assistisse Star Wars? Considerações sobre forças armadas no pensamento maquiaveliano e a milícia Jedi.

Neste breve artigo, meu objetivo é de responder a seguinte pergunta: O que o filósofo político Maquiavel diria sobre a função dos Jedi na República Galática na famosa e popular saga cinematográfica Star Wars?

Primeiramente, vemos que na trilogia denominada pelos fãs da saga de “prequela”, a República Galática era uma organização político-institucional democrática unicameral na qual os representantes dos planetas membros além de exercerem papeis de lideranças locais em seus próprios planetas também eram senadores da República. Logo, cada planeta membro, tinha um representante no Senado Galático. Como uma organização política democrática que busca a longevidade, garantir a liberdade política dos seus cidadãos e conter os afãs de facções políticas extremistas (Maquiavel, 1977, 2015), esta República dava aos Jedi, o respaldo do uso da força.

Por sua vez, os Jedi são uma espécie de milícia formada por um “grupo de filósofos contempladores dos mistérios do campo de energia chamado Força”[1]. É uma organização que fora o aspecto místico no que tange a relação de seus membros com o controle e uso da Força, possui funções de mediação de conflitos, aconselhar líderes políticos e, como já dito anteriormente, recorrer ao uso da força quando necessário. Os Jedi não são um exército ligado ao aparato de Estado da República. Esta Ordem possui uma organização autônoma na qual seus membros devem seguir um código de conduta pautado na ideia de não dar vazão aos sentimentos, para evitar que sejam dominados por eles. Este código é um alicerce para que os Jedi sempre se mostrassem comprometidos à constituição da República Galática, nunca havendo um rompimento político deles com esta, colocando-a acima de qualquer questão pessoal ou afetiva.

Pois bem, na história do pensamento político, o tema do uso da força sempre foi uma preocupação. Quem detém a legitimidade do uso da força é uma questão que aparece em diversos autores. Por exemplo, de acordo com Max Weber (1982) o Estado é a instância política que detém o uso legítimo da força. Além do já mencionado Weber, podemos destacar a concepção de Thomas Hobbes (1979) na sua obra O Leviatã sobre como o poder político é organizado na sociedade[2]. Segundo o autor, os homens quando deixam o estado de natureza, realizam tal ato visando garantir sua segurança tanto em relação aos perigos da natureza quanto à ação de outros homens. Para isso, os homens abrem mão de parte de sua autoridade para um soberano. Dentro dessa ideia de autoridade, inclui-se o uso da força, passando ao soberano a posse da “espada”. Dessa maneira, o Estado passa a deter o monopólio da violência.

No entanto, a questão do uso da força não se reduz à quem a detém seu direito legítimo. Nicolau Maquiavel muito antes de Hobbes e mais ainda de Weber, buscou entender qual a melhor maneira do soberano se utilizar do monopólio da violência para se manter no poder. Em outros termos, foi foco de análise do pensador florentino, diferentemente de seus sucessores, qual o melhor tipo de força armada a ser utilizada numa determinada circunstância (se numa situação de conquista de territórios ou defesa e manutenção de um Estado, por exemplo).

Para Maquiavel, “as principais bases que os Estados possuem, novos, velhos ou mistos, são boas leis e bons princípios. E como boas leis não existem onde não há armas boas, e onde existem boas armas conveniente é que estejam boas leis” (Maquiavel, 1977). A concepção é de que é impossível existir boas leis se antes destas não existirem as boas armas. Maquiavel argumenta que todo Estado duradouro, como Roma e Esparta, no passado teve o auxílio das armas.  Maquiavel distingue quatro tipos de forças armadas: próprias, mercenárias, auxiliares e mistas. Segundo o autor, tropas mercenárias, auxiliares e mistas são inúteis e perigosas devido à infidelidade ao Estado pois são destituídas de um elemento importantíssimo no pensamento maquiaveliano: o republicanismo cívico – a lealdade à república, sentimento patriótico, fidelidade ao soberano (Maquiavel, 1977, 1979, 2015).

Formar um exército mercenário ou contar apenas com auxiliares ou mistos significaria arriscar a integridade do Estado e a força da nação, pois o salário oferecido ao mercenário e a lealdade a outro soberano por parte das tropas auxiliares e mistas não seriam o suficiente para que florescesse o sentimento patriota, o desejo de vitória acima de qualquer outro princípio. Resumindo, fora as tropas próprias, nenhum dos tipos de exércitos estariam dispostos a dar sua vida ao soberano/ Estado. Além do que, o risco que o príncipe corria de aprisionar o seu domínio a um outro era alto, pois se um exército mercenário é derrotado, será uma simples derrota, mas se este é vitorioso, a vitória torna o soberano que se utilizou desta força refém delas porque cairia na dependência de homens que não são seus, tornando sua tropa própria covarde e insegura com disposição de lutar apenas com a ajuda de outros exércitos (Maquiavel, 1977).

Como já mencionado, os Jedi são uma milícia que detém funções não só militares, mas também políticas na República Galática. De acordo com a ideia que  Maquiavel tinha acerca das forças armadas, se este assistisse a saga Star Wars, provavelmente seria um entusiasta da Ordem Jedi, pois esta atenderia aos critérios de organização militar mais adequada do ponto de vista maquiaveliano: são tropas próprias da República – não recebem salários ou qualquer benesse material para jurar fidelidade política – e são dotadas de republicanismo cívico. De acordo com a literatura da saga, os Jedi serviram a República militar e politicamente durante milhares de anos, até a chamada “Era de Ascensão do Império”. Logo, vemos que a República foi longeva até a queda dos Jedi, dando suporte à teoria maquiaveliana.

Exemplo de fidelidade à República por parte da Ordem Jedi podem ser vistos em diversos momentos ao longo da saga, mas, destaco dois eventos, ambos do episódio III – “A Vingança dos Sith”.  1º) a necessidade que Palpatine (Darth Sidious) tinha de exterminar a Ordem Jedi para conseguir concretizar a sua intenção de dar um golpe de Estado, pois com os Jedi fortes, estes constantemente se colocariam em defesa das instituições republicanas e 2º) a luta entre Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker (recém convertido Lorde Sith, intitulado Darth Vader, e consequentemente aliado de Palpatine). Foi um momento muito complicado para Obi-Wan, pois foi obrigado a enfrentar seu padawan (aprendiz), logo, teve que por questões pessoais e afetivas de lado para cumprir sua missão como soldado que era a de defender a República e a democracia, como ele mesmo num momento de discussão com Anakin deixa claro: “Anakin, my  allegiance is to the Republic, to democracy![3], por mais que naquele momento, o golpe de Estado estivesse praticamente concretizado.

Por fim, concluo que os Jedi na saga Star Wars são um bom exemplo da concepção maquiaveliana de força armada. São próprias e fiéis à quem e ao que defendem. Certamente foram atores políticos fundamentais na longevidade da República. Além disso, a queda desta se deve muito ao expurgo dos Jedi coordenado por Palpatine, Anakin e seu exército de clones. Posteriormente, os Jedi remanescentes do expurgo – Obi-Wan Kenobi e Mestre Yoda – e Luke Skywalker foram fundamentais na queda do Império e na restauração da República.

Maquiavel provavelmente estaria orgulhoso e feliz de ver sua teoria sendo exposta na cultura popular.

 

Referências

Star Wars Wiki – link: http://pt.starwars.wikia.com/wiki/P%C3%A1gina_principal

HOBBES, Thomas. (1979) [1651] O Leviatã. Editora Abril.

MAQUIAVEL, Nicolau. (1977) [1513] O Príncipe. Editora Hemus.

___________________. (1979) [1531] Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio. Editora UnB.

__________________. (2015) [1509] A Arte da Guerra. L&PM Pocket.

WEBER, Max. (1982) ” Política Como Vocação”, in Ensaios de Sociologia 5ª ed. Zahar Editores.

 

Notas

[1] “Força” está com “f” maiúsculo para diferenciar de “força” no sentido de monopólio da violência.

Fonte: http://pt.starwars.wikia.com/wiki/Ordem_Jedi.

[2] Nesta passagem, não digo que Hobbes e Weber possuem objetivos comuns em suas análises. Hobbes procura criar uma teoria sobre como os homens se organizam social e politicamente enquanto que Weber busca entender o que ele denomina de tipos de dominação estatal.

[3] Tradução: “Anakin, meu compromisso é com a República, com a democracia!”

A República Ideal de Star Wars, por Platão

Uma das discussões mais célebres no campo da Ciência Política trata-se do debate sobre as formas de governo. Desde Heródoto até os pensadores mais atuais, as palavras “democracia”, “aristocracia” e “monarquia” não saíram do vocabulário do pensamento político. As definições e julgamentos de valor variam, é claro, segundo os autores.

Sem dúvidas, uma das divisões mais lembradas é a tipologia de Platão, filósofo mais conhecido pela alegoria da caverna (ou pela trilogia Matrix). No livro “A República”, Platão traz uma divisão bastante peculiar e distinta daquelas que se tornariam mais correntes, como a classificação sêxtupla de Aristóteles e o ciclo de Políbio. Na obra citada [1], Platão demonstra uma perspectiva negativa da história, que se constitui em um regresso indefinido entre quatro formas de governo negativas: timocracia (espécie de transição), oligarquia, democracia e tirania.

Note que a palavra “democracia” estava longe ainda de assumir a conotação positiva dos dias de hoje, em que até regimes mais autoritários disputa a acunha. Platão provavelmente tinha uma visão negativa da democracia devido ao fato de que a morte de Socrátes (real ou amigo imaginário?) foi fruto de decisão coletiva tomada em assembleia. Assim, tinha-se a percepção de que as massas poderiam tomar decisões ruins. As formas de governo, para Platão, caracterizavam-se pelos vícios e virtudes de suas classes dirigentes. Assim, o homem timocrático era conhecido por seu talento militar e severidade com os criados, o homem oligárquico pela prevalência que dava aos ricos e o homem tirânico pela violência [2].

Por outro lado, a forma ideal, que – como o “homem ideal” não existe – refere-se à composição harmônica entre as três categorias de homens: guerreiros, filósofos e dedicados ao trabalho produtivo, os quais correspondem às três partes da alma (respectivamente passional, racional e apetitiva). Tal forma ideal poderia ser uma aristocracia ou a monarquia, desde que as três categorias de homem estejam exercendo suas funções [3].

Platão não contemporâneo as duas trilogias de filmes de Star Wars, mas não é difícil imaginar como ele julgaria a política exposta nos filmes. Primeiramente, no plano real, a passagem da república ao Império se constituiria em uma brusca transformação em tirania, caracterizada pela violência do Imperador por meio da ação de Darth Vader. Em segundo lugar, a própria passagem pode ser analisada pelos critérios de Platão, que destaca duas espécies de conflito: dentro da classe dirigente e entre governantes e governados. No âmbito da classe dirigente, houve um conflito óbvio entre o Senador Palpatine e alguns outros membros do Senado, em especial a proeminente Padmé Amidala. Já no que tange à disputa entre governantes e governados, podemos ressaltar o papel da Federação de Comércio [4], a qual contribuiu para que o Império Galáctico fosse efetivamente construído. Dessa forma, o governo em Star Wars enfrentou os dois tipos de conflito. O filósofo também menciona que a passagem pode ocorrer pela troca de gerações – o que podemos observar em Star Wars pelo crescimento de Anakin Skywalker e seu conflito geracional eterno com Obi-Wan Kenobi. Por fim, cabe destacar a visão que Platão teria sobre a forma de governo ideal para os personagens de Star Wars. Ora, se a forma ideal se refere à composição harmônica entre as três categorias descritas, o resultado é óbvio. A atividade de governar ficaria a cargo do Mestre Yoda, visto que “filósofo ele é”. A segurança estaria sob a responsabilidade dos Jedis, pois eles equivalem mais apropriadamente aos guerreiros (possuem até um código de moral próprio voltado a isso, embora Anakin tenha subvertido). Já o trabalho produtivo continuaria nas mãos dos coadjuvantes dos filmes (semelhança com a vida real é uma mera coincidência?).

Assim, para memorizar a divisão I (ele tem outras divisões nas obras seguintes) de Platão, é simples: basta recordar que a forma ideal é um sistema em que Yoda governa, os Jedis fazem a defesa do território e a classe produtiva continua responsável pela produção dos bens de sobrevivência. Ou, para os fãs de música popular brasileira, “cada um no seu quadrado”.

Dessa forma, percebemos que a filosofia e as trilogias de Star Wars têm alguns pontos em comum além das discussões políticos: são longas e às vezes trabalhosas, mas valem a pena.

Passagem ocorre através da troca de gerações

O que explica a transição de uma forma a outra? Duas espécies de conflito: dentro da classe dirigente, e governantes x governados.

Referências bibliográficas:

[1] PLATÃO. A República. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

[2] BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: A Filosofia Política e as Lições dos Clássicos. Rio de Janeiro: Elservier, 2000

[3] Ibidem

[4] http://pt.starwars.wikia.com/wiki/Federa%C3%A7%C3%A3o_de_Com%C3%A9rcio

Eddard Stark: Ética da convicção ou da responsabilidade?

No primeiro livro da série A Song of Ice and Fire [1], Eddard Stark descobre que os filhos da Rainha não são filhos do Rei. Em vez de denunciar a infidelidade (e o incesto, diga-se de passagem) ao seu melhor amigo, o rei Robert Baratheon, Ed opta por sugerir à rainha que fuja antes que ele conte a verdade. O objetivo era evitar que os filhos e a mãe fossem mortos ou perseguidos, em um ato de misericórdia do herói. Entretanto, o plano não funciona como planejado: em vez de fugir, Cersey arma contra Eddard, o qual é aprisionado após a morte do rei.

Com certeza, poderíamos dizer que Eddard agiu com base em seus preceitos éticos. Sua finalidade era salvar principalmente as crianças, as quais não poderiam ser culpadas pela infidelidade da rainha, mas estariam sujeitas ao rancor do rei se ele descobrisse a verdade. Todavia, que tipo de ética seria essa que desembocou na morte da Mão do Rei e na posse de Joffrey como novo soberano?

Se Maquiavel [1] já separara a ética política da religiosa desde o século XVI, Max Weber [3] argumenta que a vocação política exige a complementariedade de dois tipos de ética: a da responsabilidade a da vocação. Assim, o homem político seria caracterizado por três qualidades: paixão, sentimento de responsabilidade e senso de proporção (que seria o mesmo que “distanciamento”). Inegavelmente, a posição de “Mão do Rei” se constitui em uma função política. Mas teria Eddard Stark todos os requisitos para cumpri-la?

Por um lado, poderíamos argumentar que ele agiu na ótica da ética da convicção: ele fez o que acreditava ser “certo” – tentar salvar a rainha e os filhos – mesmo que suas atitudes tenham gerado consequências perversas: sua própria decapitação, a guerra posterior e a situação da sua família. Poderíamos dizer que ele não pensou muito bem nas consequências e agiu com base naquilo que considerava o comportamento mais honrado.

Por outro lado, poderíamos argumentar que ele tomou suas atitudes pensando nas consequências de seus atos: se ele dissesse a verdade a Robert, Cersei e seus filhos provavelmente seriam mortos.

Em que pese as dúvidas sobre qual ética seria mais adequadamente atribuída às ações de Eddard Stark, não há dúvidas de que suas atitudes levaram a um fim trágico para todos. Ele não soube pensar com base nas duas éticas, vistas como complementares. Dessa forma, sobravam-lhe paixão e sentimento de responsabilidade, mas faltava-lhe muito o senso de proporção. De fato, Eddard Stark não tinha vocação política.

Como diria Weber, quem adentra a política deve esquecer a salvação da alma. E seguir as regras do jogo.

E no jogo dos tronos, ou você ganha ou você morre.

[1] MARTIN, George. “Game of Thrones” (série “A song of Ice and Fire”), lançado em 1996.

[2] MAQUIAVEL, Nicolau. “O Príncipe”, 1532.

[3] WEBER, Max. “A Política como Vocação”, 1919.

O problema dos elfos domésticos em HP: breve discussão sobre Capital x Trabalho

Antes de fazer seu discurso sobre feminismo nas Nações Unidas, Emma Watson tornou-se amplamente reconhecida pelo seu papel em Harry Potter, em que interpretava a bruxinha Hermione. Na saga de J.K. Rowling, além de excelente aluna, Hermione era uma árdua defensora dos elfos domésticos. No universo de Potter, os elfos não lembravam em praticamente nada as glamorosas criaturas de Tolkien. Eles são espécies de servos domésticos destinados a trabalhar para famílias de bruxos até que seus patrões os libertem por vontade própria.

Parece uma situação surreal, mas não fosse pelo fato de que os elfos não são remunerados, eles poderiam bem lembrar certo grupo numeroso de indivíduos que passou por condições calamitosas durante as transformações magníficas dos séculos XVIII e XIX. Sim, isso mesmo, estamos falando do proletariado.

Para compreender a semelhança, é preciso entender bem primeiramente o sentido da expressão “proletariado”. Diferentemente do que muitos podem pensar, o termo proletariado não se referia inicialmente a uma classe restrita de indivíduos e, sim, a uma coletividade maior: a dos excluídos. Assim, Tavares (2014) esclarece que o termo era utilizado para designar um “tipo genérico”, que representava as camadas mais desfavorecidas da população.

Nesse sentido, é importante destacar que o período em que surgiu “O Manifesto do Partido Comunista” foi marcado por condições precárias de trabalho, em que a sociedade dividia-se em dois segmentos nítidos e separados: os proprietários e os não-proprietários.  A utilização da palavra “proletário” nesse contexto remete, portanto, à situação de exclusão. Contrária a essa divisão, a ideia comunista propunha a edificação de um mundo único e harmônico. Fundou-se na crítica à concorrência, em que se destacava o prejuízo aos laços sociais. Essa crítica desembocava na “desindividualização”: o“indivíduo” não existe e a comunidade de bens é uma consequência prática desse pensamento. Os dois pilares eram as ideias de unidade e fraternidade, em que imperava a ideia de um “todo maior que as partes” (Rosanvallon, 2011).

Ao passo que o comunismo podia acarretar a negação do conflito, essa corrente teórica foi uma vertente que trouxe a como aspecto central a inclusão social. Os proletários eram os miseráveis de Hugo, o “prole” de Orwell, aqueles que estavam fora da sociedade, que não tinham direitos sociais ou políticos. Incluí-los foi a preocupação primordial da ideia comunista. No fundo, o que estava no centro da discussão era a relação Capital x Trabalho, em que o Capital predominava em uma relação de nítida exploração.

A crítica ao poder do capital não foi exclusiva do marxismo. Até um autor como Dahl (1985), o qual encaixa-se comumente na vertente pluralista, apontou o perigo de se conceder poder demais aos acionistas da empresa. Na obra A Preface to Economic Democracy, o autor questiona como uma democracia em nível amplo pode ser incentivada enquanto internamente nas empresas impera uma estrutura anti-democrática. Dessa forma, ele indaga o que justificaria essa diferença entre regime adotado no governo e dentro das firmas. A solução proposta por Dahl (1985) é um sistema baseado em empresas autogovernadas. Outra alternativa à tradicional hierarquia entre Capital e Trabalho é apresentada pela Economia Solidária, que teve origem no socialismo e também defende a auto-gestão.

O que essas perspectivas trazem em comum é a interação entre a esfera econômica e a política, em que certo nível de igualdade econômica é necessário para sustentar a igualdade política que viabiliza a democracia. O marxismo foi um dos pioneiros em aprofundar essa questão ao propor as primeiras críticas à democracia burguesa. Não por acaso a teoria marxista é definida como economicista.

A situação dos elfos domésticos, embora não plenamente representativa da teoria marxista, pode servir para ilustrar a questão. Se o universo mágico de Harry Potter fosse dividido em classes, haveria ao menos três: os privilegiados “puro-sangue”, os bruxos em geral que estariam próximos da classe média e os elfos domésticos, que seriam como o proletariado. Os elfos se encontram em uma situação de exploração, porque com as horas não gastas em serviço doméstico, os bruxos privilegiados podem dedicar-se a outras atividades e, assim, dispor de muito dinheiro. A apropriação do trabalho dos elfos é o que caracteriza a mais-valia, que nesse caso reflete indiretamente em ganhos monetários. Enquanto isso, os elfos são excluídos de toda decisão política presente na sociedade dos bruxos, ao serem privados inclusive do direito limitado ao voto.

Hoje em dia, a realidade dos primórdios do capitalismo industrial parece distante, afinal foram muitas conquistas trabalhistas para chegar até aqui. Conquistas, aliás, que apenas foram viabilizadas devido à luta de vários movimentos esquerdistas, os mesmos que são ironicamente criticados amargamente por pessoas que hoje em dia usufruem dessas conquistas. Mas estamos longe de viver uma utopia. Muito longe.

Não por acaso, Piketty (2013) estudou, décadas depois, o mesmo problema de Marx: a acumulação de capital. No entanto, não se deixe enganar pelo título do livro: diferentemente de Marx, Piketty atenta que não se trata de uma tendência perpétua e tal acumulação deriva de outros motivos dos expostos por Karl. Para Piketty (2013), a acumulação não se refere a uma falha de mercado; aliás, se a situação de mercado perfeito fosse atingida, não haveria essa acumulação discrepante, segundo o economista francês. Diferente de Marx, Piketty atribui a causa a uma força divergente: o capital tem sido acumulado a uma taxa mais veloz que o crescimento geral. Consequentemente, as soluções são distintas: para o comunismo, é a abolição de classes; para Piketty, é uma espécie de imposto de grandes fortunas.

A confusão foi tamanha que o próprio Piketty teve que esclarecer “não ser marxista” [1]. Embora, o próprio Marx tenha afirmado não ser também [2].

O que essa discussão toda implica para nossos amigos elfos domésticos? Sua emancipação depende do ativismo da sociedade, principalmente de pessoas como Hermione. Porém, tal empoderamento encontraria um grande obstáculo: os elfos acreditam que trabalhar duro é uma honra e não querem ser libertados. Falsa consciência? Talvez. Precisaria conversar com mais elfos para saber…

 

Referências bibliográficas:

DAHL, Robert. A Preface to Economic Democracy. Berkeley e Los Angeles: University of California Press, 1985.

PIKETTY, Thomas. Le Capital au XXIe siècle. Paris : Éditions du Seuil, 2013.

ROSANVALLON, Pierre. La société des égaux. Paris: Éditions du Seuil, 2011

TAVARES, Francisco Mata Machado. “A Democracia Realizada do Materialismo Histórico: sobre a ditadura do proletariado e sua injustificada omissão nos estudos de teoria democrática contemporânea”. 2º Simpósio Nacional sobre Democracia e Desigualdades, Brasília, 2014.

[1] Entrevista com Thomas Piketty: <http://affaires.lapresse.ca/economie/macro-economie/201405/21/01-4768516-thomas-piketty-le-problemede-linegalite-excessive.php&gt;

[2] < http://progreshumain.wordpress.com/2013/09/29/moi-je-ne-suis-pas-marxiste/&gt;

 

Seria Victor Hugo um estruturalista?

Jean Valjean foi condenado a 5 anos de trabalho forçado por ter roubado um pão. Devido às suas tentativas de fuga, esses anos quase quadruplicam. Assim, Jean Valjean sai de seu confinamento após 19 anos de trabalho forçado nas galés. Expulso de todos os locais devido à sua condição de ex-presidiário, ele é acolhido pelo Bispo Myriel, o qual acaba lhe ensinando uma grande lição: a do perdão e da compaixão. A partir de então, Jean Valjean muda-se para Montreuil-sur-Mer, onde abre uma fábrica têxtil e se torna prefeito.

 

A história de um self-made man?  Muito pelo contrário!

 

A obra “Les Misérables”, do célebre escritor francês Victor Hugo, tornou-se conhecida no mundo inteiro. O livro conta, em inúmeros detalhes, a trajetória de Jean Valjean, seus dilemas de consciência, seu esforço para se inserir na sociedade após sair do confinamento, e seu relacionamento com uma série de personagens. Seria difícil retratar todos os personagens complexos e suas histórias impressionantes contidas em “Les Misérables”: a pobre Fantine que teve que se prostituir para sustentar a filha Cosette, a qual vivia como escrava de uma dupla de capangas inescrupulosos de sobrenome Thénardier; o senhor Mabeuf, que praticamente comete suicídio ao ir às barricadas para morrer depois de perder as relíquias de seus livros devido à situação de extrema pobreza; o jovem Marius, que após descobrir que o pai não o abandonara como o avô havia dado a entender, torna-se um “democrata bonapartista” e posteriormente adere às barricadas; “les amis de l’ABC”, estudantes que defendem os ideais da República Francesa e morrem heroicamente na barricada de 1932; Gavroche e seu espírito de criança-adulto que vive nas ruas; o inspetor Javert e sua mente restrita à ordem social; Jean Valjean e suas múltiplas identidades como Pére Madeleine, Prefeito, Sr. Fauchelevent, e sua eterna luta contra os estigmas advindos das galés [1].

 

Mas, acima de tudo, o título não mente: “Les Misérables” é sobre a miséria. A miséria humana que obriga uma mãe desesperada a se prostituir e que faz que o ex-presidiário tenha que renegar seu nome para viver em sociedade. A mesma miséria que transforma crianças em adultos que devem buscar seu próprio pão. Aquela miséria que leva o velho à morte e o jovem à desesperança ou à revolução. A miséria que pode levar ao roubo, aos golpes, ao crime. Miséria essa que agrupa honestos e patifes em uma mesma categoria, “misérables” como escreve o próprio Hugo. Assim, muitos assuntos são retratados: ideais políticos como a igualdade, os dilemas da revolução, a negligência do povo para com ela, e as consequências da pobreza, entre tantas outras temáticas que permeiam os problemas sociais – que permanecem atuais, aliás.

 

E é por isso mesmo que Jean Valjean jamais poderia ser considerado um self-made man, no sentido restrito do termo, pois a obra traz a ideia oposta: estamos presos às relações sociais, ao status, ao que a sociedade convenciona. Embora tenha conseguido “crescer” de certa forma, Jean Valjean jamais conseguiu se inserir na sociedade como Valjean: sempre que sua identidade foi descoberta, ele foi julgado e condenado ao ostracismo social. Ele era um ex-presidiário e não importava que tivesse cumprido sua pena. A ele foi negado o status de ser humano. Eis a semelhança da obra com o estruturalismo: para os estruturalistas, os processos sociais dependem de uma estrutura, que é inconsciente. Disso decorre que certas práticas e crenças próprias aos indivíduos são geradas pela organização social. Assim, o fenômeno é explicado por meio da posição que eles ocupam no sistema [2].

 

De forma semelhante, os indivíduos não podem ser vistos separadamente e atomicamente fora do contexto da sociedade. Embora eles possuam certa margem de agência e liberdade, grande parte do indivíduo é produto do meio.Valjean não nasceu ladrão: roubou um pão porque precisava alimentar os sete sobrinhos e depois tornou-se ladrão porque assim a sociedade o rotulou e o transformou. O mesmo ocorre com Fantine, que teve que recorrer a medidas extremas – tais como vender cabelo e dentes – para sustentar sua filha. E mesmo assim, o julgamento da sociedade é mortal: Javert não perdoou Fantine, afinal ela estava fora da ordem social. Ela era marginalizada.

 

Isso não significa que o ser humano seja bom por natureza. Hugo deixa isso claro nos Thénardier: uma família de trambiqueiros que deixam os filhos ao relento e passam a vida aplicando golpes. Mesmo depois de fugir da prisão e conseguir dinheiro para sair da Europa, Thénardier acaba se tornando traficante de escravos. A mensagem é óbvia: algumas pessoas seriam do mesmo jeito se estivessem em condições diferentes. Mas talvez grande parte, não. Grande parte da população sofre com as condições que lhe são impostas. Algumas se adaptam, sejam para o bem ou para o mal. E todas elas são julgadas e correm o risco de sofrer algum tipo de marginalização. A sociedade cria, julga e prende o ladrão*. De maneira arbitrária. Afinal, um rico que dirige bêbado ou um político corrupto não é julgado da mesma forma que um pobre que rouba um pão para se alimentar. Isso infelizmente não é ficção.

 

Destarte, não existe um self-made man porque os indivíduos não podem ser integralmente separados de seus meios e relações sociais: alguém que consegue algo, mesmo que “por mérito próprio”, provavelmente teve certas condições para isso. Isso não significa que pessoas não possam superar barreiras, econômicas inclusive, mas que oportunidades são desiguais e isso implica em resultados desiguais, mais do que uma questão de esforço pessoal. A própria definição de mérito é mais complexa do que parece: passamos inicialmente por uma loteria genética, depois ao meio familiar e às restrições de socialização impostas pelos espaços que podemos frequentar. Falar em mérito requere analisar tudo isso: se o indivíduo teve condições de cursar boas escolas, se os pais o apoiaram, se ele tinha saúde, se ele pôde se dedicar exclusivamente aos seus objetivos ao invés de trabalhar exaustivamente para se sustentar.

 

Enfim, embora essa seja uma análise demasiada superficial para uma obra de tal brilhantismo, a mensagem traz (paradoxalmente) a necessidade de se analisar as situações além da superfície. Para aqueles que não leram o livro, deixo essa outra sugestão. Qualquer filme, por melhor que seja, será incapaz de captar todas as sutilezas e reflexões trazidas

 

Ao falecido Hugo, deixo apenas o recado de que é uma pena que um dos personagens que mais tenham me ensinado seja um fictício. Ou talvez, eu esteja enganada. Porque como há muitos Amarildos, talvez existam muito Valjeans invisíveis aos olhos da sociedade.

*Não é a intenção desse texto defender qualquer tipo de crime. Apenas refletir sobre possíveis condições que podem ampliar a tendência à criminalidade e o julgamento arbitrário feito em relação a algumas situações específicas. Não significa tampouco que roubar seja legítimo.

 

Referências:

[1] Victor Hugo. Les Misérables. Lido em três partes.

[2]http://webetab.ac-bordeaux.fr/Etablissement/JMonnet/ses/coursocio/struct.html